4.3.13

Dicas para a empresa moderna

Nessa era das redes sociais, vemos muitas empresas tentarem passar por descontraídas e meterem totalmente os pés pelas mãos. Isso pode acontecer em blogs de empresas, posts pagos, páginas de Facebook, anúncios para TV, ações publicitárias etc. etc. Se você é uma empresa, não se desespere. No melhor estilo post de blog empresarial, seguem dicas para evitar gafes, de uma pessoa física para uma jurídica, com muito amor.

1- Conselho: não dê conselhos.
Canso de ver blogs de empresas tentando se fazer de amiguinho do consumidor, dando conselhos, enfim, prescrevendo. Não tem coisa pior do que ver uma empresa fazer a íntima. Ainda que você, empresa, venda vibradores ou bolsas de colostomia. Aliás, aí mesmo é que você tem que se segurar e ir com calma na intimidade.

2- Não seja pão-dura. Muitos podem confundir sua pão-durice com insensibilidade!
"Poxa, eu tava só querendo estufar um pseudo-blog com pseudo-conteúdo pra vender meus produtos e incumbi meu estagiário aspirante a humorista de escrever alguma coisa... E agora a empresa está sendo injustamente xingada de machista, homofóbica e racista no Facebook -- só porque confiei cegamente na pessoa errada. Muito injusto!"
Isso também vale para "parcerias" com blogueiros que não dominam o português. Aliás, "parceria" quase sempre quer dizer que uma das partes não está recebendo nada por isso. Muitas vezes, merecidamente.

3- Não superproteja sua marca. Consumidores detestam isso!
A empresa age num esquema "Falou mal, tomou processo?" Ou vai contatar insistentemente a pessoa até tirar do ar? Todos sabem que isso é ridículo, pessoa jurídica. Comporte-se e fique na sua.

4- Não finja ser o que não é. Seja você mesma!
A empresa tem que se valorizar. Os consumidores é que têm que correr atrás dela e gostar dela como ela é.  Tudo bem que uma pessoa jurídica é naturalmente um pouco esquizo, mas pelo menos no primeiro encontro, disfarça, né?

5- Seja agressiva! Seja pitbull!
Cumplicidade não se finge, se conquista! Você não vai ganhar nenhum cliente ficando aí parada! Mexa-se! ÂNIMO! E tem mais: se alguém falar mal de sua marca, ponha a boca no mundo! Ninguém vai respeitar uma empresa que reage feito uma mosca-morta. Se preciso for, coloque aqueles folgados do departamento jurídico pra trabalhar um pouco -- se é que a empresa me entende. ;-)

6- Seja consistente!
Não adianta falar uma coisa para depois falar outra. Isso é coisa de gente louca e ninguém quer ficar perto dessa gente. Sugerimos escolher uma de suas personalidades e ficar com ela. Ao menos por um tempo.

7- Não use de tom condescendente com seus consumidores. Eles ficam irritados.
Muitas vezes, você usar de um discurso que explica a situação toda de forma tatibitati faz o seu consumidor um pouquinho mais inteligente ficar irritado. Por exemplo, talvez você tenha contratado postagens por número de caracteres, e isso motiva o escritor a enrolar, escrevendo de uma forma demasiadamente explicativa e adverbial. Outra coisa que pega mal é recorrer ao argumento do "senso comum" para esmigalhar a individualidade de seu consumidor -- dizer que "todos sabem", por exemplo. Também não se deve usar de argumentos circulares: dizem que brincar muito disso faz o cérebro vazar pela orelha. E quem não tem cérebro não pode lembrar da senha do cartão de crédito! ;-)


Será que a empresa ficou com a impressão de que eu não quis realmente ajudar, e sim tripudiar por todas as vezes em que vi um post ou anúncio supostamente direcionado para minha "faixa demográfica" me ofender descaradamente, seja em tom, na forma ou no conteúdo? Pois foi isso mesmo.


P.S.: Amiga da coluna lembrou de uma bem importante, empresa: Se você ou o estagiário pisar na bola não adianta ir correndo apagar o post e bloquear todos os comentários, isso só vai irritar os seus consumidores mais ainda; também não adianta dizer que o conteúdo não é seu e foi apenas compartilhado. Seja grande, seja honesto e não tenha medo de pedir desculpas e assumir o erro.

14.10.12

Para os menores de 18 anos

Se você não tem idade para ler o OWNED - Um novo jogador, pode ler os livros-jogos infanto-juvenis que deram origem a ele. Eu os li quando era criança e achava divertidíssimos. Livros-jogos são livros de aventura que oferecem escolhas ao leitor e têm vários finais diferentes. Os links abaixo apontam para a central de sebos Estante Virtual, onde você pode adquiri-los baratinhos:

Série Enrola e desenrola
Série Aventuras fantásticas

Caso prefira edições mais recentes, e não do fim dos anos 80, a editora Jambô republicou alguns livros da série Aventuras Fantásticas em português.


Tive a ideia de fazer essa indicação por causa de algo que aconteceu hoje depois da palestra no CCBB. Uma menininha parou do meu lado e perguntou:
-- O seu livro-jogo é para a minha idade?
-- É pra maiores de 18 anos. Você tem quantos anos?
-- Oito anos.
-- Então, se você tivesse uns 15, já dava para ler. Pelo jeito, vai ter que esperar. É sobre videogame... eu também adoro videogame, desde que tinha a sua idade. Você ia gostar. Guarda pra depois.
Lembrei dela na plateia: ela passou a palestra inteira jogando num Nintendo DS (era Tetris). A mãe disse que ela só levantou os olhos do DS quando falei em livro-jogo durante a palestra. Gente, chorei.

P.S. Como me sinto quando uma menininha gamer fala comigo depois da palestra:

20.8.12

Gratuidade

Muitas bibliotecas possuem pelo menos um exemplar impresso de OWNED - o novo jogador. Para ler o seu, baixe a lista de bibliotecas onde ele está disponível (em formato Excel). A versão online, como sempre, continua disponível em novojogador.com.br

12.8.12

História do cabelo ou Dark & Long

*Aviso: Este texto parte do pressuposto de que cabelo é poder.*

As heroínas da era dos videogames 2D podiam ter cabelos longos, bastos e soltos. Ou melhor, era quase um requisito. Afinal, a maioria delas era um monte de pixels e/ou tinha pouca necessidade de animação.



Samus Aran (em Metroid, 1986). Jill of the Jungle (1992).

Mas cresci mesmo foi na era dos adventures, jogos com muito humor, muita história e muitos puzzles. As heroínas de adventures tinham cabelos maravilhosos. Na maioria, cabelos encaracolados. Severamente encaracolados.

Zanthia, de Kyrandia: Hand of Fate (1994) e Elaine, de Monkey Island (1990)

Mas isso durou até mais ou menos 1994. Aí veio o que pode ser tachado de Era 3D. Uma época com muito mais ação, onde os personagens tinham que ser visíveis por todos os lados.
Só que em 1994 os PCs domésticos tinham o vídeo tosco e o processador lerdo. Esse mundo 3D precário teve que usar polígonos - faces de pequenos sólidos virtuais, uns emendados nos outros - para delinear os corpos ao redor dos quais deveria rodar a "câmera".
A questão é que cabelos não ficavam nada bons em polígonos. Polígonos não dão ao cabelo aquilo que os comerciais de xampu chamam de movimento.

Em Tomb Raider 1 (1996), por exemplo, a heroína usava uma espécie de coque amarrado com barbante. Bem fácil de animar. Nem balançar balançava. Feioso... mas prático. Provavelmente, seria a minha escolha se eu me metesse a arrombar tumbas na vida real. Ha.
No Tomb Raider 2, esse coque foi substituído pela famosa trança. Esta sim balançava conforme Lara corria, nadava, pulava. Ainda assim, era uma trança constituída de um monte de polígonos. De qualquer modo, a atenção dos animadores nunca esteve dedicada a este grupo de polígonos, entende.







Entende?

Quando refizeram a Elaine de Monkey Island para a Era 3D, estilizaram o cabelo dela. Ficou um negócio duro, que não fluía. Tudo por causa dos malditos polígonos, que não trabalham com cabelos longos, muito menos encaracolados.





Mas o tempo passou, e a tecnologia deu outra virada.
Estava eu jogando a mais recente versão do Prince of Persia (de 2008), e notei que estavam animando alguns inimigos com vetores ao invés de polígonos.
Eu imediatamente pensei: podiam fazer disso cabelo.
Dito e feito, alguém foi lá e fez isso.


Bayonetta (2010) é um jogo completamente insano onde você é a personagem-título, uma bruxa que tanto se veste como ataca com o cabelo (a conveniente consequência disso é peladismo na hora do fatality). Não só com o cabelo; ela tem todo tipo de ataques divertidíssimos, com armas as mais variadas. Em Bayonetta, afinal, o cabelo virou uma espécie de protagonista do jogo, ao que sou toda aplausos.

Enfim, animação vetorial: uma solução para o problema do movimento. Mas e quanto a cabelo encaracolado? Bem, a cabeleira ruiva da Merida, da animação Valente (2012), é muito bem animada no filme, mas completamente parada nos videogames inspirados nele. Fiquei tristíssima; ainda não chegou o revival dos caracóis nos games. Mas aguardo e confio.

8.8.12

Outro vídeo falando sobre OWNED



Palestra que dei em fevereiro junto ao Carlos Klimick e ao Oswaldo Lopes Jr. Falamos sobre RPG, livro-jogo e seu nexo com a educação (e eu expliquei cruamente sobre o que era o meu "OWNED - um novo jogador").

Oficializando

Quem estiver a fim de comprar a versão impressa de "OWNED - um novo jogador" pode comprar da autora por R$ 30,00 (frete incluído). Por este valor você recebe o livro autografado em casa! Basta mandar um email para simonecampos@gmail.com para os dados do depósito. Grata!

