29.1.12

Vídeos do OWNED

Alguns vídeos que fiz para divulgar o OWNED. No primeiro, eu falo um pouco com o leitor enquanto traço o fluxograma em alta velocidade:



Esta é a versão eletrônica do fluxograma, com algumas anotações explicando do que se trata:



Este é um vídeo de divulgação do patrocinador (a Petrobras) em que falo do projeto em geral:

8.12.11

"Um apartamento, para quem sempre viveu numa casa, com seus telhados acolhedores e o céu bem à mão, é um espaço abstrato, frio, apenas uma ideia de moradia: habitamos um interior sem exterior, transformados em pensamentos que sobem elevadores e percorrem corredores, cavernas e grutas geométricas, túneis elevados onde vivem pessoas desconhecidas e de onde súbitas janelas derramam fachos artificiais de luz, e do alto vemos um cenário venusiano de prédios espetados (...)"

Obrigada, Cristóvão Tezza!
(em Viagem, conto do novo Beatriz).

3.11.11

Drogas e efeitos

Uma xícara de café + corrida na esteira: surto de inspiração artística.

Duas xícaras de café + ida à biblioteca: taquicardia, paranoia.

Uma bacia de suspiros sozinha OU mar + caipivodka no meio da tarde: pressão baixa, leseira prazerosa.

Antiácido no meio da madrugada: desmaio, visões lisérgicas, suor intenso.

Fissurar o dedo em uma bola de basquete: conversa com seres de uma realidade paralela de fundo vivamente laranja.

Tirar mais de duas ampolas de sangue para exame sentada (em vez de deitada) OU retirada de soro intravenoso após 4 dias: desmaio, percepção alterada de passagem do tempo, sequência de sonhos com trama.

Verão carioca: tonteira, falta de ar, leseira não prazerosa.
Quando se é um corpo muito grande, a ideia de não ser alguma coisa (malvado, por exemplo) começa a perder o sentido. Simplesmente falta espaço de manobra suficiente para você não ser aquela coisa que já declarou não querer ser (malvado, no nosso exemplo). E você precisa se mexer, não é mesmo? Você quer coisas, não quer? Pelo simples ato de se mexer e ir atrás, você esbarra nos móveis e derruba todas as suas antigas intenções no chão.

O parágrafo acima é minha ideia de crítica ao desbaratamento do Google Reader em prol do Google+.

20.9.11

Minha primeira pichação


Exibir mapa ampliado

A Prefeitura autorizou a construção de um prédio residencial num terreno arborizado e, há 20 anos, murado, junto a um paredão de rocha. Começou a rolar uma movimentação pseudo-ecológica, encabeçada por uma candidata a vereadora e donos de apartamentos de frente pro terreno que teriam a vista bloqueada, que pretendia impedir a construção. As manifestações incluíram pichar o muro com desenhos de árvore, frases em tinta verdinha ("Futura escola de jardinagem") e desenhos de criança, além de nomear o lugar de Bosque de Botafogo. Também foram postados cartazes oferecendo faixas e adereços de protesto para pendurar nas varandas por preços que iam de R$29,00 a R$54,00, se não me engano. Algumas pessoas compraram.
O movimento fracassou. O muro ficou sendo de ninguém, o prédio está quase pronto. Manifestei-me então também.

Um trecho para acompanhar a imagem:

"He looked at the granite. To be cut, he thought, and to be made into walls. He looked at a tree. To be split and made into rafters. He loooked at a streak of rust on the stone and thought of iron ore under the ground. To be melted and to emerge as girders against the sky." (Howard Roark em The Fountainhead, de Ayn Rand)

Gosto muito da Ayn Rand e concordo com muitas coisas que ela diz, embora ache que a iniciativa individual não resolva tudo e que as pessoas têm sim que aceitar coisas do governo desde que isso não se constitua numa relação de eterna dependência ou de troca de favores (e é sempre aí que a porca torce o rabo).

26.7.11

Por que o Laerte se veste de mulher

Paralelamente à matemática necessária ao OWNED, meu livro novo, estudei programação por diversos métodos desengonçados, nenhum dos quais consistiu em aprender uma linguagem de programação o suficiente para criar um programa de computador; mas entendi a alegria da recursão (ou recursividade) computacional. Se eu precisar te explicar "papel", posso escolher dizer que é uma "pasta fibrosa feita de árvore moída", mas primeiro tenho que ter certeza que você sabe o que é "árvore", "pasta", "fibrosa" e "moída", porque o conceito que preciso te explicar é recursivo – depende de objetos previamente definidos a cuja memória você vai recorrer. (Discute-se se todo conceito é assim, mas nem vou comprar essa briga.)

Tentei criar um livro que pudesse ser lido mais de uma vez. Isso é uma experiência comum para leitores: ler o mesmo livro de forma diferente a cada leitura. As memórias, não só de suas experiências pessoais como a da própria leitura do livro, interferem numa segunda (ou terceira ou enésima) leitura. Um livro cujo texto é materialmente diferente a cada vez, como o meu, só exacerba essa característica.

Agora vou pedir para você visualizar o yin, o princípio feminino-negativo. Negativo não como ruim, mas como lado B, passivo, receptivo. (Ok, estou começando a soar hippie demais para o meu próprio gosto, mas fiquem comigo, por favor.)

Aí voltamos a toda a história da literatura (de toda arte) e à mulher como a tela em branco em que a humanidade projeta seus desejos, metas e medos. Como expressar algo que só vive na entrelinha? Existe autoexpressão no caso do passivo?
Não vou explicar demais e estragar a experiência, mas se você é absolutamente refratário à menor revelação de enredo ou explicação de obra, é melhor pular para o último parágrafo.

A recursão é um jeito de fazer a entrelinha falar. Cada final do livro é projetado para criar uma ligeira sensação de insatisfação, o que deve fazer o leitor ir atrás de outro final. Ao ler o livro uma segunda vez, ele vai satisfazer algumas de suas dúvidas quanto ao primeiro caminho, mas vai descobrir novas insatisfações e querer tomar outros caminhos para ler ainda outro final. Quando achar que está quase entendendo do que se trata, vai tomar outra puxada de tapete: as regras subjacentes são ainda mais complexas do que pensava. E assim por diante.

Tinha uma brincadeira que eu fazia enquanto trabalhava no OWNED: "é programação orientada a mulher-objeto" (assim como o nouveau roman é "romance orientado a objetos"). No entanto, elas são o conteúdo e a razão de ser do livro. Meu André nunca é caracterizado fisicamente, e sua caracterização psicológica depende da mulher que ele corteja e das escolhas que você fez por ele. André, como narrador que é, está irremediavelmente ancorado ao próprio umbigo; nunca pode ver as moças conversando sobre ele em sua ausência, dizendo o que realmente pensam.

Ou seja, André trabalha no escuro, projetando aquilo que cada mulher deve querer dele e tentando oferecer isso (ou não). Por sua vez, cada moça forma sua própria imagem de André; a maioria delas não está irremediavelmente interessada por ele; segundo as escolhas dele, ela simplesmente não vai estar mais disponível. As mulheres que André vai encontrando ao longo de suas tentativas têm suas próprias vidas, nas quais ele se integra das mais variadas formas; às vezes como acessório, às vezes como peça fundamental, às vezes até como intruso. E apesar de estar tão ancorado ao ponto de vista do narrador quanto o próprio, o leitor que jogar suficientes vezes vai perceber que várias moças se conheciam independente de André.

Acho que as leitoras vão gostar mais do meu livro do que os leitores no sentido de que, apesar de fantasioso, ele apresenta a vida como ela é, não como deveria ser (Nelson Rodrigues, gênio). A bananização dos protagonistas masculinos de chick lit como seres incondicionalmente atrelados a uma única mulher, incapazes de acessar pornografia, achar chato um jantar romântico ou mesmo de mudar de ideia se a mulher em questão é consistentemente parva e/ou maléfica enerva a mim e a minhas amigas. Com OWNED, em vez de viver mais uma vez a angústia de não saber o que um rapaz de que gostam está pensando, como em tantos livros recentes para adolescentes e jovens adultas, as mulheres podem viver a angústia de não saber o que a mulher desejada está pensando dentro da pele do tal rapaz. É um livro em prol da compreensão mútua. Afinal, ambos os sexos têm mais é que aprender a ler nas entrelinhas e não acreditar em toda manha e eufemismo do outro (e do mesmo).

12.7.11

Seventeen

Vi numa livraria o Axolotle atropelado, de Helene Hegemann. Como axolotle é um bicho que me seduz, peguei para ver qual é e, vejam só, era um livro escrito por uma autora de apenas dezessete anos. (Eu mereço.)

Volta e meia surge a pauta da valorosa autobiografia de jovem rica rebelde. Os franceses têm a Lolita Pille (Hell Paris). Os italianos têm a Melissa Panarello (Cem escovadas antes de ir para a cama). Nós, brasileiros, temos a Maíra Dias Gomes (Fugalaça). Os americanos foram mais espertos e transformaram a deles em franquia e série de TV (Cecily Von Ziegesar, com a Gossip Girl). Agora os alemães também têm a sua.

De todos esses, só tive paciência de ler de cabo a rabo o Hell (agora onipresente no RJ naquela fotografia linda da peça). Sim, comprei o livro, gastei meu suado dinheiro com ele. Eu estava numa idade mais inocente... esperava na verdade destrinchar os critérios que a mídia usa para elogiar alguma coisa; e descobri que não havia explicação possível senão a da pauta, porque aquilo era ruim demais da conta. Quer dizer, não é denúncia nem novidade que adolescentes ricas entediadas brinquem de sexo, dorgas, roquenroll e consumismo. A linguagem não me trouxe nenhum arrebatamento ou desconforto. A história é desconjuntada. Por que, então, a mídia dá atenção a esse tipo de coisa? Por que as meninas compram e leem fascinadas? Porque é fofoca, vontade de saber da vida dos outros, de se identificar legitimando e/ou de viver por procuração. Tipo um romance de banca para a nova geração, com baboseiras ligeiramente diferentes e expectativas irreais idênticas.

Nessas autobiografias de moça rica identifico uma dicção autodeslumbrada e um forte pendor borderline. Lendo esse tipo de literatura fico com a sensação de que, se soubessem que ninguém falaria delas depois (bem ou mal), as autoras-personagens não achariam nada do que fazem tão excitante assim. Não teriam ânimo para escrever.

Mas agora vamos falar de livros bons, ok? Livros bons.

A japonesa Risa Wataya também lançou um livro aos 17 anos. Não sei da situação social dela, nem do quanto é autobiográfico. Japoneses são misteriosos. Já começa por aí.

