28.12.04

Depois que alguém se auto-oxida ou se auto-incendeia sob o seu teto, a casa tem que ser vendida porque parece um túmulo. Mas isso aqui é um mausoléu.

27.12.04

Preâmbulo

O probrema é com os pobres de espírito. Falo especificamente deste país. Um pobre pobre de espírito está no seu lugar, ou pelo menos tem a desculpa perfeita. Não ganha nada deixando de ser pobre de espírito porque as cousas elevadas custam mais caro do que cerveja e tevê; só sofrerá por não tê-las, nem ter como tê-las (alguns criminosos bem surgem desse atrator, não há como negar). É possível que todos os empregos que têm condições de obter comecem a ficar insuportáveis e é possível que acabem, no final das contas, ainda mais pobres. Às vezes podem virar evangélicos. Evangélicos que seguem a doutrina enriquecem depressa, e não porque roubem ou qualquer coisa do gênero, é porque amam o trabalho e abrem empresas, empresas que são supervigiadas mas em compensação os bons empregados sobem rápido, e geralmente também são evangélicos que amam o trabalho. Mas continuam pobres de espírito, é claro, salvo raríssimas exceções. É verdade: Jesus inclui pobres de espírito numa boa-aventurança, não lembro qual, além de comparar os fiéis a ovelhas, pombas, ou seja, nenhum animal de notória inteligência.
Um rico pobre de espírito é não só o que se chama de boçal mas também os que fingem que não vêem os boçais (e os pobres etc.) e os que partem pra cima dos boçais (e dos pobres etc.). Respeito os que notam os boçais, reconhecem que eles são odiosos e juram silenciosamente jamais voltar àquele recinto, recorrendo ao maître somente em último caso (tem uma revelação da MPB na minha sopa); os que têm camisas Lacoste, os que sabem que o mais caro não é quase nunca o melhor; os que vão ao lugar mais discreto, não ao mais badalado. O que é raríssimo.
A classe média tem que ficar fazendo força entre duas paredes que se fecham como uma ostra tentando engoli-la. Muitos pensam em atravessar, é claro, para o lado dos ricos, mas para isso têm que se comportar de tal e tal maneira, falar com tais e tais pessoas, e dependendo da raríssima oportunidade que se lhes apresenta e do rabo que se lhes prende, viram boçais, deslumbrados, pitboys ou adquirem cegueira-surdez seletiva. A zona entre ricos e médios é a mais fértil tanto para os miseráveis como para os nobres de espírito.
Dito isso vamos à

Parábola

A mãe diz que agenda, bateria e óculos de grau não se compra em camelô, mas lá vai a moça olhar a pilha da barraquinha perto do metrô. A marca é Duramark. No meio delas está perdida uma Panasonic. Pergunta quanto está. O homem sai de trás da barraca e se posta à frente dela antes de responder: um e cinqüenta. Nisso, a moça vira a embalagem e vê que está rasgada, as pilhas meio arranhadas, indubitavelmente meio-esvaziadas, reutilizadas, o homem não sai dali - diz:
- Você vai me desculpar, mas esta pilha está aberta. O senhor não tem outra?
Ele olha espantado, como se ela fosse tonta, e mostra as Duramark:
- Tem, sim.
- Não, dessa Panasonic.
Ele procura vagarosamente. Não tem.
- Acabou...
Ele coça a cabeça.
- Olha, leva essa mesmo. Olha só: (ajeita a embalagem para esconder o rasgo) como nova. Nem parece que foi aberta. Está nova, ninguém usou não.
- Não, prefiro não. Obrigada.
- Leva essa aqui então (a Duramark de novo). Vai levar?
- Não... (vagamente assustada) não quero essa marca. Obrigada.
E caminha. O homem fica estatelado no lugar por um segundo. Um segundo depois ele brada, punho cerrado no ar:
- Pobretona! Não tem dinheiro! Tá sem dinheiro nenhum: é por isso que não quis! (Ele olha triunfante para os outros camelôs. Descobriu tudo!) Não tem dinheiro pra comprar a pilha e fugiu, né? Tá sem dinheiro nenhum, não pode pagar, fingiu que não quer! Tá sem dinheiro!
E ele continua além dos limites razoáveis de tempo regulamentar até para uma sessão de insultos cabível, constrangendo a moça por toda a humanidade.
Dois fatos sobre o fim do ano

