27.11.15

Para a minha avó

Desde a primeira cantada de rua (eu devia ter 11 ou 12 anos), fui reclamar com as mulheres da minha família, indignada. Minha avó sempre dizia: "vai querer mudar o mundo?", como se fosse algo errado se indignar com aquilo. E dizia que era para eu achar engraçado. Que eu tinha que rir. O pior é que, no fundo, ela concordava comigo, eu sei disso. Só estava frustrada porque a sociedade inteira ficou a vida inteira não concordando com ela.
Eu mesma passei quinze anos nesse blog reclamando de cantadas de rua. Nem sempre fui uma feminista exemplar: posts antigos têm um tom slutshamer e/ou elitista. Mas a indignação estava lá. Nunca a deixei morrer.
Nesse meio tempo, fui rareando os posts que reclamavam especificamente de cantadas porque aqui mesmo, quando tinha caixa de comentários, várias pessoas, homens e mulheres, vinham me dissuadir. Diziam que "pegava mal". Perguntavam: "ué, mas você não gosta de ser paquerada?" (Não. Depois de 50 posts, não era óbvio?). Declaravam em outro lugar que até gostavam do meu blog antes, mas agora já não aguentavam mais ouvir eu reclamar de cantadas, e que a vontade era me gritar "gostosaaaa!" (mas não na minha cara, lógico).
E acabei desistindo de reclamar pra fora. Guardei minha indignação para mim, porque ela não encontrava eco nem na internet -- que me deu eco para meu apreço por quadrinhos e videogames e tantas coisas "esquisitas de mulher gostar". Perdi as esperanças.
E, algum tempo depois que desisti, começou a existir rede social "pra valer". E celulares com câmera. As mulheres descobriram o feminismo, e, mais importante, a sororidade. Elas começaram a reclamar de cantadas, de assédio, de passada de mão, de exibicionista e abusador de metrô, de pedofilia, de agressão e de tantas coisas que as incomodavam sistematicamente. E mais importante: aprenderam a reclamar da reclamação indevida dos outros ("ah, mas você reclama demais...").
E em 2015 isso atingiu uma massa crítica. Em 2015 as mulheres se cansaram de aguentar o que minha avó aguentou a vida inteira calada. Estou muito orgulhosa de todas nós. Queria que minha avó pudesse ver isso. Tenho certeza de que ela adoraria, e se sentiria representada, e ia começar a falar noutro tom.

Minha avó nasceu em 1930, no Rio mesmo. Adorava a escola -- pública, de qualidade, do Getúlio Vargas --, era inteligente, e só tirava notas altas. Mas teve que sair da escola na 7a série para ir trabalhar e ajudar no orçamento doméstico, pois só tinha irmãs (três!) e meu bisavô ficou incapacitado. E além disso, mulher vai só casar mesmo, pra quê educá-la?
Corta pra uns 4 anos depois, minha avó trabalhando numa casa comercial, 18 anos, se candidata a Miss Mi-Carême (Meia Quaresma, o que hoje se chama de... micareta). Era um concurso só para "modistas", ou seja, balconistas de butiques chiques. Minha bisavó descobriu que haveria desfile em traje de banho (quer dizer, um maiô super comportado pros padrões de hoje) e proibiu minha avó de desfilar. E assim ela perdeu sua segunda grande chance de ser alguém.
Quando mesmo as melhores de nós são podadas tão cedo, não dá para vencer nem pela beleza nem pela inteligência...
Espero que possamos mudar isso, ainda que tardiamente.

Albertina Rodrigues, minha avó materna, na época de sua candidatura a Miss Mi-Carême.


12.11.15

A boa menina leitora

I.                    Hilda Hilst

A boa menina leitora é calada, tímida e vive com a cara enfiada no livro. Recentemente, ela ganhou a variação geek girl, maníaca por tecnologia e games. Ela não usa minissaia. Não pratica esportes, especialmente de contato. Não pode ter vida sexual detectável. E, mesmo que se torne escritora, escreverá polidamente. Que escreva as maiores barbaridades, mas há de escrevê-las com parágrafos respeitavelmente longos e fluxo de consciência, sem palavrões; se preferir um estilo experimental e entrecortado, embaixo dele o leitor só deve ver platitudes pseudorrevoltadas.

Ao que parece, não existe (ou ninguém aguentaria) uma mulher forte em ambas as frentes: a temática e a estilística.

E aí temos a Hilda Hilst, que foi os dois. Temática e estilisticamente forte. Tanto “intelectual respeitada” como “alternativa”. Escritora de barbaridades... com estilo (e palavrões). Como? Sendo foda. Não digo “genial” porque isso implicaria em me subscrever à ideia romântica de escritor “original” que tira a “inspiração” de seu gênio interior. Hilda extraía sua matéria-prima de seu mundo interior, sim, mas também da natureza e do sagrado. Que, para ela, eram meio que a mesma coisa.

Depois de Hilda, então, “se dar ao respeito pra obter respeito” na literatura, sendo mulher, hoje em dia, se torna uma falácia incontornável.

Temos é que dar com o pé na porta.


II.                  Bom, barato e cordato

Essa ideia genérica de que “é bonito” ser escritor/ter paixão pela leitura ou “pela literatura” se torna especialmente perniciosa quando se é mulher. Receber ofertas de trabalho, a gente recebe: mas 50% são para trabalhar de graça, 35% para trabalhar ganhando um trocado, e 15% para trabalhar ganhando menos que nosso(s) amigo(s) homem(ns) – com quem, sim, a gente conversa. A gente acaba se concentrando nesses 15%, convencidas de que, se mostrarmos serviço, a coisa vai andar – e por andar queremos dizer que ganharemos mais. Mas não é assim que a coisa anda. Simplesmente ficamos congeladas feito um preço de supermercado na época do Sarney presidente. O custo de vida? Continua aumentando.

E você olha para os lados e vê suas amigas mulheres passando pela mesma coisa.

Você acaba entendendo que a boa menina leitora é vista como uma reserva de força de trabalho barata – e boa, porque sempre se esforçando para mostrar serviço. E mais: se o dinheiro fica curto e a editora resolve escolher alguns otários para não receber (em vez de pegar um empréstimo e honrar seus compromissos), quem ela calota? A boa menina leitora, que, na cabeça do mau pagador, vai ficar quietinha.

Aí ela não fica quietinha. E vira persona non grata.

Mesma coisa quando pede um aumento para continuar o ótimo trabalho que vem fazendo.

Pô, como assim, você era nosso porto seguro de bom-e-barato-e-cordato! Você nunca foi de criar problema!


Não, queridos. Vocês só não nos conheciam o suficiente.

29.10.15

A ingratidão da musa

                Estava lendo o Twitter de Paulo Coelho – sim, eu o assino – quando encontrei uma reclamação: “certa vez tive uma musa... e aí ela me acusou no Sunday Times de ‘roubar sua alma!’”. E postou uma matéria onde Christina Lamb, jornalista de guerra, se queixava de ter sido escolhida como musa da personagem principal de O Zahir, reconhecendo também que ficara lisonjeada com a homenagem. Mas, para ela, o saldo final era negativo. Dizia, de fato, que sua alma fora roubada.

                O efeito cumulativo

                Originalmente, a musa era uma divindade que inspirava o autor segundo sua arte: Calíope inspirava o orador público, Terpsícore os dançarinos, o dramaturgo tinha a ajuda de Melpômene... assim, muitas obras começavam com a invocação às musas. Mas a metáfora não demorou nadinha a se deslocar para mulheres reais. Safo, poetisa da ilha de Lesbos, logo foi arrolada como “a décima musa” por ninguém menos que Platão. E hoje é assim que entendemos “musa”: uma mulher que se destaca em algum campo (até mesmo o de futebol) e é bonita, atraente.