Para ler os livros dela você tem que saber japonês, francês, alemão, italiano ou coreano. Eu falo francês. O Install ela lançou com dezessete anos. É sobre uma adolescente e um menino de dez anos que lançam um serviço de chat sexy online em que os dois fazem as garotas. L'appel du pied (algo como O chamado do pé), cujo título original é Keritai Senaka (algo como As costas que você quer chutar), é sobre uma garota que descobre que está apaixonada por um estafermo da escola quando sente impulsos irresistíveis de dar uma voadora nele pelas costas. ISSO é bom. Li ambos e de vez em quando dou uma relidinha. Recomendo.

Quanto ao axolotle: o melhor romance adolescente alemão que li nos últimos tempos não tem nada a ver com realidade - não no sentido de reproduzi-la. Também não foi escrito por uma adolescente. Se chama A menina sem qualidades (por Juli Zeh). O título nacional faz menção ao romance de Musil, mas, ao fim do romance, as notas de tradução do ótimo Backes elucidam o título original, Spieltrieb (algo como Pulsão de jogo). Com efeito, é um livro que bebe muito da teoria dos jogos, tanto no tema como na estrutura. Ada, uma adolescente "não linda" e superdotada, que se proclama filha do niilismo, encontra seu parceiro de jogo em Alev, jovem totalmente impotente que, na falta de melhor passatempo, trava uma partida de lances sucessivos em que Ada, o professor Smutek e toda a sociedade são os peões. Ada começa a ficar à vontade no mundo com a possibilidade de ter uma identidade, finalmente, nem que seja a de peão, e daí em diante os desdobramentos me surpreenderam. Smutek também é um grande personagem, representando a perplexidade de quem ainda tem uma história pra contar frente ao jogo que tomou conta de tudo.

Peguei A menina sem qualidades na livraria porque achei a capa diferente, me chamou a atenção. Depois a orelha. Depois gostei do que vi ao folhear. Depois de comprado, me deparei com teoria de jogos pelo livro todo e me apaixonei. Foi uma grande coincidência, já que estava estudando exatamente isso para escrever meu OWNED. Em suma, leiam A menina sem qualidades. Leiam ele e deixem o axolotle em paz.

6.6.11

Owned e matemática

Como preciso explicar pro meu editor o que ando fazendo, pensei em escrever um texto corrido sobre como está o trabalho com o Owned, meu livro novo. É um livro que se bifurca em mil caminhos. A cada passo você vai ter escolhas, decisões a tomar; e essas escolhas vão ter consequências. O personagem principal é um técnico de informática viciado em videogames cuja vida começa a virar um videogame. É um livro para jovens acima de 18 anos e fala sobre mulher, amor e matemática*.

No início, estudei um pouco de teoria dos jogos para tentar simular a existência de leitores como jogadores. O fato de o leitor estar jogando contra ou junto comigo seria determinado pelas próprias escolhas dele. Claro que o fato de eu determinar quais escolhas do leitor seriam possíveis cercearia a liberdade absoluta, mas eu também não tenho liberdade absoluta, senão gssmj iuoius jk kelkj sjdkfnsd tatah. Macacos batucando máquinas de escrever dificilmente escreverão Hamlet, e um pouco menos dificilmente "um" Hamlet. Então se eu estou cerceada pelas baixas probabilidades de você entender totalmente meu output cru, você também está.

Conversei com a Diana de Hollanda sobre matemática num lançamento de livro e ela me contou das aulas de lógica que andava assistindo. Conversei com o professor, Oswaldo Chateaubriand, e ele gentilmente me deixou frequentar a aula. Depois que se inteirou de como era o livro e da matemática que já havia nele (principalmente teoria dos jogos), ele me encaminhou para o estudo de lógica dialógica.

Fazendo um grande parêntesis, eu não conseguia explicar para as pessoas porque eu andava necessitando de matemática e, depois, em que estava me ajudando estudá-la. E vou fazer mais uma tentativa agora.

Voltei a estudar matemática quando quase terminava de escrever o livro. Por quê? Para descobrir do que estive falando o tempo todo. Frequentei a aula e descobri que há abordagens "construtivas" e "não construtivas" à matemática - assim como em alguns finais de Owned, eu e o leitor "perdemos" (não construímos uma narrativa válida). Às vezes, tive que escrever trechos em que eu "perco" (simulo perder), o que significava escrever cenas que faziam sentido para a série de escolhas que as precederam mas me desagradavam pessoalmente. Nos trechos em que eu "ganho" (simulo ganhar), há um final que eu me diverti em escrever, mas com o qual o leitor pode se sentir sacaneado.

Para além do fato de o livro todo ser uma simulação, digo que o leitor pode se sentir sacaneado porque o leitor real pode muito bem gostar do final que meu leitor simulado acharia uma traição. Na publicação e na leitura - quando o "programa" rodar todo na cabeça de leitores reais - sei que vou me surpreender, mas não sei como.

Uma ajuda que a lógica me deu foi para deduzir as regras do meu próprio jogo. Há uma brevíssima instrução de como jogar no começo de Owned (meu pacto narrativo) que pode se passar por regra, mas o que estou chamando de regra aqui são os pressupostos ocultos com que trabalhei ao escrever. Por exemplo: "cada escolha do leitor é uma jogada; como autora empírica, eu posso cooperar ou trair". Só que fui tão longe escrevendo que não tinha percebido que minhas regras tinham mudado, casado e tido filhos. Uma vez colocando as regras (as antigas e as novas) no papel, ficou mais fácil escrever as últimas linhas.

Sim, as últimas linhas. Bem, eu estava batendo cabeça com (para?) completudes, era isso. Eu tinha começado com regras muito fortes, inexoráveis, e precisei flexibilizá-las para fazer caber a variedade mirabolante dos casos que tinham surgido (os caminhos que eu tinha escrito) depois de criá-las. Ou seja, eu sentia minha canoa furada; a matemática me ajudou a entender que talvez não haja barco perfeito e que não há canoa certa, há mais a canoa certa para o rio em questão. Fato: estou trabalhando no último trecho.

Enfim, estou estudando a tal lógica dialógica e descobri que era mais ou menos disso mesmo que eu estava brincando. Aliás, esses dias me passaram também um jogo de cartas relacionado.

Eu não sabia onde estava me metendo. Não sabia onde meu livro ia me levar. Mas certamente não parti da ideia de escrever um livro bobinho, caça-níqueis, frívolo ou experimentalesco sobre videogames. A ressalva é porque, no Brasil, o adjetivo "sério" está grudado como uma craca ao conceito muito feliz de "não picaretagem". Só que as demais acepções de "seriedade" vazam como uma caneta estourada para esse rótulo e contaminam público e crítica de uma terrível incapacidade de rir e brincar. Nesse sentido não-picareta eu quero muito ser uma autora séria, mas também não quero abrir mão do lúdico, pode? 'brigada. É que por mim eu podia jurar que não estou falando sozinha.

Depois vem um artigo, juro que menorzinho, sobre programação.



* Narrador d'O homem que calculava, de Malba Tahan

25.5.11

FIlha de portugueses, ela cresceu no Morro da Conceição, no centro do Rio, e foi tirada da escola na sétima série, a contragosto, para começar a trabalhar. Ela gostava de estudar e sua escola, pública, tinha qualidade.
Esse post lista várias palavras usadas pela minha avó, que praticamente me criou (e não era nada educadinha). Ela morreu em 2004, e esses termos, difíceis de se ouvir hoje em dia (de pessoas jovens, especialmente), ainda ressoam na minha cabeça. Quer dizer, minha avó não estava sendo conscientemente política ou tenaz em insistir em seu uso na linguagem, mas admiro-a por ter sabido manter uma expressão verbal própria mesmo assistindo novelas, fazendo palavras cruzadas, conversando com gente de toda idade e procedência.
Ela usava muito substantivo, pouco advérbio, verbos originalíssimos, bastante xingamentos. Eu uso muito advérbio falando, respondo "sim" em vez de "é", uso futuro do presente ("eu irei") e, quando criança, esganava quem usasse diminutivos para se referir a mim. Eu fingia que não estava entendendo as palavras novas para que ela me explicasse, embora a maioria desse pra deduzir do contexto. A informalidade dela não me ofendia, porém; eu gostava dela. Hoje em dia, que estou mais emocionalmente ampla (hahaha), já sinto a dona Albertina em mim aflorar.

Cacófato - o horror da minha avó a cacófatos só era comparável ao meu por diminutivos. "Boca dela" era invariavelmente recebido com "Cacófato!" Acho que isso é porque meu avô costumava cumprimentar um certo amigo pelo nome completo, "Adolfo Dias", quando o via na rua, e fazer outras gozações do gênero.
Desmazelada - geralmente aplicado a mim. "Desleixada" não seria insulto suficiente. (Talvez um indício - etimológico, além das fotos de familiares e do meu nariz - de que nós descendemos de cristãos-novos.)
Esganado - guloso, que come demais
Escangalhar - quebrar alguma coisa
Engranzado - algo que foi entremeado ou metido de forma indevida e ficou preso (um livro na estante, por exemplo)
Grossinha - insulto.
Gulodices - nome genérico dos doces que ela se oferecia para trazer do supermercado: "umas gulodices".
Insolente - insulto.
Malcriada - insulto.
Marginal - qualquer bandido ou pivete
Perra - insulto. Ver "Teimosa feito uma mula".
Petulante - insulto.
Rente - ela usava bastante esse advérbio
Ruim! - insulto geralmente dirigido a mim. Não era pronunciado "ru-ím", mas sim "rrrúim!"
Se mostrar - fazer alguma gracinha com o intuito de "aparecer".
"Tá virando hippie?" - insulto geralmente dirigido a mim. Aquele que se veste fora da norma.
"Teimosa feito uma mula" - insulto geralmente dirigido a mim
Vedete - Consideração em que tinha Carla Perez

