25.12.05

Ganhei duas irmãs de natal. Já prontas, crescidas, que não tenho paciência com criança. Importadas de Curitiba, ainda por cima. O problema, claro, é elas sentirem saudades de Curitiba. Quanto mais tiverem contato com o Rio de Janeiro, mais periga quererem voltar. Estou tentando mostrar algo de louvável sobre esta cidade a elas, mas acho mais fácil é eu acabar me mudando pra Curitiba.

23.12.05

22.12.05

relendo

Algumas pessoas que escrevem recomendam ler seu texto em voz alta para ver se "soa bem". Por quê? Porque isso faz com que você absorva o texto sem a carga da idéia que custou tanto pra ser posta no papel, te distancia do texto o bastante para você saber o que está esquisito. Só que isso não funciona pra mim. A minha voz, mesmo não sendo a mais radiofônica, é emitida (quando é) no ritmo dos meus pensamentos (o que muitas vezes me faz atropelar a frase e até trocar palavras de lugar, dislexicamente). Então, o que ouço quando leio em voz alta é uma voz humilde recitando em ritmo de pensamento, nada muito diferente de ler direto.
Então comecei a fazer versões dos trechos. Traduzir para o inglês. Isto sim não é automático e me faz pensar em todo o sentido de cada palavra. Pode até não sair perfeito mas o objetivo não é esse, mesmo.

I could wait for some stray bullet to come cross me. I guess they actually can?t be named stray at all - they're stubborn. Self-willed, an opposing will; and if so-called stray bullets won't find even the one who their master means, so much for one who yearns to be found by one of them. The same applies to serially violated traffic lights, like a take-off run. It could work, it could, but it would be very selfish of me towards the driver.

My hair was a thick ivy opening up in branches, fed off by the heat, climbing my face, twisting around my lashes and crawling about my neck. I would pick it off with my hand, usedly-to. They'd come back soon, ropes entering the ear, the eye, the breasts, tickling, choking, I'd rip'em off, they'd come right back.

Is is possible to derive lots of implications, some serious, some funny. All interesting, no doubt. But nothing he did not know about, having sold his soul oh so long ago. Stopped asking why this world is so damn cruel. He was professionally evil and great doing his job. Yeah, in the real life department he'd get his ass kicked all the time for trying to achieve milimetric decency. A self-inflicted karma. His psychiatrist called that 'a positive searching'. So that he wasn't a monster by personal talent, just in office.

21.12.05

Meu livro não é Brasília

Acho que quando os legistas se aproximarem do meu livro novo com seus instrumentos, vão ficar seriamente encafifados. Eles buscarão alguma prova de crime, algo como um sinal de evolução ou involução da minha prosa ou pessoa, e eu pulverizei tudo, desbaratei. Se você faz uma coisa completamente diferente, isso certamente é um sinal de que você se esforça; não é sinal de que "melhorou" nem confirmação de que "é bom". É como se eu começasse com placas de trânsito e passasse para sinais de fumaça. Peguei pesado no tom teatral e solene, e as pessoas que "curtiam" o meu "estilo jornalístico" talvez vomitem após algumas páginas. Eu sei de tudo isso, e mesmo tendo pensado em escrever um livro diferente, menos "calça estampada", menos contrário às tendências da moda, escrevi uma coisa que não é inspirada na minha experiência pessoal, não é curtinha, não é fragmentada, não é não-linear, não é despretensiosa, não tem um tom de "planície". É exatamente o anti-exemplo que todos estavam esperando para sapatear em cima. Mas é que nem com assalto: eu sei que tem, mas isso não vai me impedir de andar sozinha e com ipod pra cima e pra baixo.

19.12.05

cicatrizes de guerra

- O que é isso no seu ombro?
- Só um emplastro, está dolorido por causa das facadas.
- Facadas???
- Estiletadas. Aí não posso me apoiar no tronco, a força fica toda no ombro, sabe.
- Nossa, então isso no seu cotovelo foi uma facada?
- Não, isso foi um acidente de bicicleta.

Mas realmente, as três vezes em que me machuquei nessa cidade envolveram machismo e música.
A primeira vez eu tinha saído de uma pesquisa na Biblioteca Nacional e estava ali nas banquinhas de CD do lado de fora. Um gordo sebento com rabo-de-cavalo gritou no meu ouvido, com direito a perdigotos:
- Chuchu!
E continuou andando. Eu continuei vendo o que eu estava vendo, só que deixei a mão esquerda, bem do lado da perna, com o dedo do meio em riste. O cara olhou pra trás (porque quis ver a minha bunda) e viu. Foi-se embora.
Cinco minutos depois, eu estava já na terceira banquinha depois daquela, não é que o cara me volta? Gritando.
- Você não pode mandar qualquer um tomar no cu não! Você sabe com quem você está falando? Você sabe com quem você "pode" estar falando?
etc.
Reagi. A uma besta daquelas eu reagi. Acabou comigo numa delegacia, o rosto todo lanhado porque ele tinha simplesmente esfregado os meus óculos na minha cara. E ainda quebrou o óculos. Não fiquei com a menor cicatriz.