                No mundo literário, chamar de musa é considerado o jeito elegante de expressar interesse sexual, ou de reconhecer que seu magnetismo sexual é tão grande que você até foi aproveitada como personagem (uau!). Nunca vi ninguém chamando o DFW de muso do Franzen e do Eugenides. Deve ser porque nesse caso eles têm direito de existir como outras coisas (sujeitos, por exemplo), e ninguém se sentiria confortável sugerindo homossexualidade aí. Então tem, sim, uma sugestão sexual em chamar alguém de musa, pelo menos hoje em dia. E tem, sim, machismo.

                Explicar que você não gosta da pecha de musa é como explicar que você não está a fim de levar uma cantada. É atenção na hora errada, do jeito errado, no lugar errado. E é prejudicada pelo efeito cumulativo: parece que tudo o que querem com você é te chamar de musa e/ou pegar sua vida e reescrever do jeito deles. Ler o que você escreve? Que nada.

                A musa involuntária

                Não sou hipócrita: todos e todas precisam de atenção para fazer suas coisas – seja essa coisa conseguir alguém com quem trepar, seja avançar na carreira – mas no caso das mulheres essas atenções vêm muito contaminadas umas pelas outras. MUITO. Não dá para descontaminar totalmente (nem acredito que deveria), mas se é assim que acontece...

                ...alguém aí já viu Mad Men? (E Mad Max?)

                Hoje em dia, certas coisas mudaram. Há muito incentivo para a mulher sair da feminice tradicional (casa, filhos, marido) e se concentrar em carreira, experimentações sexuais, hobbies considerados masculinos (futebol, videogames, marcenaria). Mas uma vez que você chega nesses “lugares” onde é minoria, você se torna objeto de desejo, já que está tão “perto do coração dos homens”. Mas justamente agora que eu estava tentando ser um sujeito?, você pensa.

                Hoje precisamos mais de espaço para atuar do que príncipes para nos salvar desse trabalho todo de sermos alguém. O irônico é que as mulheres que querem desesperadamente ocupar esse pedestal de musa não interessam aos eleitores de musas. Todos sabem que a moça que jura que foi musa de livro X ou vive tentando colar no autor Y não é mesmo a musa (sabem, não é?). Os eleitores de musas gostam justamente das que não querem saber disso. Por quê? Porque beleza não é tudo. Eles querem também morcegar a sua vida, aquela que você construiu pra você a duras penas.

                A musa como double bind (duplo constrangimento)

                É uma cilada, Bino! Uma armadilha clássica. Você faz uma coisa por um motivo pessoal e afetivo (tocar bateria, escalar montanhas) e a maioria masculina te trata como se você estivesse ali com segundas intenções: conseguir homem, é claro. Mais especificamente, ele. “Pode parar de fingir que gosta mesmo de estudar engenharia: você já me encontrou!”

                Por dizer não para esse narcisismo masculino tão tolerado e insidioso, você se torna um pouco odiada também, por “invadir o mundo masculino”, imagine só, querendo ser melhor que eles. Quem tem terceiras intenções, que fique claro, são eles – e ela se chama “te manter no teu lugar”.

                Essa armadilha que mencionei também tem nome. É o famoso double bind, que costuma ser traduzido como duplo vínculo ou duplo constrangimento; em bom português, “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Você pode dizer não pros homens do seu campo até se ver emparedada pelo ressentimento alheio, ou dizer sim (querendo de verdade ou não) e virar “a namorada do Fulano” ou “a piranha do pedaço” – coisas que também emparedam. De qualquer modo, você geralmente acaba odiando tudo nesse campo, a começar pelos seus colegas, a terminar pelo fato de não ascender na carreira, batendo no tal teto de vidro. “Eu até queria ir no ensaio hoje, mas para isso tenho que enfrentar aquele clima estranho na banda depois que fiquei com Cicrano e disse não pro Beltrano...” Para sair da relação doentia, o único meio é deixar o seu campo para trás (“provando” mais uma vez que “mulheres não são ‘feitas’ pra isso”).

                É o que muitas fazem: desistem. Desistem de uma relação afetiva com a ciência, a programação, a cultura nerd ou o que seja porque ligam mais para sua saúde mental (copyright Jane Eyre, 1847). Uma relação que tinha tudo para ser saudável, mas acaba tóxica porque o campo é constituído de pessoas, as pessoas são na maioria machistas e você só queria ser feliz deixando acontecer naturalmente – o que fosse, até sexo. E o que acontece não tem nada de natural: é uma tentativa de manter as coisas como são, perversas.

                O roubo de cena e o disclaimer “nem todo homem”

                Nem todo homem é mal intencionado. Quando alguém arrola uma mulher como musa, e praticamente aponta quem é, talvez genuinamente não entenda como é ruim para nós essa “grande honra”. Então vou explicar.

                Muitas de nós lutamos a vida inteira para poder agir como sujeito de nossas vidas: fazer karatê em vez de balé, poder sair à noite, cursar química e não nutrição. Alguém escolher pegar nossas vidas que tanto lutamos para moldar sob nossos próprios olhos (exigentíssimos!) e, sem nos consultar, expô-la como criação sua aos olhos dos outros é ultrajante e doloroso. Nos rouba a cena enquanto finge divulgá-la. Ao mesmo tempo que essa escolha reconhece externamente como “interessante” a identidade que tanto nos custou para montar, sugere, querendo ou não, que ela carece de validação externa – uma validação historicamente concedida... por homens. E geralmente por motivos como... beleza física – daí a palavra “musa” ser tão incômoda para nós, que queremos ser mais que um rostinho bonito. Ou seríamos modelos, misses, rainhas do bumbum.

                (Nada contra essas profissões. Mesmo. Mas me disseram, e acreditei, que escolhendo uma profissão não relacionada com o corpo eu teria muito menos problemas com homens infantis e abusados. E não é verdade não.)

                (Em tempo: Gisele Bündchen é musa porque trouxe algo além da beleza pros desfiles. Uma vivacidade, uma alegria de viver, uma espontaneidade que as modelos em geral não têm. Mas, acima de tudo, profissionalismo. Ela conseguiu ser sujeito.)

                Vamos dizer que você seja escritor e considera uma mulher real a sua musa. Acha ela bonita, acha foda o que ela fez com a própria vida. Longe de mim querer te proibir de se inspirar em alguém para escrever. Se o objetivo é esse, o que seria elegante? Decompõe a mulher, cara. Decompõe em vários personagens, não diga quem os inspirou. Diga que foram várias. Diga que não foi ninguém. E não conte para ela. Não a coloque nessa berlinda terrível, nesse double bind. Porque ou ela fala que não curtiu e prejudica a relação entre vocês, ou engole o sapo e prejudica a relação entre vocês.

                Agora, se o seu objetivo é pegar sua musa, e ela é uma mulher empenhada em ter vida própria, vou contar um segredo de polichinelo: não vai dar certo. Quando a mulher fica sabendo que foi/é sua musa, ela automaticamente perde qualquer tesão que porventura ela já tenha nutrido por você. Porque você não entende, não entende...! (Se quer entender, releia o texto.)

                Fica o alerta: não adianta se ressentir por ela não querer ocupar esse pedestal que você escolheu unilateralmente para ela. Ela vai se sentir roubada, não homenageada. Não é você; é que são muitos “vocês” e ela já está de saco cheio de ficar ali em cima sem fazer nada.

                A sensação que tenho, no entanto, é que a maioria dos homens que nos colocam nesse poleiro já sabe muito bem disso. Ficar lembrando continuamente que somos mulheres – seja com cantadas e “elogios” ou cobranças de conhecimento profundo do campo –, com toda a carga de bosta que atrelaram à identidade “feminino” (frágil, emotiva, irracional, fútil, complicada, inexplicável, esquisita, misteriosa, alienígena...), me parece, hoje em dia, só um jeito canalha de nos exasperar e enxotar do espaço que adorariam que fosse só deles. Não vai ser não, amigo. Já estamos ligadas nesse mecanismo, e ligadas umas com as outras. O circuito alternativo, aquele que levanta a bola também das mulheres, já está acontecendo, e o circuito machista vai encolher até sumir. Nem que seja por não se reproduzir...