6.8.12

Que vibe

Minha escola era o máximo. Tivemos um professor nissei de informática que deu o básico do BASIC na 2a série do fundamental; na falta dele, deixavam a gente ficar jogando videogames sob a vaga desculpa de "aprender inglês" e tudo isso consistia em um tempo de aula pós-recreio de pura diversão. Ou talvez não apenas diversão: o craque em construir cidades funcionais no SimCity, Rodrigo Mandarino, mais tarde concluiu arquitetura na UFRJ com média 10 e hoje trabalha em um escritório famoso.
Quando tínhamos 12 anos (6a série), fomos instados a fazer campanhas - sim, nós mesmos tínhamos de criar e implementar, valendo nota - sobre cigarro, sexo, álcool, drogas, reciclagem, ecologia... Lembro do esquete antifumo que escrevi: cinco adolescentes estavam sentados à mesa depois de uma refeição, fumando "cigarros" (canudos de papel cheios de talco; havia que se soprar para fora; uma das integrantes se esqueceu disso e tragou o talco, com resultados previsíveis). Entrava eu com uma túnica de bruxa de Halloweens passados, a balaclava ("touca ninja") de lã da minha avó e um cabo de vassoura com uma foice de papel prateado e ceifava todo mundo. Os fumantes tombavam sobre a mesa, um por ceifada. Para arrematar, eu pegava um dos cigarros de talco e tirava uma bela baforada. Havia falas engraçadinhas, mas não me lembro mais delas.
Escrevi também a versão de Pipoca (da Xuxa) e do jingle de guaraná que adaptei para, em vez de exaltarem as virtudes da pi-po-ca, falarem mal de ci-gar-ro. Nessa mesma ocasião, cantei ambas a capella num microfone.
Nada disso foi filmado e, se existissem celulares com câmera naquela época (1995), eu certamente não teria tal desenvoltura. E nenhuma dessas palhaçadas impediu meus colegas já fumantes de perguntar se eu não tinha algum cigarro de verdade na minha cenografia improvisada (eu tinha, e cedi).

Minha escola era oficialmente laica. Mas quase pagã na sua ânsia de nos preparar para a vida como ela é com uma naturalidade aterrorizante. Apenas, em vez de contar fábulas sobre meninas que param para conversar com lobos, minha escola preferia nos assustar com ciência e experiência pessoal.
Foi nessa vibe que aconteceu a melhor e pior palestra escolar de todos os tempos. Fomos convocados sem aviso certo dia. Entramos no auditório e anunciaram que receberíamos ex-alcoólatras do AA.
Primeiro a diretora e a coordenadora falaram algumas palavras-padrão sobre os males do fumo e do álcool. Como o álcool era droga e era perigosa e viciava, mesmo sendo legalizada. Que a pessoa viciada em álcool já não consegue funcionar sem álcool; isso se chamava dependência. E, quando tentava parar, não conseguia. Ficava tremendo.
Então entrou outra pessoa, do AA, para explicar um pouco da filosofia do AA: evitar o primeiro gole, um dia de cada vez. E que a pessoa que se torna ex-alcoólatra jamais pode pôr uma gota de álcool na boca de novo, senão entontece e volta tudo.
Aí entrou o testemunho. Era um cara bonito, grande, bronzeado de praia, uns 35 anos, louro, de cabelos amarrados num rabo de cavalo, mas o rosto dele era muito gasto, como se tivesse passado por poucas e boas. Como se tivesse desinchado, eu diria agora. Um sotaque francamente carioca zona sul. E foi isso mesmo que ele falou. Que, como nós, tinha ido a boas escolas na Zona Sul do Rio de Janeiro. Que tinha começado a beber para tomar coragem para ir falar com as meninas - e deu certo. Mas dali a pouco, ele estava bebendo pra tudo - pra estudar para a prova, pra tomar coragem pra prova, pra esquecer os problemas -, e em quantidades cada vez maiores.
O homem olhava do palco para a plateia e via: a maioria dos alunos admitindo estar impressionada, outros tentando olhar pro colega com risinhos e exorcizar o medo que aquela história estava dando. Vendo essa reação mista, ele começou a falar MUITO alto no microfone, e a piscar muito para evitar as lágrimas. Ele tinha que atingir os outros, os candidatos a rebeldes.
Ninguém, nem da família dele, tinha falado dos perigos do álcool pra ele. "Até incentivavam" - claro, coisa de macho, de homem de verdade. Logo eram quinze chopes para ele começar a se sentir bêbado. Ele precisava beber cada vez mais. A toda hora. Na faculdade. No emprego. Para levantar de manhã. Até que começou a perder tudo. Emprego primeiro. Depois, amigos.
Nesse ponto - gritava ele - ele já não conseguia mais parar! Estava VICIADO EM ÁLCOOL!
(E a criançada agora transfixada, olhos pregados nele. A coordenadora e a diretora nervosíssimas, agarrando disfarçadamente as pontas bege das cadeiras.)
"Minha família me abandonou! Tentei frequentar um psicólogo, mas logo eu voltava a beber. Depois eu tentei buscar ajuda na religião. A Igreja Católica não me curou. Tentei de tudo! umbanda! espiritismo kardecista...! bati até a porta da Igreja Universal!" -- e aqui, todos os meus colegas viraram as cabeças para mim, que sabiam ser da Igreja Universal; balbuciei alguma coisa, ninguém ouviu -- "Mas não deu certo! Não deu certo!! Nada adiantou! Só os Alcoólicos Anônimos. Seguindo os doze passos..."
Na Igreja Universal eu vivia ouvindo testemunhos no altar, alguns de ex-alcoólatras. Mas eram relatos hesitantes, molengos - história mal narrada, protagonistas pouco convencidos do valor dela. O sujeito no palco estava desesperado para passar a mensagem. Ele tinha visto o inferno. Ele não estava representando. Não queria agradar ninguém fazendo aquilo. A gente era como uma volta ao passado para ele, a encarnação de sua juventude perdida por falta de alerta. Bem, que não fosse por falta de alerta.
Achei que iam ter que tirar ele dali à força. Mas, se bem me lembro, pouco depois ele fechou o discurso apropriadamente ("estou sóbrio há um ano e meio") e foi muito aplaudido.

Creio que uma grande limitação da educação religiosa é achar que pega mal para crianças inocentes saberem esse tipo de coisa. Escola, igreja e família religiosas muitas vezes fingem que podem manter as crianças no escuro, em vez de se colocarem como fonte de informação confiável e útil sobre drogas e sexo. É preciso não esconder a parte boa e não esconder a parte ruim. Não vai evitar que a pessoa use drogas ou faça sexo, mas vai ajudá-la a ter expectativas realistas quanto a essas experiências, e a ser madura o suficiente para identificar um jeito responsável de passar por elas (e desfrutá-las, se for o caso).

30.7.12

Suicídio e empatia

Inúmeros intelectuais foram e continuam sendo apontados com ênfase em função do fato de terem se suicidado – vêm à mente Walter Benjamin, Sylvia Plath, David Foster Wallace, Yukio Mishima, Virginia Woolf. No entanto, o apontar do suicídio como “promessa” de uma vida-obra comprometida contra a opressão – ou de uma mente sensível e frágil demais para viver em uma sociedade naturalmente opressora –, pode acabar virando um mecanismo viciante.
O ser humano é atraído como abutre pela morte trágica pois pode despejar sobre ela sua compreensão e empatia – muitas vezes de forma um tanto automática, numa espécie de fetiche mórbido. O mecanismo aqui é se autoarrolar como Boa Pessoa por ter tido empatia para com a Boa Pessoa que, oprimida, se suicidou. No entanto, nada é tão simples assim. Essa empatia partiu de dois pressupostos que podem facilmente ser desconstruídos – não por maldade, mas com vistas a uma reflexão. O suicídio não é um selo de garantia de que o suicida era uma Boa Pessoa, e sentir piedade é um sentimento tão natural para a maioria dos humanos (excluídos psicopatas, esquizoides e outros portadores de transtornos mentais) que senti-la só acarreta, no máximo, o status de Pessoa Normal.
Esse mecanismo pode servir para colocar eternamente em segundo plano duas coisas muito importantes: 1) pessoas cujas vidas não foram tão trágicas, mas nem por isso menos significativas e 2) as particularidades do gesto pessoal de cada suicida, roubando-lhes o direito de serem únicos em suas mortes (e de terem seus motivos individuais para buscá-las).
Corre-se, a meu ver, o risco de viciarmos no mecanismo visão da vítima/empatia padrão/narcisismo dos próprios sentimentos a ponto de construirmos uma história só de vítimas indiscutíveis, com motivos tão monolíticos (opressão externa/loucura interna) quanto a grande narrativa histórica ocidental, anulando com isso não só as vítimas óbvias como também outras vítimas. Desejo, portanto, empreender um esforço para uma história de vítimas menos óbvias de opressões menos óbvias, associando suas vidas à arte que construíram.

(Trecho de um trabalho de mestrado sobre Walter Benjamin com o qual finalmente estou satisfeita. Adaptei, é claro - duas frases a menos. No resto do trabalho usei Benjamin no próprio Benjamin, escovei-o a contrapelo, associando-o a três escritores que viveram depois dele - e que não se suicidaram.)

19.7.12

Linguagem privada

Hoje sonhei que encontrava meu amigo imaginário de infância, o Iogurpo. Também é um nome que existe só no meu sonho, e creio que a palavra era uma mistura de Igor (um amigo real) com Iogurte. Outra coisa é que eu só encontrava esse amigo imaginário no sonho, jamais delirei que ele existisse de verdade.
Sempre tive esses termos particulares e estrambólicos no meus sonhos. Meus sonhos tinham um sistema de saúde próprio, chamado PENUMB, depois alterado para FUNEST (mas só no nome, era a mesma coisa). Já contei essa história em outro post.
Iogurpo não falou comigo no sonho de hoje. Ele e sua irmãzinha estranha eram paranormais, e tinham roubado o corpo adulto dos meus amigos reais (e atuais) para poder sair pelo mundo, em vez de prisioneiros na casinha de interior de uma velha. Eu pedia meus amigos reais de volta aos paranormais, chamando-os pelos nomes que a velha tinha dado (algo como "João" e "Maria"), e "Maria" me corrigia, dizendo que na verdade ela e o seu irmão se chamavam Iogurpo e...
-- IOGURPO! -- exclamei. -- Aquele nome que só existia nos meus sonhos quando eu era criança!
Acordei imediatamente, é claro. Meus sonhos também estão cheios desses momentos semilúcidos em que eu faço referência ao mundo real, estilhaçando a ilusão.
E o sonho de hoje serviu para sublinhar: tenho sonhos lúcidos há tanto tempo que tenho uma espécie de consciência histórica deles, regurgitando a história que andou acontecendo aqui fora (então os termos não formam uma linguagem privada realmente; o título é brincadeira). O PENUMB mudou para FUNEST quando o INAMPS passou a ser INSS, por exemplo.
Além disso, não só são sonhos lúcidos, como lembrados ao acordar em detalhes. Isso dá uma nostalgia em várias camadas: a lembrança da lembrança do sonho ao acordar, e a confusão de ter inventado o nome Iogurpo de mim para mim, e a estranheza de ter reencontrado uma pessoa que eu não sabia se existia fora da minha cabecinha de, então, 4 ou 5 anos -- tudo isso volta. Vem a saudade dessa pessoa imaginária, da pessoinha real que eu era, e desses sonhos, e dessas sensações.
Se eu não tivesse atribuído nomes a essas "pessoas" e "instituições" de sonho, seria muito difícil lembrar de tudo isso. O mais bizarro é ter feito isso enquanto sonhava, e não aqui fora, e ter escolhido nomes sonoros e exclusivos, que dificilmente existiriam aqui fora.