1. Chineses entram no metrô. Gringos entram no metrô. (Chineses não são gringos porque gringos têm que ser vermelho-camarão e se vestir com bermuda cáqui, camisa de malha e mochila estilosa. Chineses se vestem como os brasileiros e têm cara de nordestinos de olho puxado, mas no fundo, são mineiros, tenho certeza disso.)
Tenho visto cada vez mais chineses turistas. Outro dia estava esperando para atravessar a rua e um ônibus abriu uma porta de onde saíram chineses como coelhos. Reaglomeravam-se ordenadamente e me olhavam: fui a primeira coisa da cidade que eles viram, e devem ter pensado "ué..." em chinês.
No No Shopping, uma das opções era "Juliana" fechar com "Lino" (relaxe, não vê que estamos os dois à margem?). Isso aconteceu. Imagine agora os cafundós de um Ministério chinês, um passando pro outro papéis que ordenam: subsídios às passagens para o Brasil. Propaganda positiva sobre o Brasil. Reportagens no jornal do Estado sobre o Brasil. Os chineses descobrem, subitamente, que o Brasil é um país muito legal e empenham os seus Ren Mi Bi aqui, bem aqui.

2. Me dou conta que vou presenciar ao vivo a chuva de papel picado infalivelmente anunciada pela Globo. Já se tem jogado tímidas bordas de formulário contínuo.
O centro tem sido invadido por estênceis do tipo que eu via perto da minha ex-rua (estênceis do Apavoramento Sound System, que mistura Kraftwerk, batidão de funk e coisas bizarras em geral - fear the bass e baixe os cards de Carrie, Audrey e Scanners). Não sei se são eles. Mas que é algo sistemático, isso é.
Esta é fácil de encontrar: em frente à estação Carioca, na faixa de pedestres, uma caveira cercada por setas vermelhas. Tem outras pela cidade também, geralmente perto do metrô.
Na rua da Quitanda tem uma concentração especial por causa de um parque de tapumes propícios. Tem o rosto do seu Madruga (14 meses de aluguel atrasado), um boneco apontando a arma pra cabeça do outro, entre outras coisas, muitas outras, melhor que o CCBB - e pichações também, dizendo coisas do tipo sorria! você está trabalhando pros outros. Aprendizes de Edukators.

24.12.04

Como Monteiro Lobato estragou a minha vida

O aquecimento de Educação Física era única hora em que as meninas se uniam: para remanchar na corrida, gemer nas duas últimas abdominais, regatear doze em vez de quinze. Mas eu ficava lá, firme até a trigésima abdominal, a quinta flexão, o último passo da corrida: aquilo não doía nada! Se doía, havia coisas que doíam mais, pensava eu, estóica: nunca ouviram falar de Sêneca? De mens sana in corpore sano? Esparta e Atenas? E xingava mentalmente o equivalente greco-evangélico a fuck you bitches, algo como hedonistas, xô pro inferno. Solitária é pouco.
Ler aquilo tudo aos 7 anos de idade, os 12 volumes infantis, e ter gostado mais da História do Mundo para as Crianças e Os Doze trabalhos de Hércules, Tomo Um e Tomo Dois, deu nisso, entre outras coisas.