                Esteja o rapaz nessa por inocência ou com malícia, o fato é que uma hora ele vai rodar. Não esqueça, além de criadoras, nós também somos o público.

16.8.15

Será que o presente é o futuro? - Notas sobre tempos verbais

Uma crítica recente de Antônio Ramos da Silva ao meu último romance, A vez de morrer, elogiava bastante o livro, exceto pelo uso de pretérito mais-que-perfeito (qualificado de "insistente"). Não é a primeira vez que questionam esse uso, então vou brincar de oficina literária aqui e explicitar o que há por trás do meu uso desse tempo verbal, dentro da tradição literária.

Línguas latinas, como o português, francês e espanhol, costumam render frases maiores para exprimir "uma mesma" ideia do que línguas germânicas, como o inglês e o alemão. (Coloco "uma mesma" entre aspas porque, enquanto não está em palavras, não considero ainda essa pré-ideia uma ideia, e uma vez posta em palavras de idiomas diferentes, já não é a mesma ideia. Sei porque traduzo...) Daí o autor de língua latina que quer exprimir uma ideia complexa precisa se virar nos trinta para não deixar a frase irremediavelmente feia e troncha, cheia de "de" e de verbos auxiliares.

Para evitar esses verbos auxiliares, um truque comum na literatura em francês é usar o passé simple, que equivale mais ou menos ao nosso pretérito perfeito e, na terceira pessoa do singular, termina em "a". (Por exemplo: "ele passou" fica "il passa". Para um leitor que fala português e não francês, fica parecendo o nosso presente do indicativo.) Acontece que esse tempo verbal nunca é usado na fala cotidiana em francês. No dia a dia eles usam o passé composé, com verbo auxiliar (il a passé), também equivalente ao nosso pretérito perfeito. É mais fácil de conjugar, mais coloquial. Mas na hora de narrar... recorrem ao "empolado" passé simple. A única explicação para isso me parece que é para a frase ficar menos pesada.

Em português, além de recorrer ao mais-que-perfeito, outra solução é colocar o livro todo no presente. Fiz isso no livro A feia noite, meu segundo romance, após No shopping. Assim, você terá lindos e sucintos verbos terminados em "o" na primeira pessoa (passo) e "a" na terceira (passa). Em terceira pessoa, nosso presente do indicativo fica sumário como o passé simple do francês, sem a empolação. Ao se referir ao passado, você geralmente vai usar o pretérito perfeito - quase nunca terá que usar tempos compostos. Aparentemente, só vantagens. Sendo assim, será que o presente (do indicativo) é o futuro? Todos os livros que se almejem bons/de sucesso devem ser escritos no presente?

Creio que não. No caso de A feia noite, tratava-se de personagens em crise, passando por situações que os tiravam de sua zona de conforto todos os dias (ou melhor, todas as noites, pois o livro se passa quase todo à noite). Estava difícil continuar escrevendo no passado, denotando que os personagens teriam sobrevivido a tudo aquilo (e depois de tudo sobraria alguém para narrar). Além do mais, o livro é propositalmente empolado. Para tirar um pouco dessa empolação do nível da frase e tirar a impressão de que os personagens sobreviveriam para contar (no passado) o que lhes acontecera, passei o livro todo para o presente. Ficou muito melhor. A história deslanchou e pude terminá-la.

Mas, no A vez de morrer, não senti vontade de usar o mesmo recurso. Até pensei em usá-lo, pois novamente era uma personagem saindo de sua zona de conforto e se arriscando (inclusive a morrer); mas o vocabulário que eu usava era mais simples, e eu ainda queria fazer referência a estruturas tradicionais do romance. Preferi deixar os mais-que-perfeito lá. Mas os diálogos são "realistas", coloquiais. Confiei que os leitores entenderiam que era isso que eu pretendia: apontar para a tradição sem deixar de mexer nela.

Então não é que escrever livros em português no presente do indicativo seja o futuro, mas é preciso balancear o que você, autor, quer com as necessidades da história -- sabendo que nunca vai agradar a todo mundo. Que pelo menos agrade a sua consciência artística, senso estético ou seja lá como você chame aquilo que te põe para escrever.

31.7.15

Isso não é (só) uma crítica de game

Acabei de jogar um jogo chamado The Talos Principle, da Croteam, uma desenvolvedora croata. Ouvi falar que era um puzzle parecido com Portal e Antichamber, dois grandes favoritos, e resolvi experimentar, mesmo sem saber muito sobre a história. Você desperta no papel de um robô respondendo aos comandos de um certo Elohim em um certo Jardim. Elohim te chama de meu filho ("my child") e quer que você resolva muitos puzzles para ganhar "sigils" (que são iguais a peças de Tetris). Sua recompensa, diz ele, será "a vida eterna".

Mas logo você descobre que não é só isso que tem para fazer no Jardim. Você pode cumprir outras missões fora a dada por Elohim. Você pode explorar e encontrar coisas novas a fazer -- algumas delas contrariando diretamente as ordens de Elohim, como subir na torre proibida.

E aí? Prontos para o SPOILER?

Você está dentro de uma simulação. Um ambiente virtual para robôs criado por seres humanos pouco antes de sua mal-explicada extinção. Mais ou menos uma Matrix ao contrário -- mas uma Matrix designada para que sua cobaia robótica extrapole o experimento, tornando-se... humano. Afinal, na concepção do jogo, é isso que humanos fazem: brincam, pensam lateralmente, são curiosos e... desobedecem.

Agora eu vou CONTAR O FINAL, então, fiquem avisados que é possível pular o próximo parágrafo. (Pessoalmente, acho que contá-lo não estraga o jogo.)

O objetivo final dessa simulação é produzir um pós-humano na carcaça de um robô. Apenas o robô verdadeiramente "independente", que conseguir “pensar por si mesmo”, futricar em tudo e desobedecer Elohim, "matando-o" (igual a um humano), será selecionado para ser gravado em um corpo físico e acessar o mundo real. Porém, atentando para o detalhe de que nenhum homem é uma ilha, o enigma final no topo da torre requer colaboração com outro robô, The Shepherd -- mas também há outra robô, a Samsara, tentando atrapalhar sua ascensão. (Gostei dessa parte.)

Em The Talos Principle, a humanidade de carne e osso foi eliminada e esta simulação foi seu último esforço pra se perpetuar. A singularidade miguxa do jogo (ei, máquinas, continuem a humanidade aí por nós) até pode cativar um jogador desavisado, assim como atualmente há quem esteja cativado pela ideia de “literatura feita por robôs”. Mas tudo cai por terra quando você pensa que o robô "humano" é controlado (no jogo) por um humano.

É uma nova versão daquela máquina de xadrez com uma pessoa dentro...

Um ser humano de verdade controlando um robô “destinado a pensar de forma independente, como um ser humano”. Isso é circular. Assim como é circular pensar que robôs podem produzir literatura "independente" se são os humanos os juízes finais da qualidade dessa literatura. Quando os robôs puderem votar entre si e dar, digamos, um prêmio literário robótico à melhor literatura produzida por robôs, para robôs, aí a gente conversa.

Melhor ainda se eles mesmos tiverem a ideia de criar esse prêmio para diferenciar a literatura robótica “séria” da literatura robótica ruim, muito popular, mas que apela aos mais baixos instintos do robô.