* Se lembrar de outras, editarei o post ou farei outro

24.3.11

servidão voluntária

Em 2010, decidi arrumar um emprego. Sim, necessidade financeira, mas eu tinha perspectivas de dinheiro para breve; só que pela primeira vez eu sentia vontade de arrumar um emprego, em vez de arranjar "algo temporário que desse algum dinheiro", como antes.
Eu estava numa época da minha vida que parecia que tudo ia dar certo. Eu tinha um livro promissor para desenvolver e uma bolsa saindo para ele (o dinheiro de que falei). Mas eu escrevia/planejava uma ou duas horas por dia. O resto do tempo eu me via tomada por pensamentos obsessivos que se acumulavam sem quê nem por quê, o dia inteiro rodopiando na minha cabeça, e às vezes não deixavam nem mesmo que eu fizesse o que tinha para fazer (escrever, comer, viver). Também tinha o fato de eu ter me recém-formado em produção editorial sem ter assinado carteira nessa profissão (nem em outra). E a já famosa degradação de habilidades sociais, que em mim é forte, rápida e embaraçosa.
A verdade é que eu estava meio desconectada da humanidade, passando tanto tempo sozinha em casa. Ok. Verdade verdadeira agora: eu sempre fui meio desconectada da humanidade, e as experiências nas poucas vezes em que tinha estendido a mão foram negativas, levando-me a encontrar prazer em estar na torre de marfim. Ou nem em estar na torre de marfim: em estar comigo mesma.
Muitas pessoas que passam muito tempo sozinhas desistem logo no começo porque são uma autocompanhia insuportável. Começando cedo, eu ainda não era; e logo aprendi a evitar ser. Descobri que dá pra você podar seus pensamentos. Você não precisa dar crédito a eles só porque eles vieram de você. Dizer "eu rejeito isso", mesmo que tenha vindo de dentro de mim, é uma babaquice necessária para se tornar uma pessoa melhor, o que se reflete também (claro) na minha opinião sobre educação de crianças, como podem ler nesse post.
Cabeça vazia, oficina do diabo, pensei; se não dá pra ocupar o cérebro com o que devo ocupá-lo, então que tal um belo bode na sala pra você ver o que é bom?
E arrumei o dito emprego. Um de 9h45 por dia, para fazer algo de que eu gostava, cheio de pessoas interessantes, algumas das quais viraram minhas amigas do peito. Mas tinha que chegar lá de ônibus, acordar todo dia no mesmo horário, dormir todo dia no mesmo horário, comer aquela comida e passar por aqueles ordálios trabalhistas por que sempre se passa. Depois que voltasse pra casa, às vezes ainda havia ir à academia ou fazer supermercado - ambos lotados, porque todo mundo só pode ir depois do trabalho - e sempre o jantar.
Também tem o fato de trabalhar ser muito caro e... trabalhoso. Sempre ouvi e li relatos disso, mas ano passado vivi na pele. Além de todos os encargos trabalhistas planejando sua vida por você (Estado paternalista comendo teu salário), há o tempo e o custo de transporte (e todo mundo viajando no mesmo horário, e no sistema de transportes pífio do Rio de Janeiro), a roupa certa (comprei 4 blusas iguais e 2 calças pretas, mas logo tive que comprar mais peças porque elas sujavam e gastavam bem mais rápido, ou davam um puta calor já na primavera) e a despesa com comida (lancha-se, porque trabalhar dá fome, e pede-se em casa, porque dificilmente se aguenta preparar comida depois de 9h45 no batente).
Fato é que pouco a pouco os pensamentos obsessivos foram se acalmando por pura exaustão. A energia antes reservada a eles servia agora à literatura, mesmo que fosse "dos outros", mesmo que às vezes eu nem curtisse o conteúdo. E, quando curtia, dava um gás maior na divulgação e me sentia ótima quando o livro conquistava um espaço maior, ou quando a edição saía bonita, sólida (mesmo que digital), (quase) sem erros, porque ajudei a pegá-los.
Depois que comecei a trabalhar, mesmo com toda aquela falta de tempo, eu escrevi muita coisa. E muita coisa boa. Teve um enorme surto inicial de escrita que me impressionou; depois eu escrevia muito semana sim, semana não. Parecia que as novas experiências enxurravam coisas meio emperradas, antigas, canalizando-as para a ponta dos dedos.
O que atrai muita gente para a profissão de escritor é uma suposta autorização pra não fazer nada o dia todo. (Fazer nada incluiria ler muito e escrever parcimoniosamente, além de traçar os/as fãs e colegas mais jeitosos/as.) Digo que todo esse papo de morte do autor e fim do sujeito fizeram um bocado de sentido depois da minha incursão celetista. Olha, o paraíso é insuportável. Uma vez que você chega nele, não precisa nem te contarem: a princesa está em outro castelo.
Porque saí do emprego? Bem, eu disse que o celetismo era um bode-na-sala, e como todo bode-na-sala, ele teve que sair em algum momento. Dei-lhe um tapinha nos quartos e despachei ele pro deserto. Nada pessoal. Saí curtindo muito o trabalho, mas a cada dia o horário do emprego se tornava mais difícil de cumprir. O dispositivo estava vencido. Minha doença mental estava sob controle.
Tive outras doenças ano passado também, físicas e desagradáveis, e, embora não acredite que toda doença é psicossomática (hohoho, Löis Lancaster...), essas também passaram. Confirmei que minha cabeça estava em desordem por ter passado tempo demais consigo mesma sem alimentação externa. E a qualidade da alimentação externa com que entrei em contato no trabalho foi tão alta que houve, olha só, reciprocidade. Eu gostei tanto das pessoas quanto elas de mim, eu fiz tão bem a elas quanto elas a mim. Uma sensação difícil e esparsa na minha vida até então.
Estar sozinha pra mim sempre foi o normal. Sou filha única, sempre morei em prédios sem playground e com poucas crianças. Me estranhava com a maioria das da escola. Socializava mais com os primos, quase todos meninos. Decidir trabalhar em casa, escrevendo, só deu continuidade a isso. Enxerguei esses anos um monte de coisas pelo mero fato de estar prestando atenção em vez de socializando; mas o preço dos insights induzidos pelo isolamento foi salgado. Pelo menos, quando entrei em contato aberto com outras pessoas - precisando delas, é a verdade - eu tinha algo a dar a elas. De um jeito que vai muito além de sexo, troca de favores ou coisas assim. Eu colocava benesses na frente das pessoas com um "use isso, por favor" estampado na cara - eu precisava ver meus caminhos de autodescobrimento seguindo seus caminhos, em vez de brincando de PacMan dentro da minha cabeça.
Eu também cheguei num ponto tal em que o processamento em segundo plano não estava mais bastando à escrita. Não estava dando vazão. Eu precisava voltar ao esquema full time - agora, com trocas frequentes com a humanidade. Vamos ver como isso anda.

9.2.11

Christine, o carro rabo-de-peixe assassino

Black Swan é tosco como um filme de Walter Hugo Khouri. O negócio é que eu gosto dos filmes do Walter Hugo Khouri.
Porra, trata-se de balé, ou seja, quase ópera. Tem que ser um filme exagerado. Quando o Aronofsky falou de vale-tudo em O lutador, todo mundo achou magnífico. Ou melhor: ouvi, naquela época, algumas reclamações de simbolismo pesado (The Ram = Cordeiro de Deus, destruição do templo = Randy quebrando o supermercado etc.). Mas é isso mesmo. Sempre foi, desde Pi. Aronofsky pesa a mão de propósito, e escolhe temas bem grandiosos e grandiloquentes, e filma tudo com visual extravagante. O que me admira é como essa extravagância se expressa - no roteiro e no visual - de formas diferentes em cada um dos filmes.
Tem gente a quem essa extravagância simplesmente não tem como agradar. Respeito. (Bom teste: se você gosta ou mesmo tolera ópera, vá ver). Mas tem gente que entra na sala de cinema esperando ver 1) sutileza 2) homoerotismo gostosinho 3) grande mistério revelado no final (vulgo I see dead people). Não! Você vai ver TERROR. Você vai ver PILHA ERRADA e PARANOIA. Você vai ver INVESTIMENTO LIBIDINAL EXTREMO NA ARTE. E você vai ver a culminância linda e terrível de tudo isso. Se isso vai fazer você pensar melhor e retomar o curso de publicidade ou ter uma catarse, é por sua conta.
Com isso, não estou dizendo que exagerar é acertar. Quer um filme kitsch ruim? Moulin Rouge. Outro (não vale musical! - ok): Scott Pilgrim*. Defendo que o kitsch tem seus usos, mas é muito fácil perder a mão e certamente não agradará a todo mundo. O kitsch lida com elementos de alta massa nuclear, é preciso ser bem mais disciplinado do que quem trabalha com elementos seguros, aprovados pela tradição e consagrados pelo uso. O Aronofsky geralmente acerta.


*E doi dizer isso, já que curto videogames, mas erraram a mão sequer em considerar fazer o filme. O quadrinho é um pouco melhor, especialmente no começo, até porque no início nem era tanto sobre games e sim sobre humor indie. Mas divago.

1.2.11

Frio

Meu sítio na serra se tornou um depósito de roupas de frio completamente inúteis no Rio de Janeiro. De vez em quando eu me dou conta do quanto elas ajudaram a formar a minha personalidade. Por ordem cronológica (minha cronologia, não das roupas):

- A balaclava da minha avó, rescaldo da lua de mel dos meus pais (sim, com a sogra) em Bariloche, que eu usava para brincar de ninja e espiã no sítio.
- O xale amarelo da minha bisavó, que eu usava para fazer a velha em brincadeiras.
- A luvinha infantil de lã, pseudo patchwork, mais um presente maravilhoso do meu padrinho, que eu usava para manipular bolas de sabão pelo sítio, fosse ou não inverno.
- Pantufas horrorosas e imprescindíveis. Quando começaram a surgir em formato de bichinho, no final dos anos 90, eu requisitei as antigas - minha mãe ficou com as de joaninha. Eu não gostava dessas infantilidades.
- O casaco de neve branco e azul da minha avó, três números maior, que usei direto no Reino Unido em 2000 para compor um visual de flygirl clubber (e não morrer de frio).
- O protetor de pescoço que salvou minha garganta na Escócia em 2008, com aplicação de um logo de sorvete, obtido no Chile pela minha mãe, que preferiu participar do concurso de quem comia mais sorvete de biscoito com meu irmão postiço de 14 anos a descer a pista intermediária comigo vezes sem conta ouvindo techno.

O clima lá está mudando. Agora temos mosquitos no verão. E em janeiro sempre choveu o tempo todo, mas raramente com essa intensidade. Meu canto na serra desta vez foi poupado, mas num ano anterior (recente) árvores centenárias caíram (algumas em cima de telhados) e lascas gigantescas deslizaram das montanhas. Vou para lá em breve, e devo ficar um tempo. Mas com internet.