25.4.12

A espiral do barulho


Quem mandou cursar Comunicação Social? Sempre que tento fazer concursos (e tento), acabo tendo que revisar coisas como a Espiral do Silêncio de Noelle Neumann. (Para quem estiver com preguiça de ler a Wikipédia, o ponto-chave é de que "quanto mais uma opinião for dominada dentro de um universo social, maior será a tendência de que ela não seja manifestada".) Pelo menos isso me dá algum respaldo na hora de palpitar sobre fenômenos sociais.
Tenho ouvido amigos tão díspares reclamarem tanto de opiniões divergentes serialmente expostas na timeline de redes sociais que há tempos penso em escrever algo a respeito. Hoje consegui um tempo. E estou sem sono.

timeline popularizada pelo Twitter e pelo Facebook, mais os estímulos dos mesmos para cada usuário se expressar ininterruptamente ("o que você está fazendo?" "o que você está pensando?" "e agora?"), causaram essa situação paradoxal: você é instado frequentemente a afirmar sua identidade postando coisas, mas não suporta ver tanta gente postando afiliações tão diferentes das suas. Gente que você chama de amiga, mas sabe como é. Antigamente eles ficavam mais quietos. Não gritavam a diferença na sua cara o tempo todo.
Para o brasileiro, tão amigo de redes sociais e de cordialidade, isso é algo terrível. Com a cultura da cordialidade, todo brasileiro tem vários conhecidos que chama de amigos, trata como tal, mas no fundo não têm muito a ver com ele. Outra categoria explosiva, até mais, é a de amigos que têm muito a ver com ele, mas discordam em algum ponto fundamental.
Bem. Seu conhecido-amigo vai postar coisas que para ele, reafirmam a sua identidade. Se a identidade dele, na cabeça dele, estiver ligada à causa X, no silêncio do quarto de cada um de seus amigos online suas postagens soarão como recriminações pessoais (caso o amigo discorde) ou louros do reconhecimento (caso concorde). Os concordantes vão fortalecer a auto-estima do sujeito com polegares e estrelinhas virtuais. Mas vamos pressupor, por diversão, que você discorde dele. Seu amigo-de-consideração seguirá frenético e impávido repetindo que o jeito X é o jeito bom de se ser. Você não é do jeito X. Você não sente a menor vontade de ser do jeito X. Ele está (te) metralhando argumentos que (te) dizem como a pessoa que não acredita na causa X (você) é imbecil, idiota, desumana etc.
O que você faz?
a) Oculta as atualizações da pessoa.
b) Continua lendo como você não presta.
Pois é.
Mas qualquer pessoa decente pensa-se chauvinista ao silenciar vozes dissonantes assim tão automaticamente (esse, pelo menos, é o meu jeitinho X de pensar). E volta atrás. Até porque seu amigo-de-rede-social pode conviver com você na realidade, e pode perceber que você não tem recebido as atualizações dele. Você toma também a decisão cordial de ficar virtualmente calado - não comentar nas postagens engajadas para não irar todos os partidários da mesma causa que curtiram aquele conteúdo (porque eles se iram. E muito. E, muitas vezes, desproporcionalmente, ou sem ler direito o que você falou, o que pode ser engraçado e trágico ao mesmo tempo. Been there, done that.).

Aí você é deixado com um monte de gente te dizendo no conforto do seu lar que você é imbecil, idiota e desumano de várias maneiras, ângulos e posições diferentes. OK. Mas não acaba aí. Pois o partidário da causa X posta que os partidários da causa ligeiramente diferente X' não são tão bons quanto ele. Os partidários da causa X', querendo reafirmar suas identidades, entram na postagem da causa X e nas de seus amigos e começam a bradar que não é nada daquilo. Outros defensores de X aparecem para retrucar, uns mais educados e sensatos, outros menos; surgem os comentaristas das causas Y e Z, e a briga se desdobra em múltiplas direções. Partidários de X', Y e Z fazem suas próprias postagens - muitas vezes, venenosas indiretinhas* -, reafirmando suas identidades X', Y e Z, e dizendo como todos os X são chauvinistas - e linkando para a prova. Daqui a pouco, você está com a mão na boca olhando para a timeline e se perguntando como ela virou uma pizza portuguesa**.
Essa, meus amigos, é a Espiral do Barulho: todo mundo grita com você e entre si suas opiniões minoritárias. Você assiste. Engraçado que, quando todo mundo concorda em bater num mesmo alvo, a velha espiral do silêncio continua funcionando direitinho - você tem direito a expressar sua opinião, apenas não sua opinião CONTRÁRIA A ALGO. Mesmo que você demonstre querer se abrir e se deixar convencer a mudar de ideia. O nível da discussão não decola. Nunca decola. Pois em todas as causas há adeptos mais e menos sérios/competentes. A medida dessa seriedade, para mim, está principalmente na atuação real desses adeptos. E a medida da maturidade está na falta de lembrança do adepto em declarar, constantemente e aos quatro ventos, que é a causa X que faz dele... E L E, aquela pessoa tão perfeita/especial/boa, em comparação com outras que não são da mesma opinião. Os adeptos menos sérios e menos maduros de cada causa afluem e inundam os canais de resposta, e você decide ficar calado. Pois são eles que ficam perdendo todo o tempo em redes sociais, reafirmando suas identidades com argumentos copiados de páginas ativistas - argumentos estes que não sabem manejar direito -, em vez de, né, sair pelo mundo afora, fazendo amizades e conquistando vitórias.
Quanto a mim, toca postar música, literatura, artes plásticas, artigos e curiosidades. Pelo menos aparentemente, coisas inofensivas - mas não destituídas de perigo e risco.

*Ah, as venenosas indiretinhas!
**Sim, a timeline tende a pizza portuguesa. Ela vem com cebola, presunto, azeitona, ovos, tomate e bacon e deve ser dividida com todos os seus amigos, e nem todos comem de tudo. Eu poderia falar em Huis-clos, mas quem escolhe seus amigos é você - e a pizza portuguesa também é uma escolha

8.4.12

Matemática - de novo

Quando estou aprendendo matemática, sou muito mais lenta que as outras pessoas. Sendo que as outras pessoas podem ser basicamente divididas em outras categorias: as que se frustram e desistem, e as que aprendem matemática matematicamente. Essa segunda categoria vai ser aquele que lê fórmulas sem precisar de uma explicação extensa do que elas significam; se ele tiver dúvidas, vai pedir ao professor a prova daquilo - em MAIS linguagem matemática -, e assim que entender a prova, vai provavelmente ficar saciado. Digo provavelmente pois haverá aqueles, nessa categoria, que vão querer construir a própria prova ou demonstrar que aquela prova está errada ou entrar em debates filosóficos de por que uma determinada prova não provatrivial*).
Mas meu caso não é nada disso. Não faço questão de provas pois geralmente não as entendo. Eu preciso de uma historinha, um enredo, um conflito. Eu aprendo matemática lentamente porque vou traduzindo cada fórmula ou passo em português (ou inglês) à medida que as explicações vão sendo dadas. Preciso literalmente escrever o que está acontecendo. Vou narrando a matemática para mim mesma. Também gosto quando matemática se mistura com história - entender o conflito que aquilo gerou, o tipo de pessoa que o descobridor da fórmula era, a tragédia pessoal de ter achado aquilo, o choque quando aquilo entrou no mundo da ciência - e com economia - duas empresas estão disputando lugar num mercado decadente, só uma pode ficar. TENSÃO! DRAMA! PAYOFFS ALTERADOS!
Quando se adentra em filosofias, os problemas me parecem ou simples ou insolúveis, mas também é divertido ouvir e acompanhar o que os outros dizem. Por exemplo, por que se diz que uma pessoa "descobriu" e não "inventou" um teorema? Será que é por que ele já estava lá? Sempre esteve lá e havia uma ideia disso, como o Novo Mundo? E onde diabos seria "lá"?
Como eu disse, simples ou insolúveis. Mas divertidos.
Tudo isso é para dizer que tirar onda de que se odeia matemática ou tratá-la como intrinsecamente prejudicial ao pensamento é uma grande bobagem. Há vários modos de se aprender e interpretar qualquer coisa. Exercer o autocontrole, lidar com a frustração inerente ao aprendizado - se sentir burro e odiar quem explica mal faz parte, aceite - e se conhecer o bastante para avaliar como absorver melhor determinada informação são as técnicas mais úteis para isso (aprender).

(P.S.: Li esse texto hoje e hoje estou panfletária.)

*Trivial, queridas pessoas de humanas, não é o nosso "trivial". É simplesmente o pior xingamento que um matemático pode fazer ao trabalho de outro (siga o link para conhecer a história).