22.12.04

Estão aqui milhares de sugestões de palavras capazes de exprimir com precisão suas necessidades, idéias e sentimentos.
Então tá.
Coffee-table book

Todos os ricos se conhecem. Apresentar à sociedade. Débuter. Numa transação, os ricos se esbarram. Então ficam dizendo como este mundo é pequeno! em meio a decoração Tok & Stok. O Banco Santos tinha vários clientes importantes, entre eles o grupo Votorantim, estão atrás deles agora. Minha filha estuda no Santo Inácio, o colégio mais humano. Cansei das empregadas -- roubou! Aceita coca light? A outra meteu a menina, seis anos, imagine, no Opala preto do namorado, tinha cara de bandido, pediram para a menina fechar os olhinhos, ficaram no maior amasso no banco da frente. Amenidades. Agora que tal transferirmos estes vinte mil pelo internet banking? Não dá depois das dez, é por causa dos seqüestros-relâmpago.

A reprodução entre ricos e ricos apenas e a falta de mobilidade social provocam a falta de diversidade genética. A falta de diversidade genética provoca crimes estéticos como o que vi comprando um lanche no McDonald's do Leblon outro dia. No Leblon que era onde os Paralelos discotecariam, mas foram enxotados para a Cinelândia para dar lugar para a festa de uma academia (oito anos, data de extrema importância). Coletânea de monstruosidades, monstrinhos de nariz torto, boca grande, dentes horríveis, dedos roliços, unha fêmea, pêlos demais. Aí fazem plástica, passam um mês de adesivo no nariz, um ano de aparelho, as férias num spa, depilação a laser, unha de porcelana, mas Lamarck estava errado. As características adquiridas não passam para os filhos, a tendência é só piorar, bebês com cara de joelho ralado e inflamado de pus.
O crime ambulante estava arrolado como "cocota", numa foto que vi num jornalzinho de terça. "Cocota" na acepção "freqüenta a praia no Leblon". Isso explica o namorado negro e pobre (Cidade dos Homens), com o qual não casará: é permitido se divertir na adolescência, as clínicas clandestinas estão aí pra provar, mas é preciso manter o patrimônio, vão-se os anéizões, ficam os dedões.

18.12.04

A mãe de uma anoréxica de 13 anos dizendo: como assim, não quer? que coisa feia, você nem parece mocinha! coma feito gente grande, vamos.

É isso que vem à cabeça em certas tristes situações.
Limbo ahoy!

Onde o vento faz a curva. Microclima londrino. Máquina de coca-cola a um real. Um-quarto. Perto do metrô. Poucas crianças. Piscina e academia vazias. Vizinhos introvertidos com a casa lotada de livros. Porteiros-gentlemen. Síndico eficiente. Tábuas corridas. Paredes não-brancas. Tomadas, tomadas de sobra. E gente querendo vender.
Parece um lugar criado pela minha imaginação. Mas existe.

15.12.04


You're sick! You're sick! You're sick!

Robert Crumb, América, páginas 66-73. Meu pensamento imediato foi pegar as outras 24 escritoras, ou as outras 49 se contar o próximo volume, e fazer algo assim na ABL. É perto de tudo, uma operação rápida, estratégia simples, ataque durante o chá da tarde, depois era só dispersar: metrô, ônibus, mototáxi. Tenho certeza que convencia pelo menos a Cecília Giannetti, a Ana Paula Maia e a Tatiana Levy. Não sei se Índigo e Clarah tomariam um avião. Mas existe a imprensa, que não está no gibi, literalmente. Aí perde a graça toda.
Bom, mas tomar uma atitude, de qualquer forma, não é questão de ser mulher. Olha aqui algo com que sempre sonhei prestes a acontecer. Uma panelinha de onde sai pipoca, finalmente.