16.12.10

Entrando na passarela, noto por trás do ombro de uma mulher que seu antebraço está engessado. Só que são dois antebraços para o mesmo lado e muito finos, em formato de coxinha de galinha. Se apossa de mim uma compreensão terrível: que são duas pernas engessadas até a coxa, pernas de bebê. O bebê, do qual nunca vejo o rosto, tem no máximo três meses. Quero sair dali. Mas a mãe confabula com a colega bem na entrada da passarela, impedindo a passagem; presa ali, eu não consigo parar de olhar, pensando bebês de três meses não andam, sequer engatinham, mal viram no berço, que diabos terá acontecido com esse para quebrar as duas pernas!!!! Ando adiante que nem pata, cambaia, sentindo a mente tentar produzir sentido daquilo com tanta força que produz um incômodo físico: um pai violento, uma babá bêbada, um acidente grave por descaso, uma malformação congênita, um médico maluco – quem engessa um bebê? Não me recupero por um bom tempo. Continuo tendo flashes do momento em que entendi as duas perninhas com gesso até a coxa. Com. Gesso. Até. A. Coxa.
Isso não foi um sonho.

26.10.10

Eu estava com minha mãe na cozinha do sítio após um dia cheio de movimento, de visitas. Lavávamos louça juntas. Nisso, ouvi chamarem meu nome lá fora: “Simone. Simone.”, mas não tinha certeza. Fiz aquela cara de cão perdigueiro procurando.
– É a Jacinta – disse minha mãe sem parar de lavar pratos.
– Quem? – eu não conhecia nenhuma Jacinta.
– É a Cíntia que está te chamando. Vai lá.
Larguei a louça e fui ver quem era. A grade não pertencia ao sítio real, era a grade do Museu da República; do outro lado estava uma moça - a Cíntia. Filha da empregada doméstica que tivemos quando eu era pequena e vinha brincar comigo de vez em quando. Por que ela, pensei. Agora adulta, tendo acompanhado a minha idade, ela continuava alta e magra, mas seu rosto era de criança-velha de filme de terror. Eu já sabia o que me esperava naquele tipo de sonho – um susto escabroso, escatológico e arbitrário – susto criativo – mas era incapaz de não me aproximar. E andei na direção dela. Passo a passo.
– Simone – disse ela mais uma vez. Estaquei. Mas dei mais um passo adiante, ao que ela, agressiva, reagiu: – Pirrranha.
(Ela tentou me chamar de piranha e resvalou no R.)
Ainda assim continuei avançando. Quando cheguei bem perto, a cara e o corpo dela pareceram se achatar em 2D e ela, após recuperar a forma original, fugiu aterrorizada se esgueirando junto à pedra. Bem rápido.
Foi um sonho de febre. Acordei empapada, já sem ela.

5.9.10

Baila comigo

Sabe Baila comigo, da Rita Lee, trilha de novela, com aquele arranjo meio órgão Roland + salsa-pra-turista com SOLO DE FLAUTA?
Bem, acho uma música boa.
Serinho. Só precisa de outro arranjo, outra voz - uma versão aterrorizante seria bem-vinda.
Hoje ouvi de novo, lembrei dela. Essa parte em especial me parece fenomenal e subvalorizada:

Se Deus quiser
Um dia eu morro bem velha
Na hora H
Quando a bomba estourar
Quero ver da janela
E entrar no pacote
De camarote...
E tomar banho de sol
Banho de sol,
Banho de sol,
Banho de sol.


Quer dizer, pulsão de morte, bomba H, fritar na fissão nuclear ("sol"), e flautinha. E baticum de bongô ao fundo, e aquelas duas barrinhas de madeira arredondada batendo plic, plic.
Que subversão, meu deus. Tocava na Antena 1 quando eu comecei a estudar física (7a, 8a série).

22.8.10

Trecho de "Olho de gato", de Margaret Atwood

"No fundo tem duas entradas grandiosas, todas entalhadas e com aplicações floreadas sobre as portas, inscritas com letras curvas e solenes: MENINAS e MENINOS. Quando a professora toca a sineta de metal no pátio temos que fazer filas de dois por classe, meninas em uma fila e os meninos na outra, e entramos alinhados por nossas portas separadas. (...)

O único momento em que vejo meu irmão na escola é na fila. Em casa nós improvisamos um telefone com duas latinhas e um pedaço de cordão que passa pelas duas janelas de nossos quartos mas não funciona muito bem. Colocamos bilhetes embaixo da porta um do outro, escritos na linguagem cifrada dos alienígenas que é cheia de X e Z e precisa ser decodificada. (...)

Mas durante o dia, eu o perco de vista assim que saímos pela porta. Ele vai na frente, jogando bolas de neve; e no ônibus fica lá atrás, num remoinho barulhento de meninos mais velhos. Depois das aulas, depois que passou pelas lutas exigidas a qualquer novato em qualquer escola, ele sai para ajudar no combate aos meninos da escola católica vizinha. Ela se chama Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, mas os meninos de nossa escola a rebatizaram de Nossa Senhora do Perpétuo Horror. Dizem que os meninos dessa escola são muito brigões e que escondem pedras dentro das bolas de neve.

Sei que não devo falar com meu irmão nessas horas, nem chamar a sua atenção ou a de qualquer outro menino. Os meninos se chateiam por ter irmãs mais novas (...) Se for chateado por minha causa, ele vai ter que brigar mais ainda. Para mim seria desleal contatá-lo, ou mesmo chamá-lo pelo nome. Eu entendo essas coisas e faço o que posso.
Assim, fico com as meninas, meninas de verdade finalmente, de carne e osso. Mas não estou acostumada com meninas, nem familiarizada com seus costumes. Fico constrangida perto delas, não sei o que dizer. Sei as regras não ditas dos meninos, mas com as meninas sinto que estou sempre à beira do disparate imprevisto, calamitoso."


Gosto muito desse trecho. Tradução de Maria José Silveira, edição da Marco Zero.

30.7.10

The pale handmaid's tale

Notas do primeiro mês de trabalho:

- Fiz um vídeo do caminho a pé - da subida junto ao cemitério na passarela carcomida sobre seis pistas expressas. Ao contrário do que está no vídeo, sempre olho para a frente.
- Uma fruta por dia no bandejão - tangerina, banana, maçã - descascada e comida com dentes, unhas e faca cega.
- A cadeira, e a postura, são importantíssimas. Disso eu já sabia, mas por tantas horas seguidas isso se torna bem mais evidente. Tive que caçar uma cadeira. E nada de cruzar as pernas, baixar a cabeça ou curvar os ombros.
- Ambiente 99,9% feminino. Nesse mundo o estoicismo é diferente. Torna-se imperativo resistir a comer por ansiedade, por exemplo. Ou saber bloquear a estridência com a mente quando se precisa trabalhar - ou ser multitarefa, trabalhar E estridular alternando miudinho (life skill).
- Peço os trabalhos mais pesados. Quero esvaziar a estante, deixa eu revisar a tradução, me dá o índice onomástico. Levanto para ir pegar dicionário (eu uso muito dicionário). Compro a comida dos outros lá embaixo. Raramente tomo o elevador e quando estou sozinha corro pelas escadas.
- Material de escritório à vontade e em grandes quantidades.
- Ambiente 99,9% nerd (de vários subgêneros).
- A pele atinge o equilíbrio ideal com o ar-condicionado. Quase. É preciso passar hidratante sob os olhos e nas mãos.
- Bebo mais água. Passo mais batom.

Isso não é bem um item. O ambiente ao redor me interessa. Passo por uma porção de estabelecimentos oblíquos. Hoje vi um Diplomata (carro, não chocolate) preto, todo elongado, estacionado na porta duma oficina. E ontem na esquina da empresa identifiquei uma escura papelaria, identifiquei estantes de metal com cara de 1978 e também um cliente: um menininho. Na tentativa de ver o que ele comprava, apertei a vista e descobri que, além de pastas, borrachas e canetas, metade das tais prateleiras continha dezenas de pingas diferentes. Papelaria-bar. Ganhei o dia.

- As baias vão chegar na semana que vem.

25.7.10

female trouble, ou: faz todo o sentido

Meu problema, em suma, é que leio Jane Austen e não acho o sentido. Sério. Leio diálogos e mais diálogos de conluio sentimental sem extrair qualquer prazer, sem detectar qualquer padrão coerente. Não entendi. Qual é a graça? Falho no teste de Turing bonito. Porque Philip K. Dick - ah, esse sim - faz todo o sentido. Leio "Valis" entendendo tudo. Os sinais, as coincidências altamente improváveis, a paranoia, a perseguição, a detecção de padrões. Sim.
Eu estaria perdida como mulher se eu não fosse um androide do tipo que aprende. Sei detectar padrões conhecidos, mas fico presa aos resultados averiguáveis. Por exemplo, SE você devaneia no trabalho e sonha de noite com alguém, SE mal consegue olhar no olho, SE gente a mais disparatada diz que você parece mais bonita do que costume; e SE, ao pensar, ei, isso não quer dizer que estou..., todos começam a acusar olhinhos brilhantes, LOGO você está apaixonada.
Foi bom começar a trabalhar, ainda mais num ambiente 99,9% feminino, porque aprendo mais rápido essas coisas de humano. Já demorei anos para perceber coisas semelhantes. Dessa vez demorei apenas três ou quatro semanas (tarde demais?).
Eu devia vir com manual de instrução. Depois de um tempo, claro, ele teria que ser jogado fora. Androides com defeito indeed.

Ontem estive num casamento e também não entendi nada. Mas what the hell.

19.7.10

one of these things is not like the other

Um amigo me fez narrar toda minha spring break de inverno (que terminou 1 semana após minha entrada no Emprego Estável) e percebi que isso - narrar, eu digo - me fez bem. Ele logo apontou: one of these things is not like the other. E eu concordei. Percebi também, conversando com ele, que jamais, jamais posso relaxar meu autocontrole, e, sabendo disso desde pequena, nunca devia ter caído nessa de "dar só uma espiada" (no abismo) e sim ter continuado com meus exorcismos de sempre.
É tudo muito fácil para uma esquizoide - alguém cuja empatia não vem de fábrica -, até que você percebe que deixou escapar um detalhe por demais importante, correndo o risco de parecer que pensa que é tudo a mesma coisa, quando não pensa, e se ferra bonito, levantando estilhaços que não dá nem para chamar de dano colateral.
Quero esse poder não, obrigada.
Vou ficar bem quietinha e assalariada, e nas folgas vou me submeter aos mesmos exorcismos de sempre. Porque lembrei que decidi ser uma pessoa boa a despeito de qualquer oligarquismo atávico - desde os cinco anos de idade.
Ontem fui a uma festa da minha família e perguntei do meu avô caçador para os meus tios; joguei videogame contra meu padrinho, e perdi; prometi à mulher dele ajudá-la a arrumar adoção para uns gatos. E eu estava gostando. Fiquei com pena de ir para casa. É mesmo uma decisão, questão de empenho, de foco.
Como diz o Ismar: tá tudo bem.
Mas que era uma boa hora para ser poeta, era.