29.1.12

Vídeos do OWNED

Alguns vídeos que fiz para divulgar o OWNED. No primeiro, eu falo um pouco com o leitor enquanto traço o fluxograma em alta velocidade:



Esta é a versão eletrônica do fluxograma, com algumas anotações explicando do que se trata:



Este é um vídeo de divulgação do patrocinador (a Petrobras) em que falo do projeto em geral:

8.12.11

"Um apartamento, para quem sempre viveu numa casa, com seus telhados acolhedores e o céu bem à mão, é um espaço abstrato, frio, apenas uma ideia de moradia: habitamos um interior sem exterior, transformados em pensamentos que sobem elevadores e percorrem corredores, cavernas e grutas geométricas, túneis elevados onde vivem pessoas desconhecidas e de onde súbitas janelas derramam fachos artificiais de luz, e do alto vemos um cenário venusiano de prédios espetados (...)"

Obrigada, Cristóvão Tezza!
(em Viagem, conto do novo Beatriz).

3.11.11

Drogas e efeitos

Uma xícara de café + corrida na esteira: surto de inspiração artística.

Duas xícaras de café + ida à biblioteca: taquicardia, paranoia.

Uma bacia de suspiros sozinha OU mar + caipivodka no meio da tarde: pressão baixa, leseira prazerosa.

Antiácido no meio da madrugada: desmaio, visões lisérgicas, suor intenso.

Fissurar o dedo em uma bola de basquete: conversa com seres de uma realidade paralela de fundo vivamente laranja.

Tirar mais de duas ampolas de sangue para exame sentada (em vez de deitada) OU retirada de soro intravenoso após 4 dias: desmaio, percepção alterada de passagem do tempo, sequência de sonhos com trama.

Verão carioca: tonteira, falta de ar, leseira não prazerosa.
Quando se é um corpo muito grande, a ideia de não ser alguma coisa (malvado, por exemplo) começa a perder o sentido. Simplesmente falta espaço de manobra suficiente para você não ser aquela coisa que já declarou não querer ser (malvado, no nosso exemplo). E você precisa se mexer, não é mesmo? Você quer coisas, não quer? Pelo simples ato de se mexer e ir atrás, você esbarra nos móveis e derruba todas as suas antigas intenções no chão.

O parágrafo acima é minha ideia de crítica ao desbaratamento do Google Reader em prol do Google+.

20.9.11

Minha primeira pichação


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A Prefeitura autorizou a construção de um prédio residencial num terreno arborizado e, há 20 anos, murado, junto a um paredão de rocha. Começou a rolar uma movimentação pseudo-ecológica, encabeçada por uma candidata a vereadora e donos de apartamentos de frente pro terreno que teriam a vista bloqueada, que pretendia impedir a construção. As manifestações incluíram pichar o muro com desenhos de árvore, frases em tinta verdinha ("Futura escola de jardinagem") e desenhos de criança, além de nomear o lugar de Bosque de Botafogo. Também foram postados cartazes oferecendo faixas e adereços de protesto para pendurar nas varandas por preços que iam de R$29,00 a R$54,00, se não me engano. Algumas pessoas compraram.
O movimento fracassou. O muro ficou sendo de ninguém, o prédio está quase pronto. Manifestei-me então também.

Um trecho para acompanhar a imagem:

"He looked at the granite. To be cut, he thought, and to be made into walls. He looked at a tree. To be split and made into rafters. He loooked at a streak of rust on the stone and thought of iron ore under the ground. To be melted and to emerge as girders against the sky." (Howard Roark em The Fountainhead, de Ayn Rand)

Gosto muito da Ayn Rand e concordo com muitas coisas que ela diz, embora ache que a iniciativa individual não resolva tudo e que as pessoas têm sim que aceitar coisas do governo desde que isso não se constitua numa relação de eterna dependência ou de troca de favores (e é sempre aí que a porca torce o rabo).

26.7.11

Por que o Laerte se veste de mulher

Paralelamente à matemática necessária ao OWNED, meu livro novo, estudei programação por diversos métodos desengonçados, nenhum dos quais consistiu em aprender uma linguagem de programação o suficiente para criar um programa de computador; mas entendi a alegria da recursão (ou recursividade) computacional. Se eu precisar te explicar "papel", posso escolher dizer que é uma "pasta fibrosa feita de árvore moída", mas primeiro tenho que ter certeza que você sabe o que é "árvore", "pasta", "fibrosa" e "moída", porque o conceito que preciso te explicar é recursivo – depende de objetos previamente definidos a cuja memória você vai recorrer. (Discute-se se todo conceito é assim, mas nem vou comprar essa briga.)

Tentei criar um livro que pudesse ser lido mais de uma vez. Isso é uma experiência comum para leitores: ler o mesmo livro de forma diferente a cada leitura. As memórias, não só de suas experiências pessoais como a da própria leitura do livro, interferem numa segunda (ou terceira ou enésima) leitura. Um livro cujo texto é materialmente diferente a cada vez, como o meu, só exacerba essa característica.

Agora vou pedir para você visualizar o yin, o princípio feminino-negativo. Negativo não como ruim, mas como lado B, passivo, receptivo. (Ok, estou começando a soar hippie demais para o meu próprio gosto, mas fiquem comigo, por favor.)

Aí voltamos a toda a história da literatura (de toda arte) e à mulher como a tela em branco em que a humanidade projeta seus desejos, metas e medos. Como expressar algo que só vive na entrelinha? Existe autoexpressão no caso do passivo?
Não vou explicar demais e estragar a experiência, mas se você é absolutamente refratário à menor revelação de enredo ou explicação de obra, é melhor pular para o último parágrafo.

A recursão é um jeito de fazer a entrelinha falar. Cada final do livro é projetado para criar uma ligeira sensação de insatisfação, o que deve fazer o leitor ir atrás de outro final. Ao ler o livro uma segunda vez, ele vai satisfazer algumas de suas dúvidas quanto ao primeiro caminho, mas vai descobrir novas insatisfações e querer tomar outros caminhos para ler ainda outro final. Quando achar que está quase entendendo do que se trata, vai tomar outra puxada de tapete: as regras subjacentes são ainda mais complexas do que pensava. E assim por diante.

Tinha uma brincadeira que eu fazia enquanto trabalhava no OWNED: "é programação orientada a mulher-objeto" (assim como o nouveau roman é "romance orientado a objetos"). No entanto, elas são o conteúdo e a razão de ser do livro. Meu André nunca é caracterizado fisicamente, e sua caracterização psicológica depende da mulher que ele corteja e das escolhas que você fez por ele. André, como narrador que é, está irremediavelmente ancorado ao próprio umbigo; nunca pode ver as moças conversando sobre ele em sua ausência, dizendo o que realmente pensam.

Ou seja, André trabalha no escuro, projetando aquilo que cada mulher deve querer dele e tentando oferecer isso (ou não). Por sua vez, cada moça forma sua própria imagem de André; a maioria delas não está irremediavelmente interessada por ele; segundo as escolhas dele, ela simplesmente não vai estar mais disponível. As mulheres que André vai encontrando ao longo de suas tentativas têm suas próprias vidas, nas quais ele se integra das mais variadas formas; às vezes como acessório, às vezes como peça fundamental, às vezes até como intruso. E apesar de estar tão ancorado ao ponto de vista do narrador quanto o próprio, o leitor que jogar suficientes vezes vai perceber que várias moças se conheciam independente de André.

Acho que as leitoras vão gostar mais do meu livro do que os leitores no sentido de que, apesar de fantasioso, ele apresenta a vida como ela é, não como deveria ser (Nelson Rodrigues, gênio). A bananização dos protagonistas masculinos de chick lit como seres incondicionalmente atrelados a uma única mulher, incapazes de acessar pornografia, achar chato um jantar romântico ou mesmo de mudar de ideia se a mulher em questão é consistentemente parva e/ou maléfica enerva a mim e a minhas amigas. Com OWNED, em vez de viver mais uma vez a angústia de não saber o que um rapaz de que gostam está pensando, como em tantos livros recentes para adolescentes e jovens adultas, as mulheres podem viver a angústia de não saber o que a mulher desejada está pensando dentro da pele do tal rapaz. É um livro em prol da compreensão mútua. Afinal, ambos os sexos têm mais é que aprender a ler nas entrelinhas e não acreditar em toda manha e eufemismo do outro (e do mesmo).

12.7.11

Seventeen

Vi numa livraria o Axolotle atropelado, de Helene Hegemann. Como axolotle é um bicho que me seduz, peguei para ver qual é e, vejam só, era um livro escrito por uma autora de apenas dezessete anos. (Eu mereço.)

Volta e meia surge a pauta da valorosa autobiografia de jovem rica rebelde. Os franceses têm a Lolita Pille (Hell Paris). Os italianos têm a Melissa Panarello (Cem escovadas antes de ir para a cama). Nós, brasileiros, temos a Maíra Dias Gomes (Fugalaça). Os americanos foram mais espertos e transformaram a deles em franquia e série de TV (Cecily Von Ziegesar, com a Gossip Girl). Agora os alemães também têm a sua.

De todos esses, só tive paciência de ler de cabo a rabo o Hell (agora onipresente no RJ naquela fotografia linda da peça). Sim, comprei o livro, gastei meu suado dinheiro com ele. Eu estava numa idade mais inocente... esperava na verdade destrinchar os critérios que a mídia usa para elogiar alguma coisa; e descobri que não havia explicação possível senão a da pauta, porque aquilo era ruim demais da conta. Quer dizer, não é denúncia nem novidade que adolescentes ricas entediadas brinquem de sexo, dorgas, roquenroll e consumismo. A linguagem não me trouxe nenhum arrebatamento ou desconforto. A história é desconjuntada. Por que, então, a mídia dá atenção a esse tipo de coisa? Por que as meninas compram e leem fascinadas? Porque é fofoca, vontade de saber da vida dos outros, de se identificar legitimando e/ou de viver por procuração. Tipo um romance de banca para a nova geração, com baboseiras ligeiramente diferentes e expectativas irreais idênticas.

Nessas autobiografias de moça rica identifico uma dicção autodeslumbrada e um forte pendor borderline. Lendo esse tipo de literatura fico com a sensação de que, se soubessem que ninguém falaria delas depois (bem ou mal), as autoras-personagens não achariam nada do que fazem tão excitante assim. Não teriam ânimo para escrever.

Mas agora vamos falar de livros bons, ok? Livros bons.

A japonesa Risa Wataya também lançou um livro aos 17 anos. Não sei da situação social dela, nem do quanto é autobiográfico. Japoneses são misteriosos. Já começa por aí.