14.12.04

Sobre apartamentos

1. É tão difícil achar um-quarto no Rio. Tudo porque a família é a base da sociedade. Dois quartos é o mínimo construível, um-pro-casal outro-pras-crianças. Até o três quartos é mais individualista que o dois-quartos, que pressupõe um casal ou um dos pais (quarto 1), um filho (quarto 2) e uma filha (quarto 3).
2. Se eu estivesse procurando "dormitórios" ao invés de "quartos", creio que não só acharia um-dormitório fácil fácil, como também prédios mais bonitos. Já passeou por Pinheiros? Aparentemente, como aqui a cidade era bonita, não quiseram se esforçar tanto na arquitetura. Resultado: já passeou por Copacabana? Aqui nesta cidade me dizem: você é muito exigente. Só porque não gosto de prédios pintados com cor de molho de ovo de codorna (rosa-alaranjado), cobertos de fuligem ou de arquitetura monstruosa.
3. Existem, sim, os "maravilhosos" apart-hotéis de um-quarto, de arquitetura linda e muito bem conservados. O que é terrível são os mimos embutidos: você paga, sei lá, 700 reais de condomínio e tem Net, banda larga, arrumadeira, lavanderia, academia, o diabo. Eu acho isso uma coisa perversa: o recém-separado, passado das mãos da mãe à da mulher, é então passado das mãos da mulher para o da instituição. Babás de adultos.
4. Quero aprender a ralar, porra, e quero ralar sozinha, ralar cocos e raízes na ilha deserta, fazer empanados de banana e peixe com farinha de mandioca, sozinha com meus pensamentos. Que sociedade é essa que não reserva ilhas desertas para seus ermitões?

13.12.04

E agora sim falando do filme em si: quem sabe o argumento não veio da própria situação da Pixar, jovial e fantástica fábrica de sonhos obrigada a fazer três filmes, com direitos reservados, para a triste e decadente Disney? (o incrível trabalhando pro medíocre etc.)
Fui ver Os Incríveis no sábado. O filme, vou pular, adorei, certo, e se você não viu, talvez queira deixar pra ler este post depois. Vou falar de depois do filme. Estava na cara que grande parte das pessoas saía do cinema se identificando com a especialidade dos heróis, ah, sim, todos pensando contra a mediocridade uniformizante, todos eles orgulhosos pela própria singularidade, que sentimento gostoso de se perder, e saber que todos se sentem assim também, igualzinho a mim, que ótimo esse filme, hein?
Iupii. Lá vou eu desconstruir a alegria das pessoas:

1. O plano do vilão: criar para si uma especialidade falsa que pretende vender a todo mundo - e, como ele mesmo diz, Se todo mundo é especial, então ninguém é especial. O vilão tem certeza absoluta, inquestionável, de que é especial (Bush). Para ele, seus atos são todos justificáveis porque ele é especial (übermensch, anyone?). A família de heróis sente vontade de ajudar, não é questão de auto-promoção, como no caso do vilão, mas se eles se destacam tanto, e há o que enfrentar, é ridículo obrigá-los a nivelar por baixo.
2. Ouvi dizer que a comunidade do Orkut "Eu sou exceção" conta com mais de 20 000 membros.
3. Anúncios do Itaú ("Feito para você") para todos os que se chamam João etc.
4. O capítulo nove do A louca da casa, Rosa Montero.
5. Alanis Morissette se considera especial. Britney Spears, Paulo Coelho e FHC também.

As pessoas que se acham especiais costumam choramingar muito. Muito biquinho também. O mundo não lhes dá o devido valor. Choramingam nas músicas, seja gemendo mesmo ou arreganhando bocas e caras, e nos jornais, dizendo que os críticos não o compreendem, são preconceituosos e ressentidos, e o reconhecimento daquele cara mais reconhecido que eles não é justo, todo mundo sabe que ele só me imita!
Não digo que não sejam especiais, quem sou eu, mas digo com toda a certeza que os atos de auto-celebração/piedade são todos bem ridículos. Disso nenhuma especialidade transparece, muito pelo contrário.

Especial já perdeu todo o seu valor como rótulo positivo. Hoje, se ouço isso, rio. Especial deveria ser uma coisa muda e generosa, aplicável aos outros em silêncio, e não a si mesmo e em altos brados. Tó gente especial: a que fez Os Incríveis, pelo menos uma parte da equipe deve ser.