12.7.10

Darel

Estava eu indo pro dentista quando vejo passar um 326 com busdoor anunciando exposição do Darel (Valença Lins). Na verdade, vi primeiro a ilustração, reconheci como sendo dele, e só aí, já empolgada, é que fui ler os dizeres do cartaz. Não é pra qualquer um, vai - digo, ter um estilo tão único que é reconhecível mesmo estampado num busdoor furtivo às duas da tarde na Perimetral.
Darel está no Caixa Cultural - exatamente em frente ao meu dentista. Tive goosebumps com a coincidência.
Aí cheguei lá e nenhum museu abre segunda. Fuén. Depois vou.

Descobri o Darel Valença Lins enquanto paginava jornais atrás de jornais dos anos 80 na Biblioteca Nacional para a editora Azougue. Os cadernos de cultura eram mais recheados naquela época, e bastou uma ou duas reproduções em preto e branco para eu cair de amores pela obra dele e procurar mais na internet. Fiz um post dizendo que ele tinha desenhado uma Maria Luiza (de A feia noite) muito melhor que eu. Depois ele descobriu meu post e me escreveu. Aí eu dei o nome dele pro protagonista do conto Herói, escrito para uma antologia erótica da Azougue que nunca saiu, mas que acabou entrando no Amostragem complexa (ei, eu preciso tirar nomes legais de algum lugar).
Só não entendi a onda BBB de identificá-lo apenas pelo primeiro nome. Mas ok, o que importa é o conteúdo.

E tome reprise da faixa-bônus do Amostragem, caso alguém não conheça.

P.S.: aproveitando a onda de dizer de onde tiro o nome dos meus protagonistas masculinos, revelo que o Miguel do Conto japonês (Mousmé) é inspirado no Miguel dos Karas (do Pedro Bandeira), e o menino gordinho que aparece no Segundo andar é minha versão carioca e classe média do Bolachão da Turma do Gordo (do João Carlos Marinho). Pronto, danei-me para sempre; posso ir dormir.

11.7.10

Apresentação do conto "Deitado eternamente em berço esplêndido", de Simone Campos, a sair na antologia "Escritores escritos" da editora Flâneur. O autor homenageado no conto é H. P. Lovecraft.
Vídeo feito no dia da final da Copa do Mundo, em homenagem ao polvo Paul.

11.6.10

O Mestre e Margarida

O Mestre e Margarita é um dos meus livros preferidos. Li uma edição velhusca, traduzida do inglês, mas sei que agora saiu uma nova da Alfaguara. Está na moda, portanto.
Ontem era um dos únicos três dias que a peça, da CAL, seria exibida - só para convidados - e eu fui, mesmo com medo.
Quando minha amiga avisou:
- Você vai me matar. Tem mais de 2 horas e meia a peça.
Eu já fiquei empolgada.
Achei que no mínimo iam cortar a história do Pilatos com Jesus, ou o número de incidentes pós-chegada de Woland a Moscou. Nada. Colocaram tudo. Precisa, né.
Três horas e meia de peça. No final, me senti a própria Margarida - dizendo, não, não, tudo bem ter demorado, valeu a pena.
Em boa parte funcionou muito bem. Teve soluções cenográficas criativas - como o chão de ladrilhos pretos e brancos também usado como tabuleiro de xadrez. Ou o interrogatório de Jesus por Pilatos com sombras. Aprovei também as referências atuais (grana na cueca, Faustão = Fausto grande, 11 de setembro). Figurino exemplar, especialmente do gato da trupe do Woland e do Ivan. E o teletransporte para Ialta? A transformação da Margarita! A destruição do apartamento do crítico!
Trouxe o programa para casa. De um lado, é uma nota de dólar.
Achei que a Margarita podia ser mais alegre, especialmente no baile, e não curti a saída dela de vassoura. Certas cenas imploravam por edição. Mas deu surpreendentemente certo. Eu veria de novo uma montagem aberta e incrementada.

30.5.10

teoria da comunicação

Estou na segunda graduação, nenhuma vergonha na cara, já entreguei monografia mas adoro produção editorial e por isso não paro de puxar matérias. É tipo um curso livre para mim.
Aí, por estudar na Eco, ouço essas histórias.

Calouro Leite-com-Pera, anticotas, é respondido ironicamente pela Diretora pró-cotas da Eco via Twitter - no que é referido como branco-danoninho. Calouro Leite-com-Pera é secundado por um monte de gente anticota e/ou gente que se sentiu discriminada enquanto branco-danoninho. Veterana Sniper tuíta que vai juntar umas meninas para dar um pau no Calouro Leite-com-Pera. Calouro Leite-com-Pera interpreta o tuíte literalmente e aparece com a mãe na Eco no dia seguinte, ameaçando Eco, Diretora e Veterana Sniper de processo.
Cai o pano.

Sei que é bom demais pra ser verdade, mas juro: não é fruto da minha imaginação. Mui me ufano de estudar nesse lugar.

Tenho a teoria de que esse choque de civilizações se deve à aposentadoria do professor Saboga, coisa por que tanto torcemos quando jovens e ingênuos.
Nesse singelo post de 2004 temos a definição abreviada do Saboga:
"Pega os calouros, 1o período. Não importa o ano, reprova 80% de uma turma e 50% da outra (aquela com a qual ele simpatiza mais)."
E acrescento: aprovações e reprovações eram efetuadas aleatoriamente, com comentários desmoralizantes também aleatórios em caneta vermelha, nas margens.
Ele exigia papel almaço.
Encadeava cigarros (podia em 2001) e percorria o espaço frontal com passos abertões, ida e volta, nas primeiras aulas - que eram as únicas expositivas.
Depois começavam os textos.
Quem fizesse perguntas sobre eles podia ser chamado de burro antes de mais nada. Ainda assim, ele exigia perguntas.
Nessa fase ele abandonava a sala quase no meio de uma frase, com 15 minutos de aula, após requerer perguntas que os aterrorizados alunos não tinham coragem de fazer.

Outros fun Saboga (non)facts:
* Ele deu aula para Fátima Bernardes, por exemplo. Isso é documentado. Há um tocante depoimento dela num livro que sempre circulava entre os calouros, às vezes apenas o excerto na lista da faculdade.
* Fofoca sem fundamento: certa vez, uma menina teria gritado no meio da aula que ele devia ter o pinto muito pequeno pra tratar os alunos daquele jeito e ganhou dez na prova.
* Fofoca sem fundamento [2]: uma menina por quem ele supostamente se apaixonara (porque ela manjava de filosofia alemã) teria estado na casa dele e relatado diversas estranhezas, entre elas, que ele não possuía televisor. No dia seguinte do jantar com ela (que diz não ter dado), ele teria declarado que daquele momento em diante jamais voltaria a reprovar um aluno.

Bem. Voltando à vaca fria.
O abuso ritual exercido pelo professor em questão era essencial para subir a taxa de niilismo ("resiliência") dos Calouros Leite-com-Pera. Quando, chorosos, eles se aprochegavam da autoridade mais próxima (o então Diretor do Departamento, professor José Henrique) e ele dizia estar de mãos atadas, e depois galgavam de joelhos o Gólgota da hierarquia acadêmica - Diretor de Graduação, Diretor da Eco ou até o Reitor - apenas para encontrar mais evasivas, algo se quebrava dentro deles: o último vestígio da sensação de protetorado infantil. Aqui é a vida real, rapaz. Ela não é justa. Mas nem por isso você pode correr para a saia da mamãe.
Isso sim era educar para a vida.
Aliás, o nome da matéria dele era Realidade Brasileira.

Eu aprendi minha lição. Mas ah, os velhos mestres se vão e os pupilos não se mancam de encontrar os próprios...
A Eco era uma sociedade pós-apocalíptica, pós Hiroshima. Agora misturou tudo. Tem gente com o brilho da esperança no olhar.
Vai dar merda. Uma merda possivelmente interessante.
Eu, por exemplo, sou anticotas (pró-educação básica boa para todos) e anticalouroleitecompera. De que lado eu me posto? Metade pra cada lado, só se for.

19.5.10

pílulas grandes demais para o twitter

O Irish pub é o McDonald's da manguaça. Para o gringo perdido num país estranho, os arcos dourados da lanchonete são uma visão oásica, que promete aplacar sua fome sem lhe dar diarreia; da mesma forma, as letras esverdeadas de um Irish pub prometem ambiente climatizado sem muita piscação de luz, um álcool confiável e, quem sabe, paquera.
Irish pubs em todo lugar. Há no Rio de Janeiro, há em Porto Alegre, há pelo menos dois em Tours, no interior da França. Eu gostaria de ver um Irish pub chinês.
Em 2008 eu estive num Irish pub na Irlanda. Quer dizer: estive em mais de um, mas esse foi o mais parecido com a franquia mundial. Achei chato. Geralmente as pessoas que atingem aquele nível de embebedamento já teriam desmaiado há muito tempo; no Irish pub irlandês elas estavam de pé. E falando.
Eu não tinha bebido o suficiente para apagar a experiência da memória. Ninguém foi inconveniente, veja bem; mas toda a wit foi substituída por drivel, jogos com moedinhas e filas intermináveis nos banheiros. Chato.

Isso me lembra os "botequins cariocas" que, na verdade, são uma invenção paulista posteriormente reimportada. Vocês sabem, aqueles bares todos fechados (por causa do inverno), com decoração em madeira e mezanino que servem petiscos "legitimamente cariocas" a preços de delicatessen nova-iorquina, e chopp da marca que lhe ofereceu maiores descontos (mas com forte ágio para o consumidor final).
Oh, sim, eles sempre põem "carioca" ou "Rio" no nome. Ou usam o calçadão, o Cristo, o Corcovado no logotipo.
É lá que os assalariados e mauricinhos preferem beber hoje em dia; é mais asseado, mais selecionado; dá para levar as meninas e, supostamente, não tem que ficar cuidando da bolsa (pivetes não têm acesso). Eles vêm se espalhando pelo Rio feito praga, substituindo botecos sujos. Se você não bebe o suficiente, logo vai notar que o atendimento é horrível e a comida, além de demorar, é, com muito boa-vontade, mais ou menos. Prefiro levantar e ir lá no balcão pegar uma porção de BONS bolinhos de bacalhau do que esperar meia hora por um filé esdrúxulo que nem vem no ponto pedido. Em suma: também sou fresca, mas acho que a frescura dos outros está muito direcionada às aparências, em vez de ao conteúdo.