Para ler os livros dela você tem que saber japonês, francês, alemão, italiano ou coreano. Eu falo francês. O Install ela lançou com dezessete anos. É sobre uma adolescente e um menino de dez anos que lançam um serviço de chat sexy online em que os dois fazem as garotas. L'appel du pied (algo como O chamado do pé), cujo título original é Keritai Senaka (algo como As costas que você quer chutar), é sobre uma garota que descobre que está apaixonada por um estafermo da escola quando sente impulsos irresistíveis de dar uma voadora nele pelas costas. ISSO é bom. Li ambos e de vez em quando dou uma relidinha. Recomendo.

Quanto ao axolotle: o melhor romance adolescente alemão que li nos últimos tempos não tem nada a ver com realidade - não no sentido de reproduzi-la. Também não foi escrito por uma adolescente. Se chama A menina sem qualidades (por Juli Zeh). O título nacional faz menção ao romance de Musil, mas, ao fim do romance, as notas de tradução do ótimo Backes elucidam o título original, Spieltrieb (algo como Pulsão de jogo). Com efeito, é um livro que bebe muito da teoria dos jogos, tanto no tema como na estrutura. Ada, uma adolescente "não linda" e superdotada, que se proclama filha do niilismo, encontra seu parceiro de jogo em Alev, jovem totalmente impotente que, na falta de melhor passatempo, trava uma partida de lances sucessivos em que Ada, o professor Smutek e toda a sociedade são os peões. Ada começa a ficar à vontade no mundo com a possibilidade de ter uma identidade, finalmente, nem que seja a de peão, e daí em diante os desdobramentos me surpreenderam. Smutek também é um grande personagem, representando a perplexidade de quem ainda tem uma história pra contar frente ao jogo que tomou conta de tudo.

Peguei A menina sem qualidades na livraria porque achei a capa diferente, me chamou a atenção. Depois a orelha. Depois gostei do que vi ao folhear. Depois de comprado, me deparei com teoria de jogos pelo livro todo e me apaixonei. Foi uma grande coincidência, já que estava estudando exatamente isso para escrever meu OWNED. Em suma, leiam A menina sem qualidades. Leiam ele e deixem o axolotle em paz.

6.6.11

Owned e matemática

Como preciso explicar pro meu editor o que ando fazendo, pensei em escrever um texto corrido sobre como está o trabalho com o Owned, meu livro novo. É um livro que se bifurca em mil caminhos. A cada passo você vai ter escolhas, decisões a tomar; e essas escolhas vão ter consequências. O personagem principal é um técnico de informática viciado em videogames cuja vida começa a virar um videogame. É um livro para jovens acima de 18 anos e fala sobre mulher, amor e matemática*.

No início, estudei um pouco de teoria dos jogos para tentar simular a existência de leitores como jogadores. O fato de o leitor estar jogando contra ou junto comigo seria determinado pelas próprias escolhas dele. Claro que o fato de eu determinar quais escolhas do leitor seriam possíveis cercearia a liberdade absoluta, mas eu também não tenho liberdade absoluta, senão gssmj iuoius jk kelkj sjdkfnsd tatah. Macacos batucando máquinas de escrever dificilmente escreverão Hamlet, e um pouco menos dificilmente "um" Hamlet. Então se eu estou cerceada pelas baixas probabilidades de você entender totalmente meu output cru, você também está.

Conversei com a Diana de Hollanda sobre matemática num lançamento de livro e ela me contou das aulas de lógica que andava assistindo. Conversei com o professor, Oswaldo Chateaubriand, e ele gentilmente me deixou frequentar a aula. Depois que se inteirou de como era o livro e da matemática que já havia nele (principalmente teoria dos jogos), ele me encaminhou para o estudo de lógica dialógica.

Fazendo um grande parêntesis, eu não conseguia explicar para as pessoas porque eu andava necessitando de matemática e, depois, em que estava me ajudando estudá-la. E vou fazer mais uma tentativa agora.

Voltei a estudar matemática quando quase terminava de escrever o livro. Por quê? Para descobrir do que estive falando o tempo todo. Frequentei a aula e descobri que há abordagens "construtivas" e "não construtivas" à matemática - assim como em alguns finais de Owned, eu e o leitor "perdemos" (não construímos uma narrativa válida). Às vezes, tive que escrever trechos em que eu "perco" (simulo perder), o que significava escrever cenas que faziam sentido para a série de escolhas que as precederam mas me desagradavam pessoalmente. Nos trechos em que eu "ganho" (simulo ganhar), há um final que eu me diverti em escrever, mas com o qual o leitor pode se sentir sacaneado.

Para além do fato de o livro todo ser uma simulação, digo que o leitor pode se sentir sacaneado porque o leitor real pode muito bem gostar do final que meu leitor simulado acharia uma traição. Na publicação e na leitura - quando o "programa" rodar todo na cabeça de leitores reais - sei que vou me surpreender, mas não sei como.

Uma ajuda que a lógica me deu foi para deduzir as regras do meu próprio jogo. Há uma brevíssima instrução de como jogar no começo de Owned (meu pacto narrativo) que pode se passar por regra, mas o que estou chamando de regra aqui são os pressupostos ocultos com que trabalhei ao escrever. Por exemplo: "cada escolha do leitor é uma jogada; como autora empírica, eu posso cooperar ou trair". Só que fui tão longe escrevendo que não tinha percebido que minhas regras tinham mudado, casado e tido filhos. Uma vez colocando as regras (as antigas e as novas) no papel, ficou mais fácil escrever as últimas linhas.

Sim, as últimas linhas. Bem, eu estava batendo cabeça com (para?) completudes, era isso. Eu tinha começado com regras muito fortes, inexoráveis, e precisei flexibilizá-las para fazer caber a variedade mirabolante dos casos que tinham surgido (os caminhos que eu tinha escrito) depois de criá-las. Ou seja, eu sentia minha canoa furada; a matemática me ajudou a entender que talvez não haja barco perfeito e que não há canoa certa, há mais a canoa certa para o rio em questão. Fato: estou trabalhando no último trecho.

Enfim, estou estudando a tal lógica dialógica e descobri que era mais ou menos disso mesmo que eu estava brincando. Aliás, esses dias me passaram também um jogo de cartas relacionado.

Eu não sabia onde estava me metendo. Não sabia onde meu livro ia me levar. Mas certamente não parti da ideia de escrever um livro bobinho, caça-níqueis, frívolo ou experimentalesco sobre videogames. A ressalva é porque, no Brasil, o adjetivo "sério" está grudado como uma craca ao conceito muito feliz de "não picaretagem". Só que as demais acepções de "seriedade" vazam como uma caneta estourada para esse rótulo e contaminam público e crítica de uma terrível incapacidade de rir e brincar. Nesse sentido não-picareta eu quero muito ser uma autora séria, mas também não quero abrir mão do lúdico, pode? 'brigada. É que por mim eu podia jurar que não estou falando sozinha.

Depois vem um artigo, juro que menorzinho, sobre programação.



* Narrador d'O homem que calculava, de Malba Tahan

25.5.11

Filha de portugueses, ela cresceu no Morro da Conceição, no centro do Rio, e foi tirada da escola na sétima série, a contragosto, para começar a trabalhar. Ela gostava de estudar e sua escola, pública, tinha qualidade.
Esse post lista várias palavras usadas pela minha avó, que praticamente me criou (e não era nada educadinha). Ela morreu em 2004, e esses termos, difíceis de se ouvir hoje em dia (de pessoas jovens, especialmente), ainda ressoam na minha cabeça. Quer dizer, minha avó não estava sendo conscientemente política ou tenaz em insistir em seu uso na linguagem, mas admiro-a por ter sabido manter uma expressão verbal própria mesmo assistindo novelas, fazendo palavras cruzadas, conversando com gente de toda idade e procedência.
Ela usava muito substantivo, pouco advérbio, verbos originalíssimos, bastante xingamentos. Eu uso muito advérbio falando, respondo "sim" em vez de "é", uso futuro do presente ("eu irei") e, quando criança, esganava quem usasse diminutivos para se referir a mim. Eu fingia que não estava entendendo as palavras novas para que ela me explicasse, embora a maioria desse pra deduzir do contexto. A informalidade dela não me ofendia, porém; eu gostava dela. Hoje em dia, que estou mais emocionalmente ampla (hahaha), já sinto a dona Albertina em mim aflorar.

Apaixonada - Usado quando se está contando uma história. "Fiquei apaixonada" = "Fiquei tristíssima, magoada, hipersensível".
Cacófato - o horror da minha avó a cacófatos só era comparável ao meu por diminutivos. "Boca dela" era invariavelmente recebido com "Cacófato!" Acho que isso é porque meu avô costumava cumprimentar um certo amigo pelo nome completo, "Adolfo Dias", quando o via na rua, e fazer outras gozações do gênero.
Complicado - adjetivo para produtos culturais que estivessem fora do meu alcance intelectual. O gibi do Tio Patinhas era mais "complicado" do que o da Turma da Mônica. As palavras cruzadas que ela fazia eram mais "complicadas" que as que ela comprava pra mim. E assim por diante.
Debochada - insulto, quando ela desconfiava que eu estava sendo secretamente irônica por trás da minha carinha de anjo. Mas podia ser dito com camaradagem, num espírito de comadreria, quando o "deboche" era dirigido a outra pessoa.
Desmazelada - geralmente aplicado a mim. "Desleixada" não seria insulto suficiente. (Talvez um indício - etimológico, além das fotos de familiares e do meu nariz - de que nós descendemos de cristãos-novos.)
Esganado - guloso, que come demais
Escangalhar - quebrar alguma coisa
Engranzado - algo que foi entremeado ou metido de forma indevida e ficou preso (um livro na estante, por exemplo)
Enviesado - a palavra dela para "fisicamente inclinado" ou "torto" ou "de lado".
Grossinha - insulto.
Gulodices - nome genérico dos doces que ela se oferecia para trazer do supermercado: "umas gulodices".
Insolente - insulto.
Malcriada - insulto.
Marginal - qualquer bandido ou pivete
Miserável! - insulto.
Perra - insulto. Ver "Teimosa feito uma mula".
Petulante - insulto.
Rente - ela usava bastante esse advérbio
Ruim! - insulto geralmente dirigido a mim. Não era pronunciado "ru-ím", mas sim "rrrúim!"
Se mostrar - fazer alguma gracinha com o intuito de "aparecer".
Sextavado - palavra dela para "hexágono" ou "hexagonal".
"Tá virando hippie?" - insulto geralmente dirigido a mim. Aquele que se veste fora da norma.
"Teimosa feito uma mula" - insulto geralmente dirigido a mim
Vedete - Consideração em que tinha Carla Perez