Segunda vez, um ponto de táxi numa rua estreita. Do outro lado, uma fila de carros estacionados irregularmente, me deixando apenas uma pista estreitíssima para passar com minha bicicleta e cheio de carros zangados buzinando atrás. Não podia subir na calçada, a justeza com que os táxis se encaixavam um no outro não deixava.
Como se não bastasse, dois taxistas conversavam com seus colegas dentro dos carros - ou seja, no meio da rua, com as bundas curvadas pra fora como prostitutas. Lembro que estava com o ipod - Bulletproof Cupid, do Placebo - e buzinei uma vez, tlim. O cara ouviu mas nem se dignou a olhar. Buzinei novamente, tlim, o cara ergueu os olhos, que apertou, incrédulo: fez exatamente a cara de quem achou ridículo ser arrancado de seu delicioso bate-papo por uma mocinha petulante de bicicleta que fazia tlim; e abriu os braços fazendo que ia avançar em cima da mocinha, dizendo bahhh como uma múmia de parque de diversões. Consegui milagrosamente desviar do taxista-pedestre (que mesmo babaca, tem a porra da preferência) sem cair, mas não consegui manter o equilíbrio depois do segundo taxista-pedestre, logo à frente. Derrapei no meu braço esquerdo. Hoje tenho uma cicatriz.

A terceira está aí embaixo. Só não contei o que estava ouvindo: Like a rolling stone, versão do Bob Dylan.

16.12.05

enjoy the silence



(O Globo, 12 de dezembro de 2005.)
Ladrões ferem jovem a faca em Botafogo

Simone Silva Campos, de 22 anos, foi esfaqueada ontem à noite durante uma tentativa de assalto em Botafogo. Ela caminhava na Rua Dona Mariana quando foi abordada por dois homens armados de faca e estilete, que queriam levar seu Ipod. Depois de reagir, ela foi golpeada com um estilete na barriga e nas costas. A dupla fugiu sem levar nada e a vítima, que está fora de perigo, foi levada para o Hospital Miguel Couto, na Gávea. O caso foi registrado na 10ª DP (Botafogo).


Eles quiseram me entrevistar, mas eu não deixei. Resolvi dar uma exclusiva para o meu próprio blog.
Eu não reagi coisíssima nenhuma. Se reagi, não foi a um assalto. Eu estava voltando do supermercado com uma Ruffles Churrasco de 200g e um iogurte de morango. Bermuda e camiseta. O ipod no bolso, a carteira no outro, a chave no terceiro. E um guarda-chuva, que chovia. Plena luz do dia, pouco depois das 5 e meia da tarde.
Ando rápido, nenhum pivete consegue me pegar. Então tem dois caras andando na minha frente, uns 30 anos, calça comprida, casacos, sapato social. Quando me aproximo deles, o mais baixinho olha pra trás, acho compreensível - medo de assalto - e cochicha algo com o outro. O baixinho anda até mim, que paro, sem mostrar nenhuma arma, sem dizer nenhuma palavra, e olhando pro meu corpo. Pensei: tarado, e tentei impedir o seu avanço com o guarda-chuva. Ele empurrou o guarda-chuva pro lado e me deu duas estocadas com a faca-olfa que agora eu estava vendo, toda enferrujada e de lâmina completamente pra fora; não sinto nada parecido com dor. Não acredito que acabei de levar duas estocadas. Protejo a barriga com a mão. O homem agora repete dá o aipódi, dá o aipódi que eu estou protegendo com as mãos, junto com a barriga ferida, enquanto grito, tendo entendido agora que é um assalto; ele arranca o fone dos ouvidos enquanto repete mais dá o aipódi. O fone fica metade na mão dele, que corre dos meus gritos junto com o outro. Grito muito mais, conscienciosa, para que corram; e pega ladrão e fui assaltada e tudo isso. Estando eles longe, pisco os dois olhos e decido continuar a andar até em casa; a mão ainda protege o ferimento. Dou um primeiro passo e resolvo levantar a blusa e dar uma olhada. É uma mistura de sangue abundante com água de chuva e uma bola amarela - pus? (O cirurgião me explicou que era gordura. Ganhei uma lipo de brinde.) Suspirando, deito no chão molhado decidindo que é melhor não arriscar um desmaio; chove em mim; grito mais para atrair Curiosos, fui esfaqueada e me assaltaram. Eles vêm. Espero a pergunta (o que aconteceu???) repito que fui assaltada e me esfaquearam; o que os Curiosos repetem entre si como um viveiro de pássaros. Vendo que estão satisfeitos, aproveito para pedir que liguem para a emergência, 190, e que meu nome é tal e o da minha mãe é tal, aliás seria aconselhável também ligar para ela, cujo telefone também era tal, coisa que eles fizeram. Disseram pra pressionar, pressionei; pedi para o senhor fumante fumar um pouco mais para lá, por favor, e tentei alcançar (e me passaram) meu guarda-chuva, ainda aberto no chão, para cobrir a cara, não as feridas. Chegaram os bombeiros e me atenderam; pouco depois chegou a minha mãe. Fui pro Miguel Couto e depois para o Quinta D'Or.

