19.12.08

inveja afro-brasileirinha

Cacete, por que as invejas que as pessoas admitem sempre são brancas? Que preconceito com as invejas de cor -- amarelo bile, por exemplo.
A máxima de que o brasileiro só se sente invejado, nunca inveja, parecia ser verdade na minha vida até a quarta série, quando tirar 10 sem esforço era status. Eu não entendia as hostilidades de algumas das minhas coleguinhas. As pessoas que gostavam de mim, pequenas e grandes, me explicaram: era inveja. Mas de quê? Dessa besteira?, eu pensava.
Ao mesmo tempo, como já falei por aqui, eu queria dominar o mundo, um sonho que -- explicitamente -- só durou até os sete anos. Para isso, era necessário ser mais inteligente do que os outros, mas nem sempre eu era. Cada vez que alguém tirava uma nota maior que a minha, eu morria de ódio (inveja nem tanto) porque estava mais longe da world domination. Por fim, quando percebi que minha inteligência analítica era nula (não sei nem multiplicar por dois de cabeça, agora que estou destreinada), desisti de dominar o mundo -- pelo menos sozinha.
Mas voltando à vaca fria, inveja branca se aplica bem àqueles momentos em que você lê um trecho do sujeito e gosta tanto que deseja ter escrito aquilo. Mas quando você começa a desejar que pudesse voltar no tempo, trucidar o sujeito e roubar seu original (ou publicar antes dele, processando-o depois por plágio), essa inveja não é mais branca, certo?
De minha parte, quando leio um trecho muito bom, não sinto nada parecido com inveja. Me sinto irmã do autor. Me sinto encontrada.
Inveja sinto muita, e nada branca, de quem não precisa trabalhar. Queria demais não precisar fazer oito horas de tradução por dia para me dedicar só a escrever. Foi muito bom o ano da Petrobolsa, a coisa mais próxima que terei disso antes de virar medalhão.