Pois é, não gosto de rótulos como literatura robótica ou feminina ou erótica, exceto como mote ocasional ("tema de redação") em antologias e afins. Para mim, essa separação entre elementos (assim como independência, livre arbítrio) que gostaríamos de postular para fins de estudo não pode ser reificada. Quer dizer, até pode, e é, muitas vezes, mas raramente com a consciência de suas limitações. Gostei de The Talos Principle na crítica sutil a essa ideia de que “dá para separar” “sujeito” de “objeto” -- marcando-os como tais para todo sempre. Traçar a linha que divide cego de bengala, homem da natureza, homem de máquina para fins de estudo não quer dizer que esta linha esteja lá, não como fato inalterável. No mundo real, as coisas vazam uma para a outra, e humano mesmo é não conseguir dar conta de tudo (e não admitir isso por nada deste mundo).

7.5.15

Uma geração cética

O cigarro eletrônico é um dispositivo a bateria que produz vapor (e não fumaça) a partir de uma resistência. É usado geralmente com essências aromáticas feitas à base de produtos usados na indústria alimentícia e cosmética (como a glicerina vegetal) que contêm certa dosagem de nicotina, estipulada na embalagem. É muito adotado por quem deseja parar de fumar. Não por fazer bem, mas por fazer menos mal que o cigarro: não contém os tóxicos da queima nem os aditivos usados pela indústria de tabaco. Além disso, cigarros eletrônicos significam economia: as partes, intercambiáveis, podem ser compradas individualmente; o líquido é fácil e relativamente seguro de fabricar na própria casa, e totalmente customizável – a pessoa pode até ir baixando o teor de nicotina até o zero, se quiser.
No entanto, é um dispositivo proibido no Brasil pela Anvisa.
O copinho menstrual é um copinho feito de silicone médico que substitui o absorvente. Como qualquer coisa de silicone que vá ter contato com áreas íntimas, deve ser esterilizado em água fervente por três minutos (antes e depois de usado, diz o manual). Basta aprender a encaixá-lo na vagina de maneira a formar um vácuo, e pronto: o conforto é sem igual. A economia é imensa. O cheiro diminui drasticamente, pois o sangue não oxida em contato com o ar (só na hora de esvaziar).
Mas uma amiga usuária de copinho ouviu da ginecologista: “nossa, mas você gosta mesmo de ficar mexendo lá dentro, não é?”.
Os anunciantes da mídia não precisam falar com todas as letras aos veículos noticiosos que preferem não ver matérias sobre esses produtos que machucam seus interesses, mas às vezes falam: quando você encontra aquela matéria pisoteando o cigarro eletrônico como se fosse o pior dos venenos, por exemplo. O usuário de cigarro eletrônico (ou vaper, como preferem ser chamados) chega a vibrar: é a confirmação de que está preocupando a indústria que um dia o escravizou. No caso do copinho menstrual, temos o silêncio ensurdecedor dos cadernos e revistas “de mulher”, que preferem falar de moda e beleza (e libido e bebês e carreira, nessa ordem). Mas existe o boca a boca: uma amiga evangeliza a outra sobre os benefícios do copinho e dá dica de marcas, tipos, manutenção... quase uma convenção das bruxas.
A internet possibilitou que as pessoas se comunicassem, se informassem e comercializassem por fora dos monopólios. Talvez esses fenômenos sejam mais visíveis nas indústrias ligadas a mulheres: algumas delas desistiram de usar métodos hormonais de contracepção por acreditar que a carga hormonal é danosa; outras assumiram os cabelos cacheados, após anos de chapinha, com um método que pode ter baixíssimo custo (low poo/no poo). Outras desistiram de depilar as axilas ou tingir os cabelos brancos. Outras, por outro lado, descolorem e tingem as axilas. Ou seja: não é mais uma questão de “fazer as grandes indústrias arrancarem os cabelos”, e sim de desafiar nossas próprias preconcepções e ouvir nossos corpos e a comunidade em que vivemos para procurar um jeito melhor – ou menos pior – de viver.
Quem faz isso já desistiu há tempos de esperar o endosso da grande mídia, do governo e da sociedade tradicional a produtos e escolhas como essas. Não nos sentimos representados por colunistas que deveriam falar a nossa língua e só conseguem audiência quando desfiam chauvinismos. Não conseguimos diálogo com a geração dos nossos pais, que não entendem porque precisamos verbalizar coisas tão desagradáveis como câncer de pulmão, sangue menstrual e... vaginas. Vemos esses mesmos pais baterem panelas ou xingar quem bate panelas com uma paixão que não mostraram na hora em que decidimos sair às ruas para os protestos de 2013 (ouvimos, na verdade, um “leva um casaquinho”).
Vejo uma geração cética, muitas vezes congelada na ataraxia (a serenidade da descrença), mas nunca deixando de questionar e ter esperança em caminhos, caminhos se possível melhores – no mínimo, menos piores. Uma coisa é visível: há cada vez menos inocentes, e o cara de pau que alega acreditar em dicotomias/dogmas e viver por eles é considerado imediatamente, por essa geração desconfiada, o menos inocente de todos.

18.12.14

A lista de 2014 – Livros e games

Todo mundo está fazendo lista, eu nunca faço lista, mas esse ano deu vontade.

Livros

Botei só nacionais. A propósito, lancei meu livro também, o romance A vez de morrer – leitores têm elogiado bastante.

Fiel (Jessé Andarilho) - Primeiro livro-com-temática-favela que leio que não só é bom, como muito bom. Parece Ender’s Game numa favela carioca (Antares, em Santa Cruz). Tem uns probleminhas (tipo siglas e uma ou outra frase fora do lugar), mas, de resto, muito bem montado. Provavelmente o primeiro livro com "mariolas ex machina".

A cabeça do santo (Socorro Acioli) – A história do rapaz que vai morar dentro da cabeça de um santo cujo corpo nunca foi concluído e acaba ouvindo as orações das mulheres da cidade. Um livro redondo e gostoso de ler, com mistérios que seguram a atenção do leitor até o fim da história. Tem uns clichês que me incomodaram um pouco (como o nome da moça Madeinusa vir de "Made in USA"), mas fora isso, tudo muito bem.

Biofobia (Santiago Nazarian) - O estilo de Santiago está todo lá, mas mais depurado: as originais associações de ideias, as alfinetadas na vida real, o gore. Pense em A morte sem nome com um protagonista masculino e mais focado, ainda que seja em consumir drogas e retomar o sucesso da juventude. Tudo no livro é muito convincente, de maneira mais emocional que racional – as questões existenciais de quem já fez 40 anos, a forma como a mãe de André se mata e ninguém nem tenta elaborar muito sobre isso, a rapa que os parentes fazem na casa, e todos os mistérios que surgem naqueles dois ou três dias em que se passa o livro.


Poética (Ana Cristina Cesar) – Poesia completa. Não gosto muito de poesia, mas quando é boa assim... especialmente a partir de A teus pés, a autora arrasa.

Ilha da decepção (Alice Sant’Anna e Alexandre Sant’Anna) - Não gosto muito de poesia, mas quando é boa assim... e com fotos em P&B boas assim... Mas é difícil achar o impresso, que teve edição limitada (e incrível); tomem uma versão em vídeo.





Games

Olhando essa lista penso: Adoro gente traumatizada. Adoro geometria. Mas também gosto de rir.
Todos esses jogos são encontráveis na plataforma Steam.

Antichamber – Um jogo baseado em geometria não euclidiana. Você pode dar a volta numa coluna e topar com uma sala que não estava lá antes. Não há inimigos, há apenas uma pistola que suga blocos do ambiente e depois os cospe em lugares convenientes (e ela vai ficando mais poderosa conforme você avança no jogo). O visual clean é impecável, com destaque para os pôsteres motivacionais que você encontra pelo caminho.

the-binding-of-isaac
TheBinding of Isaac Rebirth – jogo difícil e viciante em que você é um menininho traumatizado cuja arma são as próprias lágrimas. Várias referências bíblicas e satânicas. Remake do jogo de 2011 que era em Flash e meio bugado. O remake está poderoso. Mil troféus a serem conquistados, itens ainda mais inventivos, e nenhum bug até agora. Vale o reinvestimento.