* Se lembrar de outras, editarei o post ou farei outro

24.3.11

servidão voluntária

Em 2010, decidi arrumar um emprego. Sim, necessidade financeira, mas eu tinha perspectivas de dinheiro para breve; só que pela primeira vez eu sentia vontade de arrumar um emprego, em vez de arranjar "algo temporário que desse algum dinheiro", como antes.
Eu estava numa época da minha vida que parecia que tudo ia dar certo. Eu tinha um livro promissor para desenvolver e uma bolsa saindo para ele (o dinheiro de que falei). Mas eu escrevia/planejava uma ou duas horas por dia. O resto do tempo eu me via tomada por pensamentos obsessivos que se acumulavam sem quê nem por quê, o dia inteiro rodopiando na minha cabeça, e às vezes não deixavam nem mesmo que eu fizesse o que tinha para fazer (escrever, comer, viver). Também tinha o fato de eu ter me recém-formado em produção editorial sem ter assinado carteira nessa profissão (nem em outra). E a já famosa degradação de habilidades sociais, que em mim é forte, rápida e embaraçosa.
A verdade é que eu estava meio desconectada da humanidade, passando tanto tempo sozinha em casa. Ok. Verdade verdadeira agora: eu sempre fui meio desconectada da humanidade, e as experiências nas poucas vezes em que tinha estendido a mão foram negativas, levando-me a encontrar prazer em estar na torre de marfim. Ou nem em estar na torre de marfim: em estar comigo mesma.
Muitas pessoas que passam muito tempo sozinhas desistem logo no começo porque são uma autocompanhia insuportável. Começando cedo, eu ainda não era; e logo aprendi a evitar ser. Descobri que dá pra você podar seus pensamentos. Você não precisa dar crédito a eles só porque eles vieram de você. Dizer "eu rejeito isso", mesmo que tenha vindo de dentro de mim, é uma babaquice necessária para se tornar uma pessoa melhor, o que se reflete também (claro) na minha opinião sobre educação de crianças, como podem ler nesse post.
Cabeça vazia, oficina do diabo, pensei; se não dá pra ocupar o cérebro com o que devo ocupá-lo, então que tal um belo bode na sala pra você ver o que é bom?
E arrumei o dito emprego. Um de 9h45 por dia, para fazer algo de que eu gostava, cheio de pessoas interessantes, algumas das quais viraram minhas amigas do peito. Mas tinha que chegar lá de ônibus, acordar todo dia no mesmo horário, dormir todo dia no mesmo horário, comer aquela comida e passar por aqueles ordálios trabalhistas por que sempre se passa. Depois que voltasse pra casa, às vezes ainda havia ir à academia ou fazer supermercado - ambos lotados, porque todo mundo só pode ir depois do trabalho - e sempre o jantar.
Também tem o fato de trabalhar ser muito caro e... trabalhoso. Sempre ouvi e li relatos disso, mas ano passado vivi na pele. Além de todos os encargos trabalhistas planejando sua vida por você (Estado paternalista comendo teu salário), há o tempo e o custo de transporte (e todo mundo viajando no mesmo horário, e no sistema de transportes pífio do Rio de Janeiro), a roupa certa (comprei 4 blusas iguais e 2 calças pretas, mas logo tive que comprar mais peças porque elas sujavam e gastavam bem mais rápido, ou davam um puta calor já na primavera) e a despesa com comida (lancha-se, porque trabalhar dá fome, e pede-se em casa, porque dificilmente se aguenta preparar comida depois de 9h45 no batente).
Fato é que pouco a pouco os pensamentos obsessivos foram se acalmando por pura exaustão. A energia antes reservada a eles servia agora à literatura, mesmo que fosse "dos outros", mesmo que às vezes eu nem curtisse o conteúdo. E, quando curtia, dava um gás maior na divulgação e me sentia ótima quando o livro conquistava um espaço maior, ou quando a edição saía bonita, sólida (mesmo que digital), (quase) sem erros, porque ajudei a pegá-los.
Depois que comecei a trabalhar, mesmo com toda aquela falta de tempo, eu escrevi muita coisa. E muita coisa boa. Teve um enorme surto inicial de escrita que me impressionou; depois eu escrevia muito semana sim, semana não. Parecia que as novas experiências enxurravam coisas meio emperradas, antigas, canalizando-as para a ponta dos dedos.
O que atrai muita gente para a profissão de escritor é uma suposta autorização pra não fazer nada o dia todo. (Fazer nada incluiria ler muito e escrever parcimoniosamente, além de traçar os/as fãs e colegas mais jeitosos/as.) Digo que todo esse papo de morte do autor e fim do sujeito fizeram um bocado de sentido depois da minha incursão celetista. Olha, o paraíso é insuportável. Uma vez que você chega nele, não precisa nem te contarem: a princesa está em outro castelo.
Porque saí do emprego? Bem, eu disse que o celetismo era um bode-na-sala, e como todo bode-na-sala, ele teve que sair em algum momento. Dei-lhe um tapinha nos quartos e despachei ele pro deserto. Nada pessoal. Saí curtindo muito o trabalho, mas a cada dia o horário do emprego se tornava mais difícil de cumprir. O dispositivo estava vencido. Minha doença mental estava sob controle.
Tive outras doenças ano passado também, físicas e desagradáveis, e, embora não acredite que toda doença é psicossomática (hohoho, Löis Lancaster...), essas também passaram. Confirmei que minha cabeça estava em desordem por ter passado tempo demais consigo mesma sem alimentação externa. E a qualidade da alimentação externa com que entrei em contato no trabalho foi tão alta que houve, olha só, reciprocidade. Eu gostei tanto das pessoas quanto elas de mim, eu fiz tão bem a elas quanto elas a mim. Uma sensação difícil e esparsa na minha vida até então.
Estar sozinha pra mim sempre foi o normal. Sou filha única, sempre morei em prédios sem playground e com poucas crianças. Me estranhava com a maioria das da escola. Socializava mais com os primos, quase todos meninos. Decidir trabalhar em casa, escrevendo, só deu continuidade a isso. Enxerguei esses anos um monte de coisas pelo mero fato de estar prestando atenção em vez de socializando; mas o preço dos insights induzidos pelo isolamento foi salgado. Pelo menos, quando entrei em contato aberto com outras pessoas - precisando delas, é a verdade - eu tinha algo a dar a elas. De um jeito que vai muito além de sexo, troca de favores ou coisas assim. Eu colocava benesses na frente das pessoas com um "use isso, por favor" estampado na cara - eu precisava ver meus caminhos de autodescobrimento seguindo seus caminhos, em vez de brincando de PacMan dentro da minha cabeça.
Eu também cheguei num ponto tal em que o processamento em segundo plano não estava mais bastando à escrita. Não estava dando vazão. Eu precisava voltar ao esquema full time - agora, com trocas frequentes com a humanidade. Vamos ver como isso anda.

9.2.11

Christine, o carro rabo-de-peixe assassino

Black Swan é tosco como um filme de Walter Hugo Khouri. O negócio é que eu gosto dos filmes do Walter Hugo Khouri.
Porra, trata-se de balé, ou seja, quase ópera. Tem que ser um filme exagerado. Quando o Aronofsky falou de vale-tudo em O lutador, todo mundo achou magnífico. Ou melhor: ouvi, naquela época, algumas reclamações de simbolismo pesado (The Ram = Cordeiro de Deus, destruição do templo = Randy quebrando o supermercado etc.). Mas é isso mesmo. Sempre foi, desde Pi. Aronofsky pesa a mão de propósito, e escolhe temas bem grandiosos e grandiloquentes, e filma tudo com visual extravagante. O que me admira é como essa extravagância se expressa - no roteiro e no visual - de formas diferentes em cada um dos filmes.
Tem gente a quem essa extravagância simplesmente não tem como agradar. Respeito. (Bom teste: se você gosta ou mesmo tolera ópera, vá ver). Mas tem gente que entra na sala de cinema esperando ver 1) sutileza 2) homoerotismo gostosinho 3) grande mistério revelado no final (vulgo I see dead people). Não! Você vai ver TERROR. Você vai ver PILHA ERRADA e PARANOIA. Você vai ver INVESTIMENTO LIBIDINAL EXTREMO NA ARTE. E você vai ver a culminância linda e terrível de tudo isso. Se isso vai fazer você pensar melhor e retomar o curso de publicidade ou ter uma catarse, é por sua conta.
Com isso, não estou dizendo que exagerar é acertar. Quer um filme kitsch ruim? Moulin Rouge. Outro (não vale musical! - ok): Scott Pilgrim*. Defendo que o kitsch tem seus usos, mas é muito fácil perder a mão e certamente não agradará a todo mundo. O kitsch lida com elementos de alta massa nuclear, é preciso ser bem mais disciplinado do que quem trabalha com elementos seguros, aprovados pela tradição e consagrados pelo uso. O Aronofsky geralmente acerta.


*E doi dizer isso, já que curto videogames, mas erraram a mão sequer em considerar fazer o filme. O quadrinho é um pouco melhor, especialmente no começo, até porque no início nem era tanto sobre games e sim sobre humor indie. Mas divago.