Falo com conhecimento de causa. A especialidade é um sentimento adolescente e decadente. Já me achei superfantástica, especial demais etc. até compreender de verdade a lição de outro grande filme, Clube da Luta:

You are not a beautiful and unique snowflake
You are the same decaying organic matter as everything else
We are all part of the same compost heap
We are the all singing, all dancing, crap of the world


Não é bonito. É feiíssimo. Eu sabia fazer muitas coisas melhor que muita gente, mas outras pessoas sabiam fazer muito melhor que eu coisas que eu não sabia, como cozinhar e fazer contas, e isso desmentia minha especialidade. Desmentia porque era falsa, como é falsa a idéia cristãzinha-esquerdinha de que todos são iguais. Nem uma coisa, nem outra. São variáveis: talento, esforço e sorte, ou chame e subdivida como quiser, e monte a sua equação se souber fazer tal coisa. It doesn't get any better than this.

12.12.04

I want it NOW!

Novo de Tim Burton: remake da Fantástica Fábrica de Chocolate. Umpa-lumpas tecladistas e esmagadores de guitarras, Miguel Tevee (ou Tevel pra quem leu o livro) viciado em Playstation e Johnny Depp como Willy Wonka. Vou depenar crianças pra ver na pré-estréia, quero nem saber.

7.12.04

Não sei explicar minha estranha atração por músicas que mudam (de ritmo ou de tom ou de arranjo). Talvez ela tenha começado com #9 dream, do Lennon, que tocava muito quando eu era pequena. Depois se consolidou com Live and let die, que ainda por cima era grandiosa. Tem a Perfeição, que muda no final (Veeeeeenhaa...), uma das poucas que eu gosto do Legião Urbana. Tinha outra, graciosa, do Paul Simon, não me lembro qual... Até a Rapsódia Húngara do Liszt, aliás, tem mudança drástica de ritmo (fica repentinamente frenética...) e a maioria das clássicas contém evoluções e mudanças.
Ultimamente, tenho ouvido muito, exaustivamente mesmo, a Human Wreck do Adult. A versão mais recente, radio edit: que música.
E agora tem a Take me out, do Franz Ferdinand. Eu ouvia no rádio e não entendia o que tinha aquilo. Quer dizer, a música era boa, mas faltava alguma coisa. Quando consegui escutar toda e vi que mudava de ritmo... achei poderosa.
Life in Mono

Amanhã apresento minha monografia. Vou disponibilizá-la aqui (ou em outro lugar) em breve (ou algum dia). O negócio é que fiquei feliz: meti devidamente o pé na jaca. Esse país é muito "bonzinho" na hora de criticar. Isso deixa as pessoas hipersensíveis: se você critica, elas fazem beicinho e começam a dizer que você é mau e que não gosta delas. Então tá. Fui muito "má" nessa monografia, inclusive com gente que eu gosto (muito) mas merecia uma criticada pra melhorar. Mais amigo é quem avisa.

O nome é Mudanças no equilíbrio de poder: o caso Napster. Idiota, mas eu precisava de um nome, e rápido, antes que a Mércia Roseli da secretaria viesse me pegar.

Umas amostras:

Diz-se, é claro, à boca pequena, que Colombo já sabia, ou tinha uma noção de que havia alguma coisa lá, no além-mar, no meio do caminho até as Índias, e foi por isso que, em vez de seguir a costa da África, discretamente virou o leme para estibordo. Esperança? Sede de conhecimento? Vontade de se encontrar, quem sabe? Só se sabe que muitos entram na internet com essa secreta disposição: esbarrar na sua América. O Napster foi a América de muita gente.

Eis a questão: quando o entusiasta da música percebeu que, como ele, muita gente (e cada vez mais gente, pois o número de usuários aumentava a olhos vistos) estava insatisfeita, ele concluiu que as gravadoras é que estavam erradas. O usuário perdeu sua timidez ao constatar-se massa (FREUD, 1974, p. 96 e 97), uma massa com os mesmos interesses, conectada através de um sistema tecnológico revolucionário e voltada para um mesmo ideal quase romântico. O Napster virou uma desobediência civil globalizada (THOREAU, 1876). O senso de responsabilidade de cada indivíduo enfraqueceu: sim, parecia com roubar música, mas as gravadoras não podem processar a todos nós, simplesmente porque precisam de nós - como consumidores[1]. Nem os artistas poderiam reclamar, pois isto os tornaria impopulares[2]. Seria um tiro no pé.