HatofulBoyfriend – Jogo de namoro virtual com humor sombrio. Nele, sua personagem humana pode conquistar um namorado dentre vários... pombos. Sua personagem é uma caçadora-coletora e mora em uma caverna; o mundo parece dominado por aves inteligentes. É um mundo meio Hora da Aventura (o desenho animado): o apocalipse já aconteceu e tudo parece bem. No final, você desbloqueia a verdadeira história do que aconteceu – e é um horror. Pombos são maléficos...

The Cat Lady – Uma moça deprimida se suicida, mas volta dos mortos com a missão de encontrar e punir cinco psicopatas. Começa sombrio e desorientador, mas logo vira uma história de primeira. Logo que você volta para casa, percebe o desafio que é para o deprimido lidar com suas tarefas cotidianas – estragar o café, queimar a comida e ficar sem luz no apartamento podem ser verdadeiras tragédias –, mas a investigação logo absorve nossa heroína, especialmente quando ela arruma uma sidekick que lembra a Lisbeth Salander (da trilogia escandinava Millenium).


Jazzpunk – Jogo hilário do Adult Swim. Um mundo feito de bonequinhos da Vivo em que você é um agente secreto recebendo as mais improváveis missões. Excelente trilha sonora, humor nonsense, referências as mais variadas. Um dos minigames dentro do jogo é “Cake”, multiplayer de mentirinha em que as armas e itens são todas referências a casamento.

9.8.14

I Woke Up Like This

Esse ano, na Flip, vi uma menina rotular um escritor cujo livro havia adorado de “babaca” porque, depois da palestra, não conversara – não fora “simpático” – com as pessoas durante o autógrafo. Será que ela vai parar de comprar os livros dele porque ele não fez uma cara feliz enquanto servia o lanche dela? Me preocupei.

Essa menina estava na fila do Andrew Solomon e o achou muito feliz e simpático.

Às vezes, eventos literários parecem um concurso de quem é mais simpático e bonito e “acessível”. É mais fácil ganhar esse concurso se você é estrangeiro, pois raramente você tem intrigas ou desafetos por evitar. Sento na plateia para ver os colegas falarem e, ouvindo o que ouço, quando estou no palco, tento não pensar no que podem estar falando de mim. E visto uma máscara de pancake de extrema simpatia e energia.

Ninguém é obrigado. Mas muitos de nós, porque precisam do dinheiro, porque precisam alcançar leitores, escolhem estar lá. Mas quando você chega a estar cara a cara com o leitor, você já foi acossado por gente chata ou arrivista, cobrado de aparecer em tal e tal lugar e posar para tais e tais fotos. Você também pode ter sido peitado por um ex ressentido ou perseguido por um pretendente bêbado. Para piorar, você pode ser o tipo de pessoa reservada que detesta multidão e frisson. Surpresa: muitíssimos escritores caem nessa categoria. Eu também – mas aprendi a aplicar o pancake mental. Sei que muitos colegas o aplicam, outros não querem e/ou não conseguem, mas não os julgo por isso ou por aquilo.

Como a menina do primeiro parágrafo, também achei o Solomon simpático e feliz, mas sei perfeitamente que estava tratando com a face pública dele. E que os livros dele são bons independentemente de ele ter se mostrado bom relações-públicas ou não.

D'après a matéria do Bolivar Torres n'O Globo (aqui:http://goo.gl/M0dXk7)

5.6.14

Já pensei nisso que Juliana disse - em caras de minorias que se sentem invisíveis para as mulheres, e cuja cantada é uma forma de vingança/medida desesperada. No início achei estranho a estudante Yasmin, que não gostou das cantadas recebidas, tocar na questão do sujeito ser porteiro. E daí ele ser porteiro? Também fiquei incomodada com isso. Mas aí ela alocou isso no fato dele ter que ter postura por estar no seu local de trabalho. E ela falar que morava ali me pareceu uma forma de marcar o espaço como também dela, não prioritariamente dela. Quer dizer: ela não passa ali porque gosta, ela passa ali porque precisa e se recusa a mudar o caminho mesmo incomodada, pois ele é que teria de se conter. Por mim, certo. E ela só fala na Francisco Sá depois, para a jornalista... se apresentando e justificando que realmente tem que passar ali. (Obrigada à amiga Caroline Gê, que me chamou a atenção para isso.)
Quanto à sugestão de que a menina nem tenha pensado em chamar a polícia, e sim a "patroa" [dele] -- oi? Chamar a polícia com base em que lei? Atentado ao pudor? O policial (mesmo que seja mulher) vai rir da sua cara. Isso se você conseguir encontrar um(a) flanando por perto. E, de acordo com a cordialidade brasileira, seria um comportamento indevido e muito extremo para uma mera "cantadinha". Já fui para a delegacia com o rosto todo lanhado depois que um cara (branco, de roupa social) no centro da cidade, me agrediu por eu responder atravessado à cantada nojenta dele, e não, o policial não me deu razão nem pediu corpo de delito - disse apenas para eu "tomar cuidado" pois "poderia ser algum maluco". Não deixaria de ir à polícia em casos assim, mas é fato que eles nem ligam. Nem se você aparecer fisicamente ferida.
Então, que coisas dizer para a pessoa que te canta na rua não querendo nem ouvir o que você tem a dizer sobre o assunto (gostei/não gostei)? Rapazes negros, brancos, novos, velhos, de uniforme e de terno, vão ter que ouvir alguma coisa, isso é verdade. E não vai ser uma coisa boazinha, já que eles não se preocuparam com seus sentimentos. É claro que será alguma coisa repressora, mas não precisa ser opressora. Ainda não ouvi um discurso sobre respeito à mulher tão eloquente em expressar a insatisfação de quem recebe a cantada quanto, por exemplo, apelar para o senso profissional e ético, mas ficaria feliz em adotá-lo caso ele existir. Aceito sugestões. Quem sabe chamar o cara de folgado, abusado... mesmo assim, não é um vocabulário muito grande. Para chegar a obter o apoio da polícia, é preciso ficar claro para todo mundo que está ouvindo que uma infração à ética da sociedade está ocorrendo. A ética da sociedade brasileira diz que temos que aguentar cantadas caladas... e que feminismo é coisa de "mal-comida", "frígida" e lésbica. Para não ouvir mais opiniões sobre sua vida sexual de alguém que já estava deliberadamente se intrometendo na mesma, Yasmin parece ter preferido falar em ética, e deixar bem claro para o sujeito que não estava gostando, já que passar encolhida e de cabeça baixa não parecia ser suficiente.
Quando eu era adolescente, autocentrada como todo adolescente, só me concentrava na minha vida interior ao andar na rua. Detestava as cantadas: só as via como interrupções da minha concentração. Hoje penso que, assim como o cara que me cantava não tava nem aí para a minha vida interior, eu não tava nem aí para a invisibilidade percebida dele. Hoje, cultivo a empatia; troco olhares por quem passo no caminho -- tento mostrar que sim, o reconheço como ser humano, quem sabe até um ser humano sexualmente interessante. Mas se o sujeito não me interessa sexualmente ou de outra forma, desvio o olhar e continuo com meus pensamentos. Ainda assim tem um ou outro que se vinga/se desespera e passa uma cantada verbal, quase enfia o nariz no meu caminho ao passar ou até toca em mim. Aí é desrespeito e posso até me sentir ameaçada. Dou razão a quem tem coragem de falar alguma coisa para reprimir isso, desde que não seja opressora. E acho que a Yasmin não foi.