* * Dislexias recentes de nota * *

"O colapso da Rússia" = "o cosplay da Rússia"
FISK = FUCK
Omo Multiação = Omo Mutilação

3.5.10

Filmes obscuros favoritos

Inspirada por esse post do Xerxenesky, que me fez descobrir Brick, resolvi compartilhar alguns filmes obscuros por que sou obcecada para que vocês possam assistir. Três ou quatro, para começar.
Devo dizer que adoro fotografias bem cuidadas (eye candy), mas não apenas. Se não vejo conteúdo, não me conquista. 2046 (Kar Wai Wong) é o exemplo mais gritante do filme que acho apenas mais um rostinho bonito.
Dito isso, passemos aos filmes que acho realmente bons.

A última vida no universo (Ruang rak noi nid mahasan) - Pen-ek Ratanaruang


Sou fã do tailandês Pen-ek Ratanaruang por causa desse filme. Para mim, é como uma adaptação não-oficial do meu livro A feia noite - ok, saiu antes, mas conheci o filme quando estava com o livro praticamente pronto.
Outra forma de vendê-lo seria dizer que é um Encontros e desencontros (Lost in translation) que deu certo, com um toque de Lucrecia Martel (a diretora argentina que filmou O pântano).
É um filme de andamento lento com momentos líricos e brutalmente engraçados, que brinca com filmes de yakuza (máfia japonesa). Som memorável. Não chega a ser surrealista: conta historinha. Bem devagar.

Outro dele de que gosto: o 6ixty-nin9 (Ruang Talok 69). É uma comédia sombria cheia de piadas internas tailandesas (você ri de Monty Phyton, não?). Também com historinha.

Onde obtê-los: No torrent mais próximo de você.



May - Lucky McKee


É uma espécie de comédia romântica indie que descamba para o terror total. Tem citação direta a Dario Argento e, para quem curte, Anna Faris morena. Definição: Carrie, a estranha mais adulto com enxertos (ha, ha) de Frankenstein. Saiu aqui em DVD com um título que me recuso a repetir - é simplesmente muito equivocado.



Phantom love - Nina Menken


É sacanagem indicar um filme que nem sequer existe em DVD, muito menos para baixar. Mas você pode assistir o trailer e algumas cenas, como a da cobra (Snake), no MySpace. O filme é de um preto-e-branco lindo e surreal. Tenso. Te deixa na ponta da cadeira, especialmente por causa do som. Como explicar... é uma espécie de Anticristo só com o lado feminino da questão, com bem menos gore mas nível de opressão equivalente. Vi no Festival do Rio, não sei em que ano. Quando sair o DVD, compro na hora.

27.4.10

amostra grátis

Escrevi o texto abaixo tentando cavar espaço numa revista (preciso de uns cobres), mas parece que não vai sair. Então resolvi liberar aqui antes que ficasse velho. Enjoy.

A brasilianização da diplomacia
Nosso legado: relaxe, tome uma caipirinha.

A carreira diplomática recende a glamour. Muita gente a cobiça, especialmente aqueles não sabem muito bem o que querem da vida. É uma espécie de jornalismo, só que de luxo. Recepções e jantares, elegância, cosmopolitismo, passagens de avião grátis a perder de vista: quem não quer?

Itamar Franco, depois do fim da sua presidência quase acidental, quis. Fez questão de um posto diplomático - em Portugal, por ser o português o único idioma que dominava (dizem as más línguas). Vinicius de Moraes também entrou para a carreira; disse rindo em seu depoimento ao MIS que aquela lhe parecera "uma carreira para vagabundo", por meio da qual poderia viver "sem fazer coisas cacetes". Também disse, na mesma chave, lutar para não ser promovido, porque nos escalões menores ninguém lhe prestava atenção*.

Pelo visto, ele estava errado. Em 1969, dois anos depois desse depoimento, Vinícius foi expurgado do cargo pela ditadura. Morreu em 80, sem fazer coisas cacetes mas também sem ver seu caso resolvido. O arremate veio em 2010, quando foi reintegrado aos quadros diplomáticos brasileiros com promoção a embaixador, o que acarretou um aumento na pensão de seus herdeiros.

Apesar deste final ser um tanto irônico para um homem que disse não suportar a ideia de chegar ao alto escalão, não há dúvidas de que Vinícius ajudou a espalhar um certo estilo musical que nasceu aqui por todo o globo (notadamente, elevadores) à sua maneira: cantando, brindando e paquerando. Dá a impressão de que funcionou melhor.

A diplomacia brasileira tem um histórico de tentar extirpar a brasilidade de seus modos de agir. É como se dissessem: Não pode isso, essa malandragem toda. Esconde essa ginga, larga essa birita. Aqui nós somos sérios, eficazes.

Tudo isso me vem à mente quando leio notícias recentes sobre nossos esforços diplomáticos. O Itamaraty vem admitindo pessoas de diferentes cores e classes sociais, que tenham formações e falem idiomas diferentes da palheta tradicional. Mas o que me intriga mesmo são declarações como essa:

"Vocês aqui na Europa não deveriam isolar o Irã. Muito pelo contrário. Vocês não podem deixar um louco solto. Tem que ir lá, segurar o homem, pelo menos uma vez a cada quatro meses. É o que eu faço com o Chávez. De vez em quando, vou lá na Venezuela segurar as pontas" disse Lula em março a um dirigente europeu.

Há pouco tempo saiu uma foto do ministro Miguel Jorge presenteando a camisa da seleção brasileira a Ahmadinejad, que, pela cara, adorou o suvenir. Foi aí que comecei a vislumbrar as intenções dessa nova diplomacia à brasileira.

Ele só quer um amigo

"So ronery" ("Tão sozinho"), canta o ditador norte-coreano Kim Jong-il na animação de marionetes Team America, criação da dupla de South Park (Trey Parker e Matt Stone). O poder é mesmo solitário. E o tratamento de gelo (e, falhando isto, fogo) aplicado por países como os EUA como panaceia para os males do mundo parece ser feito para deixar governantes antidemocráticos ainda mais isolados.

Segundo A arte da guerra de Sun Tzu, ao se cercar um exército sempre é preciso deixar uma saída livre, pois um inimigo desesperado é capaz de tudo. Privar "pessoas difíceis" de todo e qualquer poder pode levá-las ao desespero. Isolá-las "até que mudem" pode levar a guerras frias ou ao terrorismo. Isso também vale para escalas menores – a de jovens isolados que saíram metralhando os colegas, por exemplo. Desequilibrados? Sem dúvida. Mas, quem sabe, se tivessem alguém com quem conversar, a tragédia poderia ter sido evitada.

Começo a desconfiar que o plano brasileiro, se é que há um plano, consiste em corromper a integridade fanática de pessoas como Ahmadinejad com amizade, futebol e, quem sabe, mulatas, caipirinha e um pouco de música e sol. Maquiavelismo moreno! Se for isso, meus parabéns. A sedução ocidental nunca foi tão perniciosa. Nosso tanto faz malemolente tem o condão de induzir à procrastinação e à permissividade – sei disso melhor que ninguém. Se tanto faz, porque não viver mais um dia? Por que explodir o mundo hoje? Por que não deixar a revolução para amanhã? Hein, hein?

Todos querem deixar sua marca no mundo e valsar no grande baile de formatura da humanidade. Ninguém quer uma Carrie no seu baile, mas se acaso ela vier, é favor não jogar um balde de sangue de porco em cima dela.

* Do livro Vinicius de Moraes, coleção Encontros, Ed. Azougue. Organizado por Sérgio Cohn e por mim.

14.3.10

Inteligível

Quantas vezes não ouço gente me dizendo: ahn, ele(a) é pobre, não teve as chances que você teve, deixe ele(a) fazer um serviço ruinzinho/marromenos. Ouço gente falando isso com relação a profissões as mais diversas, de revisores a eletricistas. Eu penso: e os pobres ou ricos ou remediados que são bons no que fazem? Devo tirar a chance deles de se destacarem, mostrarem serviço e ganharem dinheiro fingindo que os ruins são bons? Eu hein.
Eu gosto de gente boa no que faz. Minha faxineira é muito boa faxineira. Meu pedreiro é muito bom pedreiro. Eu os recomendo pra todo mundo. O que acontece, no mais das vezes, é que eles recebem serviço demais e acabam subindo a taxa que cobram ou não aceitando serviços. Eu pago - porque não suporto incompetência.
Meu pedreiro é inconformado com o tamanho da minha pia, que parece um bebedouro de pássaro. Ele já me perguntou algumas vezes porque eu não pus uma pia maior. Ontem resolvi responder sucintamente:
- Jogos de poder com a minha mãe.
Pronto. Até por já ter trabalhado para a minha mãe, ele entendeu na hora e riu. Vendo que tinha sido entendida, desenvolvi mais um pouco, descrevi a cena para ele - minha mãe na loja dizendo que estava pagando a reforma, então ia me comprar ou uma cuba quadrada ou aquelas que ficam para fora do mármore, que eu acho horrorosas; eu insistindo numa pia normal, oval; e no fim, por birra, ela me comprando uma louça de pia do tamanho e formato de meio Júpiter de sistema solar ginasial.
Ah, hoje em dia ela vem aqui e reclama da minha pia pequena. Fim.
Pelo menos meu pedreiro riu a valer e elogiou expressamente o "jogos de poder". E terminou seu serviço.
Em suma, foi um bom momento, fiquei feliz em ser compreendida.
Eu fico feliz com pequenas coisas, mas coisas que são danadas de difíceis de conseguir.

11.3.10

Maldito comentarista anônimo

Já quando foi lançado, em 1605, o primeiro Dom Quixote foi um tremendo sucesso. Esgotou dez edições em castelhano. Seus personagens apareceram em bailes de máscaras já no ano seguinte. Foi traduzido rapidamente para inglês e espanhol - e só não o foi para o português porque, naquela época, a Ibéria era praticamente bilíngue. Os portugueses liam castelhano numa boa*.
Cervantes deixou o final do primeiro Quixote em aberto, à moda das franquias cinematográficas atuais. Com o sucesso, Cervantes começou a escrever uma continuação no passo dele. Acontece que, antes de sair o segundo volume do Quixote, saiu uma suposta continuação, de má qualidade, escrita por um tal de Avellaneda - que, ainda por cima, era um pseudônimo.
Dá para imaginar que Cervantes tenha ficado queimado com isso. O que ele fez? Tentou descobrir a verdadeira identidade do sujeito? Processou o fidaputa para retirar aquilo de circulação? Moveu uma campanha de difamação pública do canalha?
Não. Ele resolveu inserir aquilo na história.
No segundo volume, Dom Quixote fica sabendo que andava circulando um livro contando suas aventuras (o primeiro volume, por Cervantes), e ainda um outro que contava "tudo errado" (o de Avellaneda).
Gênio que era, Cervantes bolou uma solução perfeita para o problema do direito autoral - não a pirataria, mas o problema do "dono da ideia": mostrar que você é muito melhor e por isso é o legítimo titereiro da ideia. E, se não inventou a metalinguagem, pelo menos a usou de forma brilhante, no melhor estilo sua-inveja-faz-a-minha-fama. E isso em 1615!