1.2.11

Frio

Meu sítio na serra se tornou um depósito de roupas de frio completamente inúteis no Rio de Janeiro. De vez em quando eu me dou conta do quanto elas ajudaram a formar a minha personalidade. Por ordem cronológica (minha cronologia, não das roupas):

- A balaclava da minha avó, rescaldo da lua de mel dos meus pais (sim, com a sogra) em Bariloche, que eu usava para brincar de ninja e espiã no sítio.
- O xale amarelo da minha bisavó, que eu usava para fazer a velha em brincadeiras.
- A luvinha infantil de lã, pseudo patchwork, mais um presente maravilhoso do meu padrinho, que eu usava para manipular bolas de sabão pelo sítio, fosse ou não inverno.
- Pantufas horrorosas e imprescindíveis. Quando começaram a surgir em formato de bichinho, no final dos anos 90, eu requisitei as antigas - minha mãe ficou com as de joaninha. Eu não gostava dessas infantilidades.
- O casaco de neve branco e azul da minha avó, três números maior, que usei direto no Reino Unido em 2000 para compor um visual de flygirl clubber (e não morrer de frio).
- O protetor de pescoço que salvou minha garganta na Escócia em 2008, com aplicação de um logo de sorvete, obtido no Chile pela minha mãe, que preferiu participar do concurso de quem comia mais sorvete de biscoito com meu irmão postiço de 14 anos a descer a pista intermediária comigo vezes sem conta ouvindo techno.

O clima lá está mudando. Agora temos mosquitos no verão. E em janeiro sempre choveu o tempo todo, mas raramente com essa intensidade. Meu canto na serra desta vez foi poupado, mas num ano anterior (recente) árvores centenárias caíram (algumas em cima de telhados) e lascas gigantescas deslizaram das montanhas. Vou para lá em breve, e devo ficar um tempo. Mas com internet.

16.12.10

Entrando na passarela, noto por trás do ombro de uma mulher que seu antebraço está engessado. Só que são dois antebraços para o mesmo lado e muito finos, em formato de coxinha de galinha. Se apossa de mim uma compreensão terrível: que são duas pernas engessadas até a coxa, pernas de bebê. O bebê, do qual nunca vejo o rosto, tem no máximo três meses. Quero sair dali. Mas a mãe confabula com a colega bem na entrada da passarela, impedindo a passagem; presa ali, eu não consigo parar de olhar, pensando bebês de três meses não andam, sequer engatinham, mal viram no berço, que diabos terá acontecido com esse para quebrar as duas pernas!!!! Ando adiante que nem pata, cambaia, sentindo a mente tentar produzir sentido daquilo com tanta força que produz um incômodo físico: um pai violento, uma babá bêbada, um acidente grave por descaso, uma malformação congênita, um médico maluco – quem engessa um bebê? Não me recupero por um bom tempo. Continuo tendo flashes do momento em que entendi as duas perninhas com gesso até a coxa. Com. Gesso. Até. A. Coxa.
Isso não foi um sonho.

26.10.10

Eu estava com minha mãe na cozinha do sítio após um dia cheio de movimento, de visitas. Lavávamos louça juntas. Nisso, ouvi chamarem meu nome lá fora: “Simone. Simone.”, mas não tinha certeza. Fiz aquela cara de cão perdigueiro procurando.
– É a Jacinta – disse minha mãe sem parar de lavar pratos.
– Quem? – eu não conhecia nenhuma Jacinta.
– É a Cíntia que está te chamando. Vai lá.
Larguei a louça e fui ver quem era. A grade não pertencia ao sítio real, era a grade do Museu da República; do outro lado estava uma moça - a Cíntia. Filha da empregada doméstica que tivemos quando eu era pequena e vinha brincar comigo de vez em quando. Por que ela, pensei. Agora adulta, tendo acompanhado a minha idade, ela continuava alta e magra, mas seu rosto era de criança-velha de filme de terror. Eu já sabia o que me esperava naquele tipo de sonho – um susto escabroso, escatológico e arbitrário – susto criativo – mas era incapaz de não me aproximar. E andei na direção dela. Passo a passo.
– Simone – disse ela mais uma vez. Estaquei. Mas dei mais um passo adiante, ao que ela, agressiva, reagiu: – Pirrranha.
(Ela tentou me chamar de piranha e resvalou no R.)
Ainda assim continuei avançando. Quando cheguei bem perto, a cara e o corpo dela pareceram se achatar em 2D e ela, após recuperar a forma original, fugiu aterrorizada se esgueirando junto à pedra. Bem rápido.
Foi um sonho de febre. Acordei empapada, já sem ela.

5.9.10

Baila comigo

Sabe Baila comigo, da Rita Lee, trilha de novela, com aquele arranjo meio órgão Roland + salsa-pra-turista com SOLO DE FLAUTA?
Bem, acho uma música boa.
Serinho. Só precisa de outro arranjo, outra voz - uma versão aterrorizante seria bem-vinda.
Hoje ouvi de novo, lembrei dela. Essa parte em especial me parece fenomenal e subvalorizada:

Se Deus quiser
Um dia eu morro bem velha
Na hora H
Quando a bomba estourar
Quero ver da janela
E entrar no pacote
De camarote...
E tomar banho de sol
Banho de sol,
Banho de sol,
Banho de sol.


Quer dizer, pulsão de morte, bomba H, fritar na fissão nuclear ("sol"), e flautinha. E baticum de bongô ao fundo, e aquelas duas barrinhas de madeira arredondada batendo plic, plic.
Que subversão, meu deus. Tocava na Antena 1 quando eu comecei a estudar física (7a, 8a série).

22.8.10

Trecho de "Olho de gato", de Margaret Atwood

"No fundo tem duas entradas grandiosas, todas entalhadas e com aplicações floreadas sobre as portas, inscritas com letras curvas e solenes: MENINAS e MENINOS. Quando a professora toca a sineta de metal no pátio temos que fazer filas de dois por classe, meninas em uma fila e os meninos na outra, e entramos alinhados por nossas portas separadas. (...)

O único momento em que vejo meu irmão na escola é na fila. Em casa nós improvisamos um telefone com duas latinhas e um pedaço de cordão que passa pelas duas janelas de nossos quartos mas não funciona muito bem. Colocamos bilhetes embaixo da porta um do outro, escritos na linguagem cifrada dos alienígenas que é cheia de X e Z e precisa ser decodificada. (...)

Mas durante o dia, eu o perco de vista assim que saímos pela porta. Ele vai na frente, jogando bolas de neve; e no ônibus fica lá atrás, num remoinho barulhento de meninos mais velhos. Depois das aulas, depois que passou pelas lutas exigidas a qualquer novato em qualquer escola, ele sai para ajudar no combate aos meninos da escola católica vizinha. Ela se chama Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, mas os meninos de nossa escola a rebatizaram de Nossa Senhora do Perpétuo Horror. Dizem que os meninos dessa escola são muito brigões e que escondem pedras dentro das bolas de neve.

Sei que não devo falar com meu irmão nessas horas, nem chamar a sua atenção ou a de qualquer outro menino. Os meninos se chateiam por ter irmãs mais novas (...) Se for chateado por minha causa, ele vai ter que brigar mais ainda. Para mim seria desleal contatá-lo, ou mesmo chamá-lo pelo nome. Eu entendo essas coisas e faço o que posso.
Assim, fico com as meninas, meninas de verdade finalmente, de carne e osso. Mas não estou acostumada com meninas, nem familiarizada com seus costumes. Fico constrangida perto delas, não sei o que dizer. Sei as regras não ditas dos meninos, mas com as meninas sinto que estou sempre à beira do disparate imprevisto, calamitoso."


Gosto muito desse trecho. Tradução de Maria José Silveira, edição da Marco Zero.

30.7.10

The pale handmaid's tale

Notas do primeiro mês de trabalho:

- Fiz um vídeo do caminho a pé - da subida junto ao cemitério na passarela carcomida sobre seis pistas expressas. Ao contrário do que está no vídeo, sempre olho para a frente.
- Uma fruta por dia no bandejão - tangerina, banana, maçã - descascada e comida com dentes, unhas e faca cega.
- A cadeira, e a postura, são importantíssimas. Disso eu já sabia, mas por tantas horas seguidas isso se torna bem mais evidente. Tive que caçar uma cadeira. E nada de cruzar as pernas, baixar a cabeça ou curvar os ombros.
- Ambiente 99,9% feminino. Nesse mundo o estoicismo é diferente. Torna-se imperativo resistir a comer por ansiedade, por exemplo. Ou saber bloquear a estridência com a mente quando se precisa trabalhar - ou ser multitarefa, trabalhar E estridular alternando miudinho (life skill).
- Peço os trabalhos mais pesados. Quero esvaziar a estante, deixa eu revisar a tradução, me dá o índice onomástico. Levanto para ir pegar dicionário (eu uso muito dicionário). Compro a comida dos outros lá embaixo. Raramente tomo o elevador e quando estou sozinha corro pelas escadas.
- Material de escritório à vontade e em grandes quantidades.
- Ambiente 99,9% nerd (de vários subgêneros).
- A pele atinge o equilíbrio ideal com o ar-condicionado. Quase. É preciso passar hidratante sob os olhos e nas mãos.
- Bebo mais água. Passo mais batom.

Isso não é bem um item. O ambiente ao redor me interessa. Passo por uma porção de estabelecimentos oblíquos. Hoje vi um Diplomata (carro, não chocolate) preto, todo elongado, estacionado na porta duma oficina. E ontem na esquina da empresa identifiquei uma escura papelaria, identifiquei estantes de metal com cara de 1978 e também um cliente: um menininho. Na tentativa de ver o que ele comprava, apertei a vista e descobri que, além de pastas, borrachas e canetas, metade das tais prateleiras continha dezenas de pingas diferentes. Papelaria-bar. Ganhei o dia.

- As baias vão chegar na semana que vem.

25.7.10

female trouble, ou: faz todo o sentido

Meu problema, em suma, é que leio Jane Austen e não acho o sentido. Sério. Leio diálogos e mais diálogos de conluio sentimental sem extrair qualquer prazer, sem detectar qualquer padrão coerente. Não entendi. Qual é a graça? Falho no teste de Turing bonito. Porque Philip K. Dick - ah, esse sim - faz todo o sentido. Leio "Valis" entendendo tudo. Os sinais, as coincidências altamente improváveis, a paranoia, a perseguição, a detecção de padrões. Sim.
Eu estaria perdida como mulher se eu não fosse um androide do tipo que aprende. Sei detectar padrões conhecidos, mas fico presa aos resultados averiguáveis. Por exemplo, SE você devaneia no trabalho e sonha de noite com alguém, SE mal consegue olhar no olho, SE gente a mais disparatada diz que você parece mais bonita do que costume; e SE, ao pensar, ei, isso não quer dizer que estou..., todos começam a acusar olhinhos brilhantes, LOGO você está apaixonada.
Foi bom começar a trabalhar, ainda mais num ambiente 99,9% feminino, porque aprendo mais rápido essas coisas de humano. Já demorei anos para perceber coisas semelhantes. Dessa vez demorei apenas três ou quatro semanas (tarde demais?).
Eu devia vir com manual de instrução. Depois de um tempo, claro, ele teria que ser jogado fora. Androides com defeito indeed.