24.11.13

Opting Out (Pedindo pra sair)

POLÊMICA: inventaram um app para mulheres darem notas e comentarem os homens. Isso mesmo, fazer review de caras. Todo homem inscrito no Facebook está suscetível, mas existe um opt-out - um pedir-pra-sair. Está fazendo o maior sucesso. Muitos homens estão reclamando, se dizendo ofendidos.
A jornalista Ana Freitas fez um texto relatando um diálogo interno que ela teve ao saber da existência desse app. Leiam, pois vale a pena. Ela diz que é uma objetificação dos homens por parte da mulher - mas é uma brincadeira - mas é babaca - etc. Gostei do raciocínio dela até a pergunta final: "você quer um feminismo que quer que a mulher tenha todos os direitos do homem, tipo objetificar e assediar caras na rua (ou seja: ser babaca!), ou você quer um que acabe com qualquer objetificação e assédio?" E ela diz que quer o segundo...
Mas pera, eu não acredito em uniformização. Quer dizer: pra mim, a extinção absoluta dessas cantadas de rua, às quais chamarei "pedreiragens", é perda de variedade no ecossistema. Só podia ser menos obrigatório pros homens ter que passar cantada na rua (nem todos realmente gostam) e, por conseguinte, menos obrigatório pras mulheres ter que ouvir isso (nem todas gostam de ouvir).
E há um motivo para o sucesso desse app. Só se fala coisas potencialmente ofensivas de alguém quando a pessoa não pode ouvir ou, se ouvir, não puder reclamar. O app se parece com a criação de um espaço de mulé pra falar pedreiragem sobre homens. Pelo jeito, as mulheres curtem objetificar sim. Só não tinham espaço pra isso.
Isso sim nos diz algo sobre nossa sociedade: o cara fala pedreiragem diretamente para a mulher na rua porque ela, para ele, não conta como alguém que importa. Não tem voz, nem defesa. Não conta como ser humano. Os caras tratam o mundo como seu playground nesse aspecto: "se ela não gostar, não vai reclamar porque vai pegar mal pra ela; se reclamar, não vai me importar, e vou demonstrar isso chamando-a de alguém que não gosta de sexo ou não atraente, que é o único valor que ela pode ter". Pessoalmente, posso dizer que 90% das vezes a "tréplica" a manifestar que não gostei foi ser chamada de mal-comida e branquela azeda pra baixo. 10% dos caras se envergonha, acata o feedback, a realidade do "quem fala o que quer, escuta o que não quer".
Então, não gosto mesmo de cantada de rua, mas jamais militaria contra ela. Minha campanha é pro cara se dignar a ouvir minha opinião de volta. Realmente ouvir. Até porque vai que alguma mulher curte a cantada dele e tem a liberdade de expressar que sim?
O que chamo de flertada de rua é mais legal: a pessoa procurar o olhar da outra. É legal porque as duas partes têm a opção de participar ou desistir, ser mais ou menos ousadas, e o jogo vai se prolongando (ou não) com a anuência das duas, e não tem a menor obrigação de terminar em chopp/sexo. Eu diria até que não tem a menor condição de terminar assim e por isso a total liberdade do negócio, mas vai que.
Na flertada de rua dá pra qualquer das partes desviar o olhar no momento que quiser. Não dá pra desviar o ouvido da cantada. Aliás, note só a proliferação de fones de ouvido, especialmente entre as mulheres, especialmente entre as mais jovens, especialmente em transportes públicos. Isso não é tanto amor pela música assim.

13.9.13

Sobre a pesquisa do fiu-fiu: Entendo que os homens possam se sentir oprimidos por não poderem trepar com/assediar quem quiserem, mas boa parte deles acha que tem a opção de "desabafar" com fiu-fius e afins. Só que a mulher também deseja, e deseja positivamente; ela também é oprimida por não poder trepar com/assediar com quem quiser e ela jamais acharia que pode "desabafar" com fiu-fius na rua da mesma forma. E tem que ouvir o dos outros, quer queira, quer não (ninguém pergunta pra ela). A pesquisa do fiu-fiu é essa pergunta.
A pesquisa não diz pro homem parar de desejar. Só diz que as mulheres estão incomodadas com a desimportância do próprio feedback na transação. Sem fiu-fiu, há pleno espaço pra trocas de olhares a distância e um flerte de ida e volta, com a participação da mulher, ou até com ela começando! O fiu-fiu vem quando a mulher não começa o flerte, nem olha de volta, seja porque não curtiu o rapaz de volta, seja porque está concentrada em algum problema intelectual, pessoal ou corriqueiro (eu, na maioria dos casos). E, oras, a mulher não tem o direito de pensar em algo que não seja o macho à sua frente? Que afronta, querer ditar o propósito da mulher estar no mundo... eu estou no mundo por/para muitas coisas, pelo menos.

28.8.13

Momento lindo

Depois que ganhei vodca na boca da Sasha Grey, fiquei toda ansiosa para que saísse logo a foto. A música é ótima, mas o maior lance da festa I Hate Flash são as fotos, tiradas por um coletivo de fotógrafos profissionais, que as disponibilizam em copyleft no site depois de escolher as melhores. A festa foi num sábado, e, na terça-feira, a foto saiu:



A foto ficou muito melhor do que eu poderia imaginar. Foi uma conversão digna do que eu senti naquele momento lindo. Foi batida com arte, selecionada com carinho. Mas sabendo que devia haver mais fotos, eu as cobicei. Daí encontrei esse aviso no FAQ do site:

“Uma foto minha, que foi tirada no evento não saiu no site, é possível recuperá-la? 
Infelizmente, não. Apenas selecionamos o que consideramos as fotos mais divertidas e espontâneas de cada evento, e devido a um fluxo de trabalho que demanda velocidade e espaço em disco, estamos acostumados a deletar o que não entra pro set. Desculpa!”

Divertida minha foto. Concordo. Agora, espontânea? Minha performance informada por anos-luz de pornografia, espontânea? Fiquei quase ofendida.

Dando uma olhada nas outras fotos dos demais felizardos da festa, a afirmativa sobre “espontaneidade” se torna ainda mais incompreensível. As pessoas nitidamente estão tentando parecer bonitinhas na foto – sem arreganhar demais a boca nem espichar a língua –, ou segurando a garrafa de vodca, ou olhando para a câmera, ou segurando um celular com que estavam tentando “guardar” o momento. Amiga, você não pode ter o presente por mais de um momento. A própria definição de “presente” o proíbe. Com essa tentativa de espetar o tempo na cortiça, você deixa de ter o presente até no momento em que você tem direito a ele.

Sempre fui muito amiga do presente. O que você mais ouve nos vídeos das minhas festas de infância é uma narradora onisciente raivosa – minha mãe – ralhando comigo por eu não querer olhar, sorrir e dar tchau para a câmera. Eu preferia ficar fitando o nada, ou brincar nas esculturas de jardim do salão de festas, ou desmaiar de mentirinha nos braços das minhas amigas. Aprendi a ignorar a câmera, e a minha mãe, se quisesse viver o momento. Não era apenas a minha mãe. Eram as meninas consumistas da escola, os passadores de cantada da rua, as figuras de autoridade que se sentiam ameaçadas e tentavam me esmigalhar.

Se estão constantemente tentando te humilhar, depois de um tempo você não fica mais vermelha. E aprende a ver as causas. Por que sempre comigo? As estruturas de poder e as motivações ocultas se tornam transparentes. Você aprende a requisitar o seu poder lá dentro, e a dar uns empurrões nas vigas para as coisas mudarem.

Sábado passado, quando Sasha começou a discotecar, 90% da festa levantou os celulares e começou a filmá-la. E ela continuou trabalhando muito concentrada na mudança de faixas e equalizações. E arrasou no set. Como ela fez isso? Como ela é capaz?