As informações desse post vieram das edições da Editora 34, volume um e volume dois. Isso é o que a orelha diz, e o prefácio. Estou começando o segundo volume agora - avidamente, é claro.

*A versão portuguesa só veio em 1794, quase duzentos anos depois, com o fim desse bilinguismo.

2.3.10

As pessoas não sabem

Se você está envolvido com produção editorial e tradução, como eu, já deve ter ouvido falar do blog da Denise Bottman. É um blog que coteja e denuncia plágios maquiados, nos quais se muda uma pequena porção das palavras para fingir que houve uma tradução nova e não pagar os devidos direitos ao tradutor ou a seus herdeiros.
Pois bem, duas das editoras moveram inacreditáveis processos contra Denise por esta ter denunciado crimes. Foi lançado um manifesto online contra isso: assine-o, se puder.

Outro dia uma amiga estava falando da coleção de bolso da Martin Claret, e de como, apesar de feios, os livros eram baratinhos; quando mencionei que alguns eram fruto de plágio ela quase caiu para trás. Nunca tinha ouvido falar do imbróglio. Aproveitei para indicar o Não gosto de plágio. Minha amiga, indignada, abjurou os livros da editora.
As pessoas não sabem dos casos de plágio disfarçado e continuam comprando livros das editoras "espertas". Quando ficam sabendo, a reação é indignação e rejeição aos produtos denunciados. Então conte para eles. Promova o blog da Denise. É um bem que você faz.

Se isso te faz ferver o sangue, outra prática afim em que é bom prestar atenção: sebos que recebem livros roubados de bibliotecas. Não posso imaginar sacanagem maior.
Quando estiver folheando livros a esmo e encontrar algum com carimbo de instituição (e frontispício arrancado: suspeitíssimo), avise o responsável e ouça bem a resposta dele. Isso aconteceu comigo: o sujeito disse que recebeu um "lote muito grande" de livros e não pôde verificar um por um. Ou seja, a desculpa dele foi preguiça e ignorância. Para mim, é óbvio que o dono de sebo tem que verificar os livros que chegam um a um, e os mais atentos (e honestos) adotam práticas ainda mais rigorosas* para evitar receber mercadoria roubada. Não comprei mais naquele sebo. Se eu lembrasse o nome dele, eu diria, mas a verdade é que faz muito tempo e, não lembrando bem, não quero acusar em falso.
Informação é um negócio sério. Quanto mais disseminada, mais fica difícil a pessoa se fazer de boba ("mas eu não sabia...").


*Acesso para assinantes da Folha de SP ou do UOL

21.2.10

Quixote says

Quanto mais que, se eu bem entendo, este vosso livro não tem necessidade de nenhuma dessas coisas que dizeis que lhe faltam, pois todo ele é uma invectiva contra os livros de cavalarias, dos quais nunca se lembrou Aristóteles, nem disse nada São Basílio, nem teve notícia Cícero, nem contam nos seus fabulosos disparates as pontualidades da verdade, nem as observações da astrologia, nem importam nele as medidas geométricas, nem a confutação dos argumentos de que se vale a retórica, nem tem para que predicar a ninguém, mesclando o humano com o divino, que é um gênero de mescla do qual não se deve vestir nenhum cristão entendimento. Tendes tão-só que vos valer da imitação naquilo que fordes escrevendo, pois, quanto mais perfeita ela for, tanto melhor será o escrito. E como esta vossa escritura não mira a mais que a desfazer a autoridade e capacidade que no mundo e no vulgo têm os livros de cavalarias, não há razão para que andeis a mendigar sentenças de filósofos, conselhos da Divina Escritura, fábulas de poetas, orações de retóricos, milagres de santos, e sim procurar que lhanamente, com palavras significativas, honestas e bem colocadas, saiam vossa oração e período sonoros e festivos, tudo amanhado ao vosso talante e intenção, dando a entender vossos conceitos sem os intricar nem obscurecer. Procurai também que, lendo a vossa história, o melancólico se mova ao riso, o risonho o acrescente, o tolo não se zangue, o discreto se admire da invenção, o grave a não despreze, nem o prudente a deixe de elogiar. Enfim, levai a mira posta a derribar a mal-fundada máquina desses cavaleirosos livros, detestados por tantos e elogiados por muitos mais; pois se tanto conseguirdes, não tereis conseguido pouco.
do prefácio de D. Quixote - Cervantes
Tradução de Sérgio Molina - ed. 34

Lindo e exato, isso foi escrito em 1605 e era aquilo de que eu precisava para colocar meu livro novo, Owned!,nos trilhos. Obrigada, seu Cervantes.

D. Quixote está aqui há três bienais. Agora que comecei a lê-lo, sei que vou precisar da parte dois.

23.1.10

Ríastrad

Eu disse há semanas atrás que não curto drama nem gente intensa - mas eu estava falando mais de mulheres. É engraçado como admiro as mulheres frias e reservadas* mas acho que um certo tipo de intensidade cai bem em certos homens.
Ele está lá, bebendo com sua matilha. De repente, surge um mal-entendido e ele tem que ser jogado embaixo de água fria para não entrar no modo Cúchulain. Por quê?
Você vai investigar e vê que algum dos colegas dele fez um comentário maldoso, disfarçado de piada, sobre algo que ele realmente preza. Não o time de futebol. A irmã dele, por exemplo. Ou um comentário racista. Ou simplesmente foi inconveniente e demonstrou que precisa ouvir um calaboca.
O que acontece na maioria das vezes é que não tem nenhum Zidane por perto. O babaca solta seu comentário sujo e não ouve um cala a boca bem-dado nem apanha: é olhado feio por umas três pessoas no recinto, e os leões covardes à sua volta espremem os lábios e engolem em seco: não sentem a ofensa tão intensamente a ponto de reagir. Ou sentem, mas foram educados a não reagir, se importam tremendamente com o que vão pensar deles depois**. Será deficiência hormonal? Medo de se meter em confusão, quebrar umas garrafas?
Depois de pensar muito, creio que o arquétipo do lobo solitário me deu a resposta. O lobo solitário pode até andar em grupo, pode até ser fiel a ele, mas sua aliança final é para com ele mesmo. Ele costuma ser a voz discordante mesmo que isso resulte em climão. A pressão dos amigos não funciona com ele; pelo contrário, até o indispõe mais ainda contra o grupo. O lobo solitário acha que se garante sozinho, e mesmo que não ache, ceder a algo com que não concorda seria pior que morrer estraçalhado.
Frente à conspurcação daquilo que lhes importa, alguns lobos solitários se incendeiam na mesma hora; outros conseguem puxar a própria coleira e civilizadamente expor o X do erro do outro. O que não tolero é quem tem a delicadeza de ficar caladinho perante um ultraje, ou a falta de noção de honra em não reconhecer um.
O lobo solitário berserk costuma ser bom em botar ordem na casa. Coibir o trickster, por exemplo, é com ele. Mas ahn, faria melhor você em jogar todos esses arquétipos no lixo; o que chamam de homem hoje é uma figura perdidinha, depilada, anoréxica e platônica, que te vê como totem prêt-a-porter (tô comendo) e que acha cool dizer o amor é importante porra - sem ter melhorado no reconhecimento de emoções faciais com isso. Muitas abraçam esse novo padrão. Já eu acho total suicídio evolutivo.


Sim, esse texto faz apologia à violência (mesmo a verbal; mesmo a filosófica***), ao tanto que ela é capaz de comunicar que a concórdia não consegue. Gente lesa gera gente lesa.


*Meu conceito de fria e reservada é muito particular; uma mulher pode ser fria e reservada mesmo fazendo filme pornô, basta manter seu eu numa caixa separada (a caixa de Pandora. Assisti a Louise/Valentina ontem, por sinal).
**Isso é totalmente diferente do patético pitboy, que arruma confusão pra se promover e porque sabe que o papai vai dar um jeito pra ele.
***Aniquilar alguém com argumentos; ownar.

17.1.10

Revisores e revisores

Eu adoro revisores. Sou namorada de um, grande amiga de outra, ambos excelentes profissionais. Talvez até por isso eu tenha aprendido a identificar amadores.
Tenho a estranha mania de achar que uma pessoa que é paga pelo seu serviço deve executá-lo da forma mais competente possível ou então mudar de ramo - e isso se aplica do sucateiro ao presidente. Mas sei que errar é humano. Eu mesma vivo falhando nos meus textos, senão não valorizaria tanto um bom revisor - mais de uma vez eles salvaram a minha vida*. O que eu chamo de amadorismo são erros sistemáticos cometidos por falta de empenho ou vocação.

O revisor que quer mostrar serviço

Muito comum. Ele pega um livro que já teve uma tradução ou redação cuidadosa e, para justificar a despesa que gera, muda seis por meia dúzia. Ou pelo menos é o que ele acha. Sei de tradutores que têm por norma nem abrir o livro depois de impresso, com pavor das desfigurações textuais certamente cometidas por um revisor proativo. Seria até estratégico para o autor ou tradutor deixar uns errinhos mais crassos para ele ter como justificar seu serviço, mas caramba...

O revisor sabotador

Além de não encontrar os seus erros, este insere erros que não estavam lá e não usa marcas de revisão, para você ficar bem perdida e ter que pagar outro revisor do próprio bolso.
Por exemplo, se você diz que certa personagem "está deitada no ar condicionado", ele tascará sorrateiramente um hífen entre ar e condicionado, passando a impressão de que a doidinha está deitada em cima do aparelho refrigerador, e não num ambiente refrigerado; e de que o revisor, por falha humana, apenas deixou passar aquele erro do burro do autor.

O revisor rolo compressor

Este tem a mania de aplainar a linguagem literária como se estivesse corrigindo um manual ou contrato. O rolo compressor sempre forçará a grafia mais comum assinalada no seu dicionário: acalento em vez de acalanto, quatorze em vez de catorze, incontinente em vez de incontinênti. Aí "Fulano começa o serviço incontinente" - e nem estava usando fralda geriátrica naquele dia, coitado.
Você também fica proibido de ser informal, repetir termos, inventá-los ou usar regências tiradas da cartola. Se você quer deixar o leitor encucado com uma relação de parentesco até o meio de um conto, o nervoso rolo compressor revelará esse parentesco, através de um aposto, logo no primeiro ato. Porque assim fica mais claro.
E de fato fica mais claro. Depois desse banho de convencionalismo, o texto resulta hipertransparente como um contrato de manutenção de polias. Ele não faz strip-tease nem pole dance: já entra nu e andando que nem pata choca.
Imagino se isso terá alguma relação com as vendagens de livros no Brasil.