[1] Ironicamente, isto acabou acontecendo. A RIAA processou usuários da rede peer-to-peer de vários programas inspirados no Napster, selecionados a partir de sorteio. Um deles foi uma menina de 12 anos, Brianna LaHara, que alegou pensar que se tratava de um serviço incluído no seu provedor de serviços de internet. (PIROPO, 2003).
[2] Isto também acabou acontecendo. O primeiro e mais famoso caso foi o do grupo Metallica, que conseguiu perder milhares de fãs da noite para o dia.

Mas essas não são da parte mais divertida... tem a conclusão, que mete o pézão na jaca, e antes da conclusão, a parte da análise de discurso, em que eu fiz carinha malvada de expressionismo alemão enquanto teclava.
I will sell this house today

Carolyn Burnham pôs o anúncio da casa em que estou morando no domingo passado, sem me consultar, é claro. Zero pessoas ligaram.

Sim, ela pretende comprar uma casa pra mim com "até metade do dinheiro", mas em nome dela, é claro. Eu preferia juntar mais dinheiro antes de comprar o meu pardieiro (o local para onde uma pássara voa no fim do dia), e até aceitaria isso se ela não fosse fazer o que ela sempre faz: invadir.
Talvez eu venha a mergulhar no lodo da terminologia contratual e emergir com um auto-elaborado contrato, a ser passado pelo crivo de um bom advogado e então assinado e juramentado em cartório, que estipule que ela não terá direito a chave, visita, hospedagem, palpite na decoração, opinião a respeito dos meus convidados ou conversinha com o porteiro (ela arranca qualquer coisa de um porteiro).
Ou talvez eu vá morar de aluguel.

3.12.04

Mais louco é quem me diz

O saxofonista da Carioca toca muito melhor quando está nublado. A diferença é notável. As pessoas passam por ele com cara de o que você está fazendo? me deixe continuar aqui, no meu desespero mudo. Ele grita, o saxofone. Realmente, outra coisa. Quase me fez dar dinheiro pra ele. Mas justo agora, não dá.
Na volta, a minha volta, ele tirou o lábio do bocal para gritar rouco-dolorosamente, A vida é louca! A mulher morreu do meu lado, mas eu continuei vivo! Acabou a frase, soprou de novo num blues-jogral.
Apesar de pessoalmente não usar drogas... i know how it feels.
(Desculpem os puristas, é que passo o dia inteiro vendo inglês na minha frente, e pensando de lá pra cá e de cá pra lá. E o pior é que eu adoro.)
(Episódio em que a Lisa Simpson encontra o Bleeding Gums' Murphy, hm?)
Castelo de cartas. Castelo de areia. Coroa de lata.
Sei qual foi o problema. Mamãe, você não devia ter me deixado ler Pele de Asno.

1.12.04

Eram quatro as irmãs que, fosse na França, se chamariam Adèle, Albertine, Amélie e Marguerite (alias Margot); cantariam pelos prados, colhendo girassóis. Albertine se identificaria com a heroína de Proust, Marguerite (a mais chamada, não por ser a pior, mas a mais consonantal: Mar-guerrrr-rri-te!) imitaria a Joana D'Arc, Amélie viveria uma vida Poulain e Adèle ia fazer queijo e fumar; fossem inglesas, ou americanas, seriam apenas dois os nomes decentes, Delia e Amelia, mas os apelidos de Maggie e Tina compensariam seus títulos feiosos; iriam em grupo à universidade de pulôver xadrez, giggling à vista dos rapazes de olhos verdes. Mas não, elas tinham que nascer no Brasil e se chamarem Adélia, Albertina, Amélia e Margarida/Guida, e a história nem queiram saber, nem os filhos, nem os netos.