Bem, não é só “concentração”. É um dom para evitar a autoconsciência que foi percebido cedo e muito bem treinado. Esse dom passa por compartimentar os circuitos da mente (como num quadro de luz) e treinar a mente para desligar os corretos em momentos de estresse. O nervosismo de falar/atuar em público (stage fright), o constrangimento, a humilhação: tudo isso traz uma resposta não-verbal (cinésica), que todo ator, desde o primeiro exercício de teatro, aprende a recondicionar. Mas as emoções estão lá, e têm que sair por algum lugar.

Você não precisa ter feito teatro para aprender isso (e que a lente da câmera distorce a imagem do corpo; e que a presença da câmera faz as pessoas se comportarem diferente; e que os critérios de edição desse material audiovisual podem fazer com que sua presença não seja “registrada”, dando vontade de levar também sua câmera particular para “mostrar que foi”). Quer dizer, as pessoas sempre adoraram julgar as outras. Só aumentou o número de olhares, e o tempo que eles armazenam a fofoca. Hoje em dia sempre tem câmeras apontadas para você, por mais que você não goste delas. Então evitar a autoconsciência se torna uma capacidade essencial.

Quando digo às pessoas que sou esquizoide, me refiro a essa capacidade de me proteger dos julgamentos da realidade por compartimentação. Não que eu seja incapaz de afeto. Às vezes, uso meus poderes do jeito errado, e perco um aspecto fundamental do presente, ou magoo as pessoas, ou, o mais comum, as deixo confusas. Nessa festa, minha estratégia (não espontânea!!!) foi dançar com o DJ, em frente à caixa de som, como uma clubber old school (é bom ter 30 anos), não procurando o olhar de ninguém, nem as câmeras, nem o do DJ, sendo apenas um corpo que dançava informado pela música. Não fiz um vídeo, não tirei uma foto. Na hora, perdi a presença de um amigo a metros de distância (tudo bem que ele emagreceu mais de dez quilos), e quase que perco Sasha distribuindo vodca. Provavelmente agi de forma bem antipática para padrões cariocas. Mas consegui evitar a porcaria da autoconsciência. E meu amigo não-reconhecido, muito solícito, estava com uma câmera e registrou a minha dança. Porém, de seu ponto de vista tampado pela mesa de DJ, ele não viu o momento da vodca dada na minha boca. Mas sei que, mesmo que não houvesse a foto acima, ele acreditaria em mim e comemoraria o momento comigo. O que pra mim ainda é a medida de uma amizade legal, apesar de todas as modernidades.

21.8.13

"A cultura do carioca é ser sujo"

Começaram a aplicar a multa do Lixo Zero no Rio. Pra quem não sabe, é a iniciativa que pretende mudar a mania do carioca de jogar lixo no chão. Como cidadã caxias e limpinha, acho ótimo. Mas nem todo mundo acha.

"Multado por jogar uma guimba de cigarro no chão, na esquina da Rua da Assembleia com a Avenida Rio Branco, no Centro do Rio, neste primeiro dia do programa Lixo Zero, o consultor de beleza Ney Eckhabt, de 51 anos, disse concordar com a iniciativa. Mas acha que o esforço das autoridades para tornar a cidade mais limpa pode esbarrar num fator cultural: o costume do carioca em jogar lixo no chão:
- A cultura do carioca é ser sujo. Não adianta querer mudar essa cultura de um dia para o outro." - reportagem de Giulliane Viêgas, do jornal Extra

Mas o fator cultural em questão nem é tanto "ser sujo". É mais uma tríade: a espontaneidade, a cordialidade e a comodidade.

Planejar onde jogar seu lixo ou esperar até enxergar uma lixeira enquanto anda pelo Centro do Rio parece inconcebível para um carioca típico. Ele pensa:
"Estou espontaneamente jogando minha guimba de cigarro no chão. Faço parte de um povo seleto: os despreocupados. A vida é boa."
Ao ser interpelado por um guarda querendo aplicar a multa, essa pessoa pensa: "você não está sendo legal comigo. Você não está sendo cordial. Você está me tirando do meu comodismo ao apontar meu erro. Por causa disso, vou castigá-lo com palavras sobre como você não faz parte do meu povo seleto, os despreocupados".
Isso é uma amostra do que encontro toda vez que falo com ciclistas pedalando por cima da calçada ou pessoas que não recolhem o cocô do cachorro. Meu "por favor" é recebido com de "vai encarar um tanque" pra baixo. Gente, eu só quero não pisar em merda quando saio de casa.

Pois é, nasci e cresci no Rio. Morei a vida inteira aqui. Se me eduquei para não jogar lixo no chão nem andar de bike pela calçada, foi praticamente um exercício em contracultura. Até meus pais jogavam lixo pela janela do Voyage! (Até eu começar a encher o saco deles. Ê, criança chata.) Aliás, na minha infância, de fato não havia lixeiras pela rua. Aí colocaram as lixeiras laranjas. Acabou a desculpa. Mas não a mania de jogar o lixo no chão -- espontaneamente...
Mas agora tem a multa, não é? E com multa, o comodismo sai de campo. Afinal, recorrer dá ainda mais trabalho... e pagar, jamais! É melhor treinar uma nova espontaneidade. Sendo assim, talvez sejam úteis essas dicas de quem conseguiu criar o hábito de jogar lixo no lixo:
1 - Aquela chapa de metal na parte de cima das lixeiras laranjas é pra extinguir o cigarro antes de jogá-lo nelas. Na falta disso, apague na sola do sapato.
2 - Você não é obrigado a pegar nenhum folheto que lhe derem. Se pegar, amasse-o e enfie na bolsa ou no bolso.
3 - Toda loja, restaurante e banquinha de comida tem uma lixeira do lado do caixa. Desove seu lixo de bolso lá.
Ao ler isso, o pessoal dos outros estados deve estar rindo da nossa cara, e com razão. Eu rio/choro mais é das desculpas que as pessoas multadas dão: "não joguei a guimba no lixo para não provocar um incêndio..." "não achei lixeira..." e a melhor de todas: "estou acostumado com a Europa". Tsss.

4.3.13

Dicas para a empresa moderna

Nessa era das redes sociais, vemos muitas empresas tentarem passar por descontraídas e meterem totalmente os pés pelas mãos. Isso pode acontecer em blogs de empresas, posts pagos, páginas de Facebook, anúncios para TV, ações publicitárias etc. etc. Se você é uma empresa, não se desespere. No melhor estilo post de blog empresarial, seguem dicas para evitar gafes, de uma pessoa física para uma jurídica, com muito amor.

1- Conselho: não dê conselhos.
Canso de ver blogs de empresas tentando se fazer de amiguinho do consumidor, dando conselhos, enfim, prescrevendo. Não tem coisa pior do que ver uma empresa fazer a íntima. Ainda que você, empresa, venda vibradores ou bolsas de colostomia. Aliás, aí mesmo é que você tem que se segurar e ir com calma na intimidade.

2- Não seja pão-dura. Muitos podem confundir sua pão-durice com insensibilidade!
"Poxa, eu tava só querendo estufar um pseudo-blog com pseudo-conteúdo pra vender meus produtos e incumbi meu estagiário aspirante a humorista de escrever alguma coisa... E agora a empresa está sendo injustamente xingada de machista, homofóbica e racista no Facebook -- só porque confiei cegamente na pessoa errada. Muito injusto!"
Isso também vale para "parcerias" com blogueiros que não dominam o português. Aliás, "parceria" quase sempre quer dizer que uma das partes não está recebendo nada por isso. Muitas vezes, merecidamente.

3- Não superproteja sua marca. Consumidores detestam isso!
A empresa age num esquema "Falou mal, tomou processo?" Ou vai contatar insistentemente a pessoa até tirar do ar? Todos sabem que isso é ridículo, pessoa jurídica. Comporte-se e fique na sua.