Não basta saber português para revisar. É preciso bom senso e atenção. E para a revisão literária, é preciso também noção, ouvido e sensibilidade.

Isso, friso bem, é diferente de brigar com um revisor que entendeu o que você queria fazer, mas acha que tal construção exprime melhor a ideia X, e você discorda. Dessas brigas eu às vezes saio vitoriosa, às vezes derrotada, mas sempre enriquecida (em XP points).

Nem vou entrar na psicologia disso - se o serviço é mal-executado em vingança pela má remuneração, por exemplo. Eu sou escritora, gente, e nenhum dos meus pais é banqueiro. Nem por isso me vingo no leitor ou no editor.



* Como a vez em que eu escrevi que havia um úmero dentro do ventre de Maria Luiza. O revisor, JP, me salvou de escrever ficção científica involuntária.
**Devo um muito obrigada ao JP por me ajudar com esse post. E feliz 9 anos pra nóis!

14.1.10

Clarice Lispector

Um diálogo que dificilmente se tem comigo é aquele começado por "porque você está assim?". Eu digo logo o que me incomoda tão claramente quanto possível. Diria até que sou boa nisso. Não suporto drama e tento jogar limpo. Me esforço para me afastar da savana. Só perco as estribeiras quando vejo que a outra parte não está jogando limpo como eu - aí a savana estará bem pertinho, meu amigo.

Há mulheres capazes de tudo por um pouco de emoção à moda delas. Fazer chantagem emocional ("eu sou feeeia"), flertar e depois chamar o pretendente fisgado de louco, armar planos mirabolantes por um momento de inveja alheia, ficar num canto fazendo beicinho até alguém lhes dar atenção. Oh, será por que somos o sexo frágil e só nos restaram as armas mentais? Nesse caso, pra mim tudo isso podia desaparecer na evolução junto com o dedo mindinho.

Só para deixar claro porque não me identifico com muita personagem e ícone feminino por aí. Também não me resguardo numa imagem de intelectual séria e cheia de certezas que ninguém pode abalar. Acho as duas coisas igualmente chatas. Gosto das minhas descobertas e gosto de ser meio pateta. Gosto também de ficar na minha, o que quem não gosta de ficar na sua não tolera (ô, desde o jardim de infância). Não nasci para líder de nada, mas queria ter mais modelos femininos menos intensos, tipo a Selma Blair.

a Selma Blair

2.1.10

gogó

Não sou mais cristã faz um tempo, e foi surpreendentemente fácil abandonar certas crenças dessa época - as que, para mim, nunca fizeram sentido. Para o cristianismo, você não deve ser orgulhoso e sim humilde; mas como também mandam você desenvolver discernimento e não ser hipócrita, bem, aí fica complicado.
Vamos dizer que você pinte bem. Você tem que diferenciar o bom do ruim com seu discernimento, mas se você criticar quem pinta mal (mesmo em pensamento), está sendo orgulhoso; se falar bem dele sabendo que é ruim (mesmo em pensamento), estará sendo hipócrita. O certo cristão seria, com o discernimento, reconhecer de coração que pintar bem não vale nada, porque o reino dos céus é que é tudo; mas, aí, quem teria motivos para sequer comprar pincel e tinta?
É basicamente por isso que cristianismo não deu certo para mim. Se você aceita os dogmas, vira um esquema consagrado e fechado, praticamente sem furos, mas que conduz à inércia nesse mundo pelo pensamento fixo no próximo - se você praticar direito. Na prática, muitos cristãos incorrem em orgulhos secretos encobertos por hipocrisias. Não-cristãos também, já que está arraigado na nossa cultura que orgulho é feio.
Acho mais honesto assumir que tenho orgulho quando tenho orgulho e pronto.

Dito isso, admito que o orgulho ainda me incomoda. Ele me incomoda principalmente quando impede a pessoa de ter a dimensão real do seu talento e de trabalhar para aumentá-lo sempre. O orgulho faz essas pessoas perderem tempo vedando as juntas de um escudo anti-críticas e até - putz - fazendo intriga contra outras que as ameacem por terem mais talento.
Ter orgulho da coisa certa é importante - aí entra o discernimento. Não dá para eu ter orgulho do meu talento de webdesigner, por exemplo. De fato, se alguém com talento quisesse me ajudar com isso, seria ótimo.
Outra coisa: acho chata toda essa cultura de vanglória. Todos esses rappers cujo único assunto é se vangloriar o tempo todo. Quando um hip-hop faz sucesso, é porque o público pensou: uau, como ele é foda em dizer que é foda! sem nem averiguar se procede, e muito menos questionar a qualidade dessa vitória cantada. Profecia auto-realizável, aliás, porque assim vem a fama, e o dinheiro, e as cachorras. E as mulheres que se vangloriam de quem tem/faz mais drama? Ai, que saco. Alguém estoura essa bolha.

21.12.09

Os pais não querem traumatizar os filhos dizendo não (ou não querem ter esse trabalho) ou impondo restrições - por exemplo, andai pelo shopping e verás pais distraídos batendo papo enquanto crianças barbarizam no degrau seguinte da escada rolante. Isso sempre existiu, mas antigamente, quando a mãe se dava conta, puxava a criança pela camisa para perto, morrendo de vergonha; hoje, você tem que reclamar para a mãe te dirigir um olhar de supremo desdém e continuar a conversa com a outra mãe - ou dizer casualmente "Pára, Paulinho" (sem ser ouvida nem obedecida), ou ainda "eu, hein, eles não tão fazendo nada".
Acho que estamos nos tornando um mundo de bananas, onde ninguém quer punir porque não tem colhões pra admitir que é capaz de fazer sofrer, e nem que frustração forma o caráter. Mas essa pirralhada sem limites cresce, e aí (depois de um ambiente escolar infernal) temos uma sociedade sem contrato, onde as pessoas fazem burradas primárias umas contra as outras e ninguém as pune por isso - e nem mesmo se afasta delas por isso. Mas em situações de confronto, um adulto babaquinha acaba ferindo outro adulto babaquinha onde dói. Resultado: os traumas são vividos com maior intensidade, só que na idade adulta. Aí o mundo da pessoa desaba e talvez alguém receite remedinhos para ela se sentir melhor. Tenho visto cada vez mais isso.

Comentário feito a isso aqui, aumentado para ficar com tamanho de post.

8.12.09

creeps me out

Sabe o que me dá arrepios? Sambas que antropomorfizam o samba - aqueles que fazem o ouvinte pensar no samba como uma pessoa. Por exemplo:
"Eu sou o samba/Sou natural aqui do Rio de Janeiro"
(em primeira pessoa!)
ou
"Quem nasce lá na Vila/Nem sequer vacila/Ao abraçar o samba"
ou
"É que o samba chegou agora"
ou
"Não deixa o samba morrer"
ou
"Disseram que o samba se perdeu/Onde será que ele está?"

Mas o campeão de creepiness é com certeza
"O samba ainda vai nascer/O samba ainda não chegou"
Como assim, um samba sobre a presente inexistência do samba? Lemniscata, dude.
Me dá um medo. Serinho. Como se não bastasse, quase todos eles (e outros) falam de uma tristeza enorme a reboque dessa tal pessoa-samba.
Felizmente, Rogério Skylab compartilha da minha estranheza, senão não teria criado essas duas pérolas:
"Não deixa não, o samba morrer/O samba chegou/o samba é você."
e
"O samba é totalmente nerd."

Com tudo isso, não faço a mínima questão e conhecer essa pessoa, seja lá quem ela realmente for.

3.12.09

"Quero coisas impossíveis, como toda mulher" (Dahmer)

A sorte de ser anormal é que você não passa pelas fases chatas de ideal masculino por que a maioria das meninas passa. Se apaixonar pelo amigo magro e sem pêlos que não intimida; depois pelo amigo gay, com ou sem pêlos; professor, homem mais velho, intelectual (yawn); na hora da revisão existencial, um framenguista doente ou fetichista; depois, já balzaquiana/quarentona, os novinhos. E variações em torno disso.
Sendo anormal você sabe exatamente o que quer, sempre soube, só que não existe. Você quer o impossível. Você quer um viking intelectual.
Até que, um belo dia, existe. E você fica achando: ecce homo, para quê o resto? Ficcionalmente falando acho muito chato, mas é bom de viver. Mão na roda.

Quando li Iracema, entendi a menina. Eu também era uma espécie de virgem vestal com prazo de validade e gosto exótico.

25.11.09

Emília

O personagem moralmente reprovável, mas irresistível, é um recurso usado pela literatura do mundo todo, mas no Brasil ele vira uma pedra angular. Basta pensar em Nelson Rodrigues - que, pelo óbvio ululante, nem vou desenvolver - e em Monteiro Lobato. De que seria sua obra infantil sem Emília? E, no entanto, é uma bonequinha egoísta, ambiciosa, arrivista, preconceituosa, orgulhosa etc. etc. etc. "São esses os valores que queremos ensinar aos nossos filhos?" Vocês eu não sei, mas eu não encaro livro só como exemplo direto de comportamento; pode ser só ficção, gostoso de ler; pode ser anti-exemplo; pode ser que a criança imite a Emília um tempo, nos aspectos bonitinhos. Mas não é só isso: Emília é eminentemente brasileira, só que sem hipocrisia.
Isso funciona como a violência catártica dos contos de fada: viver aquilo por procuração conta como experiência. Vendo o mal sem disfarces, a criança aprende a distinguir suas formas mais tênues, hoje tão em voga. Proibir qualquer coisa que remotamente cheire a mal parece com superproteção, mas na verdade desprotege a criança contra um mundo cheio dele, e, se ela nasceu com um talento especial para o mal, certamente isso não impedirá que ela o aproveite. Hoje em dia as pessoas não são mais reprimidas - também acho desnecessário desenvolver -, ou melhor, só se reprimem quando acham que vai pegar mal. As pessoas também não se manifestam/defendem/apartam dos linchadores de inocentes ao verem algo reprovável só porque têm medo de serem excluídas. Oras, até pela bunda-molice onipresente, ninguém vai ter peito pra te excluir só porque você falou a verdade. É capaz até de começarem a gostar de você. Vai fundo!
Isso aprendi com a Emília e o JP.
Ah, a propósito: carioca É porco.