Primeiro dia, CTI. Dormi 3 horas, tinham me posto na frente de uma senhora que exigiu seus analgésicos a madrugada inteira, batendo com o troço plástico que fica preso no dedo na beira da cama (ainda não está na hora, dona Isabel...). As outras horas passei sacaneando a linha branca do eletrocardiograma, que descobri que era a respiração. Consegui controlar as batidas do coração também (Scanners), mas achei melhor não bulir muito com isso.
Depois fiquei num quarto lendo Morvern Callar (moça cujo nome significa a mudez mais quieta) cheia de visitas em volta. As visitas se dividiam em desejáveis e indesejáveis. E o pior é que não dava pra fugir.
TV aberta e ninguém achava meus outros livros pra me dar. Vi A Identidade Bourne, Billy Elliot que me fez dançar escondida no banheiro com o ipod, até por causa do cenário raver de Morvern, um filme de Kung Fu com bastante porrada. Cancelaram o Chaves, agora tem Family Feud. Adivinhei algumas coisas.
Vi outras coisas bizarras, como uma espécie de Rei Leão live-action que passou na Sessão da Tarde e o Cristóvam Buarque dando entrevista no Ratinho.
Fiquei com soro três dias e quando foram tirar, desmaiei. Por causa disso fiquei mais um dia (com a condição de que não encostassem em mim mais nenhuma agulha).
Então agora estou ótima, não foi atingido nenhum órgão interno e não estou com medo de andar na rua.
O problema é que vão continuar estimulando loucamente o consumo e falando de décimos-terceiros e enchendo a cabeça das pessoas de fantasias de fartura natalina e tanto dinheiro correndo por aí, basta pegar. As enfermeiras do Quinta vieram compartilhar suas histórias de assalto comigo; é o Natal, é o Natal.

10.12.05

ayanamireificação
(hai sensei)


às vezes sou fria, mas depois vocês vão me agradecer
Eu quero gostar dos livros dos autores brasileiros, mas eles não colaboram... às vezes gente legal, amiga, eu quero gostar dos livros de vocês. Mas fazem a mesma coisa que outros fizeram - e aqui entraria o grande parêntesis para dizer que tudo já foi feito e só resta copiar, e eu sei, mas estou falando de transfigurar tipo o J.T.Leroy consegue, tem Salinger ali all over como numa cena de crime mas não é Salinger, é Leroy! Fantástico, não?
Escolham pelo menos fontes mais criativas pra copiar. Senão, além de tudo, seus livros vão se parecer muito entre si. Vão beber da poesia, da arte, do videoclipe, do videogame. Parem de imitar a Clarice Lispector ou o Rubem Fonseca ou o Nick Hornby ou quem quer que seja. É mil vezes melhor ser você mesmo que uma cópia perfeita de outra pessoa. Auto-ajuda, eu sei. Blé.

1.12.05

como escrever

Nível Um

Você está andando na rua e sente que algo de maravilhoso e terrível está por acontecer, e seu personagem andará na rua pensando que algo de maravilhoso e terrível está por acontecer.

Nível Dois

Você está andando na rua e sente que algo de maravilhoso e terrível está por acontecer, e seu personagem pensará como odeia pessoas que sentem que algo de maravilhoso e terrível está por acontecer.

Nível Três

Você está andando na rua e sente que algo de maravilhoso e terrível está por acontecer, e seu personagem demonstrará como odeia pessoas que acreditam em milagres.

Nível Quatro

Você está andando na rua e sente que algo de maravilhoso e terrível está por acontecer, vai ao supermercado, tira uma xerox, tem um dia incrivelmente ruim ou surreal, senta-se num banco de praça, e seu personagem não se adaptará às circunstâncias.

Acredito em distâncias.