4- Não finja ser o que não é. Seja você mesma!
A empresa tem que se valorizar. Os consumidores é que têm que correr atrás dela e gostar dela como ela é.  Tudo bem que uma pessoa jurídica é naturalmente um pouco esquizo, mas pelo menos no primeiro encontro, disfarça, né?

5- Seja agressiva! Seja pitbull!
Cumplicidade não se finge, se conquista! Você não vai ganhar nenhum cliente ficando aí parada! Mexa-se! ÂNIMO! E tem mais: se alguém falar mal de sua marca, ponha a boca no mundo! Ninguém vai respeitar uma empresa que reage feito uma mosca-morta. Se preciso for, coloque aqueles folgados do departamento jurídico pra trabalhar um pouco -- se é que a empresa me entende. ;-)

6- Seja consistente!
Não adianta falar uma coisa para depois falar outra. Isso é coisa de gente louca e ninguém quer ficar perto dessa gente. Sugerimos escolher uma de suas personalidades e ficar com ela. Ao menos por um tempo.

7- Não use de tom condescendente com seus consumidores. Eles ficam irritados.
Muitas vezes, você usar de um discurso que explica a situação toda de forma tatibitati faz o seu consumidor um pouquinho mais inteligente ficar irritado. Por exemplo, talvez você tenha contratado postagens por número de caracteres, e isso motiva o escritor a enrolar, escrevendo de uma forma demasiadamente explicativa e adverbial. Outra coisa que pega mal é recorrer ao argumento do "senso comum" para esmigalhar a individualidade de seu consumidor -- dizer que "todos sabem", por exemplo. Também não se deve usar de argumentos circulares: dizem que brincar muito disso faz o cérebro vazar pela orelha. E quem não tem cérebro não pode lembrar da senha do cartão de crédito! ;-)


Será que a empresa ficou com a impressão de que eu não quis realmente ajudar, e sim tripudiar por todas as vezes em que vi um post ou anúncio supostamente direcionado para minha "faixa demográfica" me ofender descaradamente, seja em tom, na forma ou no conteúdo? Pois foi isso mesmo.


P.S.: Amiga da coluna lembrou de uma bem importante, empresa: Se você ou o estagiário pisar na bola não adianta ir correndo apagar o post e bloquear todos os comentários, isso só vai irritar os seus consumidores mais ainda; também não adianta dizer que o conteúdo não é seu e foi apenas compartilhado. Seja grande, seja honesto e não tenha medo de pedir desculpas e assumir o erro.

14.10.12

Para os menores de 18 anos

Se você não tem idade para ler o OWNED - Um novo jogador, pode ler os livros-jogos infanto-juvenis que deram origem a ele. Eu os li quando era criança e achava divertidíssimos. Livros-jogos são livros de aventura que oferecem escolhas ao leitor e têm vários finais diferentes. Os links abaixo apontam para a central de sebos Estante Virtual, onde você pode adquiri-los baratinhos:

Série Enrola e desenrola
Série Aventuras fantásticas

Caso prefira edições mais recentes, e não do fim dos anos 80, a editora Jambô republicou alguns livros da série Aventuras Fantásticas em português.


Tive a ideia de fazer essa indicação por causa de algo que aconteceu hoje depois da palestra no CCBB. Uma menininha parou do meu lado e perguntou:
-- O seu livro-jogo é para a minha idade?
-- É pra maiores de 18 anos. Você tem quantos anos?
-- Oito anos.
-- Então, se você tivesse uns 15, já dava para ler. Pelo jeito, vai ter que esperar. É sobre videogame... eu também adoro videogame, desde que tinha a sua idade. Você ia gostar. Guarda pra depois.
Lembrei dela na plateia: ela passou a palestra inteira jogando num Nintendo DS (era Tetris). A mãe disse que ela só levantou os olhos do DS quando falei em livro-jogo durante a palestra. Gente, chorei.

P.S. Como me sinto quando uma menininha gamer fala comigo depois da palestra:

20.8.12

Gratuidade

Muitas bibliotecas possuem pelo menos um exemplar impresso de OWNED - o novo jogador. Para ler o seu, baixe a lista de bibliotecas onde ele está disponível (em formato Excel). A versão online, como sempre, continua disponível em novojogador.com.br

12.8.12

História do cabelo ou Dark & Long

*Aviso: Este texto parte do pressuposto de que cabelo é poder.*

As heroínas da era dos videogames 2D podiam ter cabelos longos, bastos e soltos. Ou melhor, era quase um requisito. Afinal, a maioria delas era um monte de pixels e/ou tinha pouca necessidade de animação.



Samus Aran (em Metroid, 1986). Jill of the Jungle (1992).

Mas cresci mesmo foi na era dos adventures, jogos com muito humor, muita história e muitos puzzles. As heroínas de adventures tinham cabelos maravilhosos. Na maioria, cabelos encaracolados. Severamente encaracolados.

Zanthia, de Kyrandia: Hand of Fate (1994) e Elaine, de Monkey Island (1990)

Mas isso durou até mais ou menos 1994. Aí veio o que pode ser tachado de Era 3D. Uma época com muito mais ação, onde os personagens tinham que ser visíveis por todos os lados.
Só que em 1994 os PCs domésticos tinham o vídeo tosco e o processador lerdo. Esse mundo 3D precário teve que usar polígonos - faces de pequenos sólidos virtuais, uns emendados nos outros - para delinear os corpos ao redor dos quais deveria rodar a "câmera".
A questão é que cabelos não ficavam nada bons em polígonos. Polígonos não dão ao cabelo aquilo que os comerciais de xampu chamam de movimento.

Em Tomb Raider 1 (1996), por exemplo, a heroína usava uma espécie de coque amarrado com barbante. Bem fácil de animar. Nem balançar balançava. Feioso... mas prático. Provavelmente, seria a minha escolha se eu me metesse a arrombar tumbas na vida real. Ha.
No Tomb Raider 2, esse coque foi substituído pela famosa trança. Esta sim balançava conforme Lara corria, nadava, pulava. Ainda assim, era uma trança constituída de um monte de polígonos. De qualquer modo, a atenção dos animadores nunca esteve dedicada a este grupo de polígonos, entende.







Entende?

Quando refizeram a Elaine de Monkey Island para a Era 3D, estilizaram o cabelo dela. Ficou um negócio duro, que não fluía. Tudo por causa dos malditos polígonos, que não trabalham com cabelos longos, muito menos encaracolados.





Mas o tempo passou, e a tecnologia deu outra virada.
Estava eu jogando a mais recente versão do Prince of Persia (de 2008), e notei que estavam animando alguns inimigos com vetores ao invés de polígonos.
Eu imediatamente pensei: podiam fazer disso cabelo.
Dito e feito, alguém foi lá e fez isso.


Bayonetta (2010) é um jogo completamente insano onde você é a personagem-título, uma bruxa que tanto se veste como ataca com o cabelo (a conveniente consequência disso é peladismo na hora do fatality). Não só com o cabelo; ela tem todo tipo de ataques divertidíssimos, com armas as mais variadas. Em Bayonetta, afinal, o cabelo virou uma espécie de protagonista do jogo, ao que sou toda aplausos.

Enfim, animação vetorial: uma solução para o problema do movimento. Mas e quanto a cabelo encaracolado? Bem, a cabeleira ruiva da Merida, da animação Valente (2012), é muito bem animada no filme, mas completamente parada nos videogames inspirados nele. Fiquei tristíssima; ainda não chegou o revival dos caracóis nos games. Mas aguardo e confio.

8.8.12

Outro vídeo falando sobre OWNED



Palestra que dei em fevereiro junto ao Carlos Klimick e ao Oswaldo Lopes Jr. Falamos sobre RPG, livro-jogo e seu nexo com a educação (e eu expliquei cruamente sobre o que era o meu "OWNED - um novo jogador").