Ontem estive num casamento e também não entendi nada. Mas what the hell.

19.7.10

one of these things is not like the other

Um amigo me fez narrar toda minha spring break de inverno (que terminou 1 semana após minha entrada no Emprego Estável) e percebi que isso - narrar, eu digo - me fez bem. Ele logo apontou: one of these things is not like the other. E eu concordei. Percebi também, conversando com ele, que jamais, jamais posso relaxar meu autocontrole, e, sabendo disso desde pequena, nunca devia ter caído nessa de "dar só uma espiada" (no abismo) e sim ter continuado com meus exorcismos de sempre.
É tudo muito fácil para uma esquizoide - alguém cuja empatia não vem de fábrica -, até que você percebe que deixou escapar um detalhe por demais importante, correndo o risco de parecer que pensa que é tudo a mesma coisa, quando não pensa, e se ferra bonito, levantando estilhaços que não dá nem para chamar de dano colateral.
Quero esse poder não, obrigada.
Vou ficar bem quietinha e assalariada, e nas folgas vou me submeter aos mesmos exorcismos de sempre. Porque lembrei que decidi ser uma pessoa boa a despeito de qualquer oligarquismo atávico - desde os cinco anos de idade.
Ontem fui a uma festa da minha família e perguntei do meu avô caçador para os meus tios; joguei videogame contra meu padrinho, e perdi; prometi à mulher dele ajudá-la a arrumar adoção para uns gatos. E eu estava gostando. Fiquei com pena de ir para casa. É mesmo uma decisão, questão de empenho, de foco.
Como diz o Ismar: tá tudo bem.
Mas que era uma boa hora para ser poeta, era.

12.7.10

Darel

Estava eu indo pro dentista quando vejo passar um 326 com busdoor anunciando exposição do Darel (Valença Lins). Na verdade, vi primeiro a ilustração, reconheci como sendo dele, e só aí, já empolgada, é que fui ler os dizeres do cartaz. Não é pra qualquer um, vai - digo, ter um estilo tão único que é reconhecível mesmo estampado num busdoor furtivo às duas da tarde na Perimetral.
Darel está no Caixa Cultural - exatamente em frente ao meu dentista. Tive goosebumps com a coincidência.
Aí cheguei lá e nenhum museu abre segunda. Fuén. Depois vou.

Descobri o Darel Valença Lins enquanto paginava jornais atrás de jornais dos anos 80 na Biblioteca Nacional para a editora Azougue. Os cadernos de cultura eram mais recheados naquela época, e bastou uma ou duas reproduções em preto e branco para eu cair de amores pela obra dele e procurar mais na internet. Fiz um post dizendo que ele tinha desenhado uma Maria Luiza (de A feia noite) muito melhor que eu. Depois ele descobriu meu post e me escreveu. Aí eu dei o nome dele pro protagonista do conto Herói, escrito para uma antologia erótica da Azougue que nunca saiu, mas que acabou entrando no Amostragem complexa (ei, eu preciso tirar nomes legais de algum lugar).
Só não entendi a onda BBB de identificá-lo apenas pelo primeiro nome. Mas ok, o que importa é o conteúdo.

E tome reprise da faixa-bônus do Amostragem, caso alguém não conheça.

P.S.: aproveitando a onda de dizer de onde tiro o nome dos meus protagonistas masculinos, revelo que o Miguel do Conto japonês (Mousmé) é inspirado no Miguel dos Karas (do Pedro Bandeira), e o menino gordinho que aparece no Segundo andar é minha versão carioca e classe média do Bolachão da Turma do Gordo (do João Carlos Marinho). Pronto, danei-me para sempre; posso ir dormir.

11.7.10

Apresentação do conto "Deitado eternamente em berço esplêndido", de Simone Campos, a sair na antologia "Escritores escritos" da editora Flâneur. O autor homenageado no conto é H. P. Lovecraft.
Vídeo feito no dia da final da Copa do Mundo, em homenagem ao polvo Paul.

11.6.10

O Mestre e Margarida

O Mestre e Margarita é um dos meus livros preferidos. Li uma edição velhusca, traduzida do inglês, mas sei que agora saiu uma nova da Alfaguara. Está na moda, portanto.
Ontem era um dos únicos três dias que a peça, da CAL, seria exibida - só para convidados - e eu fui, mesmo com medo.
Quando minha amiga avisou:
- Você vai me matar. Tem mais de 2 horas e meia a peça.
Eu já fiquei empolgada.
Achei que no mínimo iam cortar a história do Pilatos com Jesus, ou o número de incidentes pós-chegada de Woland a Moscou. Nada. Colocaram tudo. Precisa, né.
Três horas e meia de peça. No final, me senti a própria Margarida - dizendo, não, não, tudo bem ter demorado, valeu a pena.
Em boa parte funcionou muito bem. Teve soluções cenográficas criativas - como o chão de ladrilhos pretos e brancos também usado como tabuleiro de xadrez. Ou o interrogatório de Jesus por Pilatos com sombras. Aprovei também as referências atuais (grana na cueca, Faustão = Fausto grande, 11 de setembro). Figurino exemplar, especialmente do gato da trupe do Woland e do Ivan. E o teletransporte para Ialta? A transformação da Margarita! A destruição do apartamento do crítico!
Trouxe o programa para casa. De um lado, é uma nota de dólar.
Achei que a Margarita podia ser mais alegre, especialmente no baile, e não curti a saída dela de vassoura. Certas cenas imploravam por edição. Mas deu surpreendentemente certo. Eu veria de novo uma montagem aberta e incrementada.

30.5.10

teoria da comunicação

Estou na segunda graduação, nenhuma vergonha na cara, já entreguei monografia mas adoro produção editorial e por isso não paro de puxar matérias. É tipo um curso livre para mim.
Aí, por estudar na Eco, ouço essas histórias.

Calouro Leite-com-Pera, anticotas, é respondido ironicamente pela Diretora pró-cotas da Eco via Twitter - no que é referido como branco-danoninho. Calouro Leite-com-Pera é secundado por um monte de gente anticota e/ou gente que se sentiu discriminada enquanto branco-danoninho. Veterana Sniper tuíta que vai juntar umas meninas para dar um pau no Calouro Leite-com-Pera. Calouro Leite-com-Pera interpreta o tuíte literalmente e aparece com a mãe na Eco no dia seguinte, ameaçando Eco, Diretora e Veterana Sniper de processo.
Cai o pano.

Sei que é bom demais pra ser verdade, mas juro: não é fruto da minha imaginação. Mui me ufano de estudar nesse lugar.

Tenho a teoria de que esse choque de civilizações se deve à aposentadoria do professor Saboga, coisa por que tanto torcemos quando jovens e ingênuos.
Nesse singelo post de 2004 temos a definição abreviada do Saboga:
"Pega os calouros, 1o período. Não importa o ano, reprova 80% de uma turma e 50% da outra (aquela com a qual ele simpatiza mais)."
E acrescento: aprovações e reprovações eram efetuadas aleatoriamente, com comentários desmoralizantes também aleatórios em caneta vermelha, nas margens.
Ele exigia papel almaço.
Encadeava cigarros (podia em 2001) e percorria o espaço frontal com passos abertões, ida e volta, nas primeiras aulas - que eram as únicas expositivas.
Depois começavam os textos.
Quem fizesse perguntas sobre eles podia ser chamado de burro antes de mais nada. Ainda assim, ele exigia perguntas.
Nessa fase ele abandonava a sala quase no meio de uma frase, com 15 minutos de aula, após requerer perguntas que os aterrorizados alunos não tinham coragem de fazer.

Outros fun Saboga (non)facts:
* Ele deu aula para Fátima Bernardes, por exemplo. Isso é documentado. Há um tocante depoimento dela num livro que sempre circulava entre os calouros, às vezes apenas o excerto na lista da faculdade.
* Fofoca sem fundamento: certa vez, uma menina teria gritado no meio da aula que ele devia ter o pinto muito pequeno pra tratar os alunos daquele jeito e ganhou dez na prova.
* Fofoca sem fundamento [2]: uma menina por quem ele supostamente se apaixonara (porque ela manjava de filosofia alemã) teria estado na casa dele e relatado diversas estranhezas, entre elas, que ele não possuía televisor. No dia seguinte do jantar com ela (que diz não ter dado), ele teria declarado que daquele momento em diante jamais voltaria a reprovar um aluno.

Bem. Voltando à vaca fria.
O abuso ritual exercido pelo professor em questão era essencial para subir a taxa de niilismo ("resiliência") dos Calouros Leite-com-Pera. Quando, chorosos, eles se aprochegavam da autoridade mais próxima (o então Diretor do Departamento, professor José Henrique) e ele dizia estar de mãos atadas, e depois galgavam de joelhos o Gólgota da hierarquia acadêmica - Diretor de Graduação, Diretor da Eco ou até o Reitor - apenas para encontrar mais evasivas, algo se quebrava dentro deles: o último vestígio da sensação de protetorado infantil. Aqui é a vida real, rapaz. Ela não é justa. Mas nem por isso você pode correr para a saia da mamãe.
Isso sim era educar para a vida.
Aliás, o nome da matéria dele era Realidade Brasileira.

Eu aprendi minha lição. Mas ah, os velhos mestres se vão e os pupilos não se mancam de encontrar os próprios...
A Eco era uma sociedade pós-apocalíptica, pós Hiroshima. Agora misturou tudo. Tem gente com o brilho da esperança no olhar.
Vai dar merda. Uma merda possivelmente interessante.
Eu, por exemplo, sou anticotas (pró-educação básica boa para todos) e anticalouroleitecompera. De que lado eu me posto? Metade pra cada lado, só se for.