10.7.09

wait a minute mr. postman

Carta de uma mulher da cidade de Naor ao rei de Ur, datada mais ou menos de 2000 a.C., inscrita numa tabuleta de argila em caracteres cuneiformes e encontrada em meio às Cartas de Mari:

"Dizei ao meu senhor, Thus Inib-Sharim, tua dama e serva. Quanto tempo devo permanecer ainda em Naor? A paz está selada e a estrada, desbloqueada. Permita que meu senhor me escreva e permita-me ser levada para ver o rosto de meu senhor, de quem estou separada. Permita que meu senhor, além disso, escreva-me uma tabuleta em resposta." (grifo meu)

Viu? É histórico. Os homens nunca mandam tabuletas no dia seguinte.

8.7.09

Jacko Jesus

Acabei de reler meu scifi Penados y Rebeldes (que escrevi como Filipa Borg). Ainda acho muito bom. Uma palhinha:

"Alguns segundos depois de engatar-se na rede do visualizador VeriSim, o desprogramador do Juruá-Purus se viu no sopé de uma colina. Lentamente, com a alegria dos santos, seus clientes tweens caminhavam em direção ao topo. No topo, estava um ser magro, alto, com um longo capote e dezenas de dedos na ponta do braço, finos como raízes. Ao seu lado estava uma mulher pálida e magra de uns 30 anos.
Kaapor ligou a etiquetação. Sobre o cara de capote, apareceu a etiqueta “Jack Jesus”. Sobre a moça a seu lado, “M&M Geller”. Nisso, Kaapor ouve atrás de si:
- Pedófilo desgraçado! O que quer com nossos filhos?
Um pai engravatado, vermelho de raiva, surgia dos limites da pradaria sob a colina, liderando uma multidão de pais injuriados que corria tão bem quanto podia, ou seja, em câmera lenta.
A resposta de Jack Jesus foi sacudir as longas madeixas e dizer com uma voz que preenchia todos os espaços:
- Nunca ouviu falar em "vinde a mim as criancinhas", mente suja?"

7.7.09

Querido Diário

Rio, 19 de novembro de 1994.
Usei o modem para conversar com o computador do dindo. Legal! Ele escreve lá, sai aqui. Eu escrevo aqui, sai lá. Até me passou um arquivo!
Legal mesmo!
Simone


Lembro que foi muito complicado - tive que pedir para a minha avó e a empregada ficarem longe do telefone, e depois gritei para elas virem ver porque algo impensável havia acontecido - uma imagem tinha se materializado no meu computador, mais exatamente esta:

Era esse tipo de incidente que eu registrava no meu diário cor-de-rosa. Trocar arquivos pela internet com o padrinho. Ganhar concursos. Criticar os canais da recém-instalada NET. Reclamar que meus amigos só vinham à minha casa pra jogar videogame.
Eu nunca falava de livros, mas é visível o quanto eles influenciavam a minha linguagem no diário. Quando comecei meu primeiro diário sério, aos seis anos, eu imitava a tradução portuguesa do Diário de Anne Frank, usando um vocabulário muitíssimo mal-colocado (eu não "brigava", eu "pelejava", entende?).
Mas eu queria mesmo é ter achado meu "diário" no caderno dos Transformers que eu ganhei de brinde no aniversário de quatro anos do Igor, mantido dos meus 3 a 5 anos de idade. Tudo o que ele continha eram desenhos e rabiscos incompreensíveis, porque eu não sabia escrever, embora já bolasse frases e ficasse angustiada por não saber registrá-las, rabiscando, por isso, as linhas do caderno dos Transformers. Mas depois eu ficava frustradíssima porque não conseguia ler o que tinha "escrito".
Eu gostava muito do caderno dos Transformers porque, pra mim, aqueles robôs gigantes estavam protegendo meus segredos. Bem melhor que os ursinhos que me deram depois para o mesmo fim.

6.7.09

Chespirito

Agora que li Hamlet é que entendi porque Roberto Bolaños, criador do Chaves, era conhecido como Chespirito ("Shakespearito").
- Alguém se lembra do episódio em que Dona Neves se faz de louca porque "os loucos não têm responsabilidade por seus atos" e, portanto, não precisam pagar aluguel? Pois então: Hamlet.
- E o episódio dos baldes d'água, onde se diz que "a loucura se cura com um choque forte"? Também há uma fala assim em Hamlet.
- Aparições de fantasma em Chapolim, mais assustadoras porque descritas vividamente por outro personagem
- Episódio de Seu Madruga achando que vai morrer
- Sr. Furtado e sua culpa oculta
- Professor Girafales e Chiquinha = Polonius e Hamlet
- Professor Girafales e Quico = Claudius e Hamlet
- Tenho certeza de que vi essa história do rei acabar virando cocô de mendigo em algum episódio

Imagino um exímio contador de histórias se dando conta de que está no México, e não na Inglaterra elisabetana, e percebendo que tem que fazer um seriado mambembe e humorístico, e não peças imortais. Do mesmo modo, uns se especializam em Shakespeare, outros em Chespirito. E você, percebe?

27.6.09

Are you OK, Annie?


A melhor cena de Annie, na minha opinião (começa aos 6:40 do vídeo acima), é quando ela sai da cama para entrar no escritório do ricaço Daddy Warbucks em busca de atenção e, enquanto isso, atrás dela, um sujeito barbudo de terno saltita pelo jardim da casa. Mas Warbucks a ignora e continua trabalhando enquanto o sujeito barbudo arremessa uma bomba dentro do escritório, estilhaçando uma janela. Enquanto Annie olha atônita e Daddy Warbucks continua vituperando em sua ligação intercontinental, o criado oriental de Warbucks (Asp) passa a bomba para o criado indiano, que a arremessa de volta para fora com uma elegante pirueta, onde ela explode. O cão de Annie arrasta o sujeito pelo terno, Asp lhe dá alguns golpes de caratê e o indiano o imobiliza, levando-o para dentro.
Aí Annie diz à secretária, chocada:
"Who would try to kill Mr. Warbucks??"
"The Bolsheviks, my dear. He's living proof that the American system works and they don't want anybody to know that."
"The Bolsheviks? Leapin' lizards!"

Ninguém, no entanto, pergunta se Annie está bem. O que funciona a favor da cena.
(Annie é de 81, Smooth Criminal de 85.)

25.6.09

there's no spark

Eu gosto de Lígia especialmente pelo começo. O refrão já fica excessivamente meloso - suspeito que por intromissão de, puah, Chico Buarque. Mas o princípio denota um diálogo de sucessivos tocos dados por Lígia em um pretendente.

- Eu sonho com você todo dia.
Eu nunca sonhei com você.
- Gosta de cinema?
Nunca fui ao cinema.
- Vamos pro samba, então. Ou à praia. Vamos, Lígia?
Não gosto de samba, não vou a Ipanema.
- Então vamos para o Horto. Num dia de chuva ou de sol, você é quem sabe.
Não gosto de chuva, nem gosto de sol.

*de Lígia (Tom Jobim e Chico Buarque)

23.6.09

post do triunfalismo nerd

Trabalho em grupo, até o Ensino Médio, significava correr atrás das outras pessoas para fazer a parte delas antes que elas fizessem besteira. Mas com a internet - que me atingiu em sua plenitude lá pelo 2o ano do Ensino Médio - e a faculdade de Produção Editorial comecei a encontrar colaboradores dignos, com ideias ótimas, que complementam as minhas (e vice-versa). Em Produção Editorial, a confiança atingiu níveis tais que cheguei a fazer trabalhos em dupla no esquema "você faz um, eu faço o outro, e no dia da apresentação a gente se encontra antes da aula e se inteira do que a outra preparou". Quando a competência dá as mãos, o mundo é sua caixa de areia - e os incompetentes ainda não perceberam, claro, mas ficará cada vez mais difícil para eles subirem na carreira. Até porque suas velhas armas - puxar o saco, roubar ideias alheias e sabotar quem é melhor - e seus vícios de destrabalho - nivelar por baixo, desistir quando parece difícil - não valem nada num mundo que cobra cada vez mais resultados concretos.
Tenho visto de escritórios de arquitetura a agências de propaganda, e dos grandes, sendo trocados por outros porque não mostraram serviço. Há que mostrar serviço, e serviço consistente.
E tenho dito.

17.6.09

Ôlho

Ontem dei uma portada na minha vizinha. Foi sem querer. Ela veio jogar um lixo fora bem no momento em que eu empurrava a porta do elevador, e não manteve a distância defensiva, por assim dizer. Além disso, a porta é ultrapesada, precisa ser empurrada com força, e tem um minúsculo retângulo para você ver quem vem chegando.
Pedi desculpas, mas não acho que ela tenha aceito. Até porque temos uma história - reclamei de algumas coisas que ela fazia, e ela parou, mas não parece em paz com isso (também).
O que fiquei pensando, na verdade, enquanto eu enfiava a chave na fechadura e ela também, é que ela olhou para dentro da minha casa, provavelmente vendo a decoração meio retrô, o gato, a quantidade excessiva de livros e a Bíblia aberta em frente ao computador ligado. O que ela deve ter pensado? Certamente, não que sou crente, pelas roupas e horários em que saio.
Serial killer foi minha aposta. Figurinha mais crível que escritora.
Agora que ando jogando jogos de fuga, acordar de certos sonhos ficou bem mais difícil.
Sonhei que estava numa casa desconhecida, onde acessei um vídeo na internet e depois adormeci no quarto ao lado.
O vídeo era um curta japonês maluco, de época, sobre uma filha de nobres decadentes que não queria se casar com o consorte, e foi, claro, uma seção separada do sonho. Lembro que, pelo computador do sonho, mandei o link desse curta-sonho para duas ou três pessoas (é óbvio que agora tenho que checar se elas receberam).
Mas depois que eu adormecia dentro do sonho, no quarto ao lado, eu sonhava que estava numa praia onde pessoas do meu passado que não tinham nada a ver comigo jogavam voleibol. Era um sonho com outro clima, completamente diferente, de amplitude e frescor. Inclusive, quando a brisa marítima me atingiu no rosto, senti um desejo incontornável de entrar na água de roupa - e foi o que eu fiz. Bastou eu entrar, porém, para acontecer o que sempre acontece quando estou na praia em sonhos: o mar começar a engolir a praia e, depois, até a terra. Mas já aprendi a flutuar nessas condições, então simplesmente aproveitei. Quando o mar voltou à calmaria (desistindo, talvez, de me afogar), eu percebi que o sonho tinha acabado e que era hora de sair dali. Me deitei na pele da água e fechei os olhos. Quando abri de novo, estava de volta à cama. Mas não à minha cama. Eu estava de volta ao sonho anterior, tal e qual.
- Funcionou - observei - mas ai. Ainda falta acordar no quarto certo.
Minha mãe interviu, dobrando umas fronhas:
- Essa não é sua casa. Procure a saída.
Então o sonho assumiu uma interface meio Myst. Depois de procurar pelo quarto, desisti e abri a porta. Havia um banheiro em frente e, ao lado, o quarto do computador, com a porta entreaberta. Foi o que eu escolhi.
Nesse quarto, o que logo me chamou a atenção foi o espelho. Como sempre nos meus sonhos, olhar no espelho mais que três segundos exibia uma imagem ligeiramente distorcida, pendendo para o monstruoso. Mas ainda assim, me pareceu uma possível saída.
Como cada sonho tem regras diferentes, decidi testar minhas suspeitas: avancei a mão e toquei no espelho. Sim, ele era uma membrana permeável, e dava para o lado real. Minha mão tinha acordado quando ultrapassei o espelho com ela. Então tomei distância, a maior possível no pequeno quarto, e pulei contra o espelho. Fiquei entalada na metade, então resolvi fechar os olhos e esperar. Só aí eu acordei no meu verdadeiro quarto.

14.6.09

it's ALIVE

Achei o primeiro blog que tive na vida, em 2001: http://desembucha.brinkster.net/exibir-blog.asp?blog=simonecampos
Eu era muito empolgada.
Tem o esboço de A feia noite (sim, já em 2001).
E o servidor que o abrigava subiu no telhado pouco depois do 11 de setembro. Achei que nunca mais veria os meus posts.
Depois vou incorporar os posts dele a este blog, nas devidas datas.
E, nossa, quero ver dizerem que "surgi dos blogs" agora.

11.6.09

efeito folhetim

Eu tinha esquecido do frisson que é ter que esperar a foto ficar pronta, em vez de ver como ela ficou na mesma hora. A máquina digital nos roubou isso.



Mais resultados, no Flickr.

8.6.09

the puppet master

Estou fazendo um twitter com frases da Emília. Sem contexto é mais gostoso.

6.6.09

Não sei o que é maior: minha ojeriza por gente "do bem"/"gentileza gera gentileza" (T-shirts available) ou minha ojeriza por gente que implica por recalque.
descompressão

Sei que devia compartimentalizar mais a minha vida - tipo, não misturar assuntos pessoais e profissionais no blog; não postar pares de coisas díspares, como pole dancing X ponto cruz, ou pró-choque de ordem X clubbing, ou nerdice X fashionismo - mas não tenho muita paciência para manter abertos vários estabelecimentos virtuais diferentes. Resultado é que a maior parte das pessoas gosta muito de uma das pontas da minha vida mas não tolera o todo.
Às vezes penso que sou um personagem inverossímil. Ou que estou fazendo o que tanto desdenho, usar "metamorfose ambulante" como desculpa para falta de coerência. Mas sou coerente com minha complexidade: gosto de manter minhas opções abertas. Realmente gosto de robôs gigantes, ponto cruz, vintage, fofice (kawaii), tradução, literatura, cinema, anime, gatos, videogames, quadrinhos, divulgação científica, dança do ventre, coisas toscas, animação, sexo, música eletrônica, livros (com fetiche), ópera, fotografia, política, ficção-científica, design e não designers, Tijuca e não Ipanema, países insulares e tantas outras coisas. Que fazer?
(Decidi usar negrito, mas não vou abusar.)
Lista de gente que fez bem ao Brasil e o Brasil tratou mal

- Monteiro Lobato
- Mauá
- D. Pedro II
- Fernando Sabino
- Wilson Simonal

Tem umas pessoas que eu particularmente questiono se fizeram bem mesmo, então não entraram na lista. Ou então, eu posso simplesmente ter esquecido. Mais algum? Mande-me um e-mail.
Top 10 países preferidos

1-Escócia (e Inglaterra, e o resto do Reino Unido)
2-Japão
3-Rússia
4-Polônia (e Ucrânia, e o resto das ex-repúblicas soviéticas)
5-Brasil
6-Portugal
7-Chile
8-Espanha
9-Canadá
10-França

- Se não fosse o meu gosto moderado por tosquice, essa lista poderia ser muito diferente.
- Na lista tem países que eu não conheço, e nem todos os que conheço entraram na lista.

2.6.09

"Teeth" é legal, mas não tenho coragem de recomendar aquilo pra ninguém. Veja por sua conta e risco.

30.5.09

Cena dos anos 90

– Vamos cedo, disse Monica. Quero ficar lá no “gargarejo”.
Era o meu primeiro show sozinha, de adulta, com as amigas. Já tinha acompanhado meu pai recém-divorciado ao show do Tears for Fears, mas aquilo era diferente. A roupa foi diferente também: vesti uma blusa de botões prateada que eu e minha mãe compartilhávamos e botei maquiagem.
Fomos mesmo para o que a Monica chamava de gargarejo, um pouco à esquerda. Começaram a tocar e, mal começaram, os meninos vestidos de preto começaram a moshar. Mas não era bem mosh, estava mais para
– Porrada! Porrada! – açulava Monica.
O show prosseguiu, tocando todos os sucessos do cantor, consagrados na década de 80 e repopularizados devido a um recente disco de remixes. No palco, a posição mais avançada era a do saxofonista louro, que lançava longos olhares para as menininhas e usava uma calça de couro apertada que exibiu, durante algum tempo, o que a mais avançada do grupo logo identificou como uma ereção. De vez em quando ele olhava para o nosso lado, mas eu achei aquilo vagamente nojento e me ocupei mais em dançar.
De repente, em vez de emendar em outra, a música parou. Estavam recalibrando para algo complicado. Demorou tanto tempo que Monica sentenciou:
– Ihh... deu tilt!
E virou pra trás e começou a bater papo, dizendo como o saxofonista era lindo, mais lindo que o cantor, e inventando formas de chamar a atenção dele.
De repente, o palco começou a tremer com um ruído de baixa frequência. Era o baixo de uma versão eletrônica de “Ando meio desligado”.
O público esfriou completamente. Era mesmo uma versão muito chata. No meio do solo, um maluco começou a gritar:
– Pára com essa merda eletrônicaaaa! Caralhoooo! Filha da putaaa! Música de viadoooo! Eu quero é roquenrooool!
Era uma versão muito chata mesmo, mas aquele cara era mais. Ficou gritando aquilo até a música terminar, e eu senti vontade de dizer a ele que eletrônica não era nada daquilo – eu que já estava começando a gostar. Mas calei a minha boca.
Um ano depois, descobri como baixar MP3s na casa do meu pai e danou-se.

27.5.09

Quando a Maísa arrancou a peruca do Silvio ninguém chamou a Secretaria da Terceira Idade.
E tem mais, aposto que ele chorou também - no camarim.

26.5.09

proibido para menores

Estive remexendo no A feia noite para um projeto e me bateu que muita gente, inclusive escritores, não tem noção do trabalho que dá fazer um livro - especialmente um livro como aquele.
Eu pesquisei As mil e uma noites, São Francisco e Santa Clara, o sincretismo de ambos, marketing político, problemas psicológicos, efeitos de diferentes antidepressivos, distúrbios de sono, superdotação, teoria do caos, vários conceitos matemáticos, e dezenas de livros e filmes com "noite" no título.
Veja, por exemplo, a cena de A feia noite em que o marqueteiro político Francisco revista a bolsa da Maria Luiza enquanto ela toma banho:

"Olhos na TV, interessadíssimos na fala pastoral, a mão-boba tem vontade própria, se estende e puxa qualquer coisa lá de dentro. Algo de couro, por exemplo. Um chaveiro que também guarda moedas. Mergulha de novo: uma lamy. Óculos escuros. Tateia mais profundamente desta vez, esquecendo-se da farsa e olhando para ver direito o que estava fazendo: enfiando um antebraço inteiro num local proibido, it goes deep."

Daí se infere que pesquisei até pornografia. Pode rir, vai. "Pesquisar pornografia" soa tão mal que nem vou tentar me defender. Mas me rendeu inúmeras metáforas, verbos e ideias novas. Sem falar em noções de beleza, perversão, degradação, dominação etc. etc.



Isso aparece muito nas atitudes fatais de Maria Luiza, mas nos pequenos detalhes também. Certas roupas, verbos como "trespassar", o uso de facas de caça e silvertape, as referências a necrofilia... agora não está tudo na ponta da língua (por sinal, local onde Maria Luiza possui um discreto piercing). Curiosamente, não considero que o pedófilo do livro tenha saído dessa pesquisa específica, e sim das necessidades da narrativa.
Eu nunca disse que A feia noite devia ser lido por crianças. Ao contrário, aliás, de No shopping, que só pode ser lido por menores de idade. Quem não estiver preso nas engrenagens pré-vestibular e pré-escolha de companhias não vai saboreá-lo, a não ser que tenha ótima memória ou seja muito imaturo.
Acho que já encontrei um tom que sirva tanto para o leitor iniciante como para o experiente no Amostragem complexa (contos). Mas ainda estou devendo um romance nesses termos.

P.S.: mais desenhos de Maria Luiza aqui.

25.5.09

Olhando a capa do caderno literário

Cansei de gente que escreveu livro importante. Quero ver gente que escreveu livro bom.

21.5.09

esse modelito da estação passada

Calma, citei Legião Urbana mas não é sinal de demência! Aliás, foi depois de ouvir Flores do mal no rádio que relaxei e admiti que não suportava Legião Urbana mesmo: era ruim. Antes eu ainda tentava contemporizar, ouvir aqueles disquinhos pseudo-românticos nas festas das minhas amigas (e as rodas de violão!) sem reclamar, mas... depois de ouvir esse verso, exatamente esse, do modelito da estação passada, sendo cantado com toda a pompa e gravidade renatorussianas, OK, joguei a toalha...

Mas divago. Eu ia falar era das batinhas. Essas batinhas de grávida que vêm vendendo desde 2002 como "blusa-padrão".
Muitas vezes fico achando que encontrei a blusa perfeita, mas assim que a tiro do cabide percebo que o corte perfeito dos ombros vai abrindo, abrindo, até chegar ao quadril duas vezes maior que o mesmo. Perfeito - como sacão de batata. Vestir saco pra mim é luto ou gravidez.
Antes das batinhas, vendiam-se as baby-looks, lembra? Blusas curtas demais, que mal cobriam o umbigo (se é que chegavam até ele), divulgando o baconzinho de tantas dietas à base de biscoito. E eu usei? Sim, até os 19 anos. Depois, comecei a achar ridículo.
Isso tudo é opinião pessoal, mas reparei numa coisa: quando a moda muda, eu não a sigo. Primeiro, eu a questiono.
Tenho meu estilo; se as coisas que eu gosto vão ficando muito difíceis de ser encontradas, porque a moda do momento não casa com elas, eu me recuso a comprar o que a moda oferece só para acompanhá-la.
Meu gosto não permanece exatamente o mesmo, claro - ele muda gradualmente, assim como o meu corpo, minha idade, minhas experiências - mas certamente não muda a cada estação, como a indústria da moda gostaria.

Não vou jogar minhas blusas berinjela fora porque alguém decidiu que isso está out. Eu fico bem de berinjela. Eu, hein.
Também não vou ficar putinha se o berinjela entrar na moda e todos começarem a dizer que usavam berinjela desde criancinhas. Vou é estocar boa berinjela. Eu sei que aquela batinha berinjela não vai ficar bem em mim e a jaqueta sim, enquanto que a pessoa desesperada vai comprar qualquer coisa berinjela, mesmo que a cor não a favoreça, mesmo que a peça seja medonha, só porque o berinjela está na moda e ela precisa usar berinjela.

(Prometo não usar a palavra "berinjela" de novo até o fim desse post.)

O mesmo vale para as ideias. Os movimentos literários vêm e vão, o que você faz sai e volta à moda, mas você - em "essência" - continua quase igual. O que te interessa e o que você produz a partir disso não muda tão radical nem tão rapidamente quanto a lista de mais vendidos exigiria.
E não há nada de errado com isso. Deixe a moda se afastar, relaxe, use o que você gosta. Um dia ela volta. Ou não. Mas aí você será o único usando... para o bem e para o mal.

18.5.09

as sete pragas do Egito

Na minha cozinha têm entrado umas mariposas pretas que, ao que parece, perdem as asas e viram umas lagartinhas nojentas. Elas se prendem ao teto e ficam por lá deslizando. Elas parecem não gostar de nenhum outro lugar, nem o da sala; apenas o laranja-COMLURB de que pintei o teto da cozinha as atrai. De vez em quando eu ponho a escada e estalo algumas com o chinelo: parecem espinhas gordas.

Uma coisa esse apartamento não tem: baratas. De resto, vive sendo invadido por bichos estranhos, às vezes hordas deles. Há épocas para cada praga. Hordas de abelhas, de cupins, formigões, do mosquitinho que deixa cheiro de mato depois de morto, do verdinho que gosta de pousar na tela do computador... e eu nem mantenho uma lavoura (não compro, nem planto...)

Mas os piores são os unitários. Quando o bicho entra sozinho, é porque é punk. É um bicho que eu mesma não vou conseguir tirar e vou ter que chamar o porteiro ou jogar um gato em cima. O morcego, por exemplo. Ou a libélula gigante que a saudosa gatinha Pirata encurralou e, quando ferida, começou a soltar uma espécie de "linha" peguenta verde-água. Como a Pirata fazia questão de comer tudo o que caçava por puro orgulho felino, tirei o bicho dela e joguei fora.

Mas o hors-concours foi um besouro de olhos fosforescentes que invadiu a minha sala certa madrugada, no meio de uma partida de Chrono Trigger. Demoníaco, radioativo e transgênico, o bicho me impressionou tanto que o prendi num copo e fiz um vídeo dele.

Se alguém conhecer essa espécie, gostaria de saber qual é.

17.5.09

Após detonar autores autobiográficos, fiz um videozinho pra explicar a egotrip do meu novo conto, O aleph de Botafogo. Quando você vai poder ler? Acompanhe aqui. É pulp, gente, é pulp...

11.5.09

AFAN

Se o escritor é narcisista, você só vai gostar do que ele escreve se concordar com ele: que ele é o máximo. O problema da literatura autobiográfica é que, se você não topa o autor, logo não topará a literatura dele, baseada na vida dele, com personagens que bailam ao redor da versão idealizada dele.
Se às vezes isso facilita extremamente a vida do crítico, por outras complica demais: como separar não-gosto-de-você do não-gosto-da-sua-obra se a sua obra, admita você ou não nas entrevistas, é você?
É preciso um certo desapego do que se acha, se dar espaço para gostar do livro, como num teste cego. Eu adoro um livro da Fernanda Young, o A sombra das vossas asas, embora ache ela e os demais livros extremamente chatos. Mas, das recentes, ela é das que mais usam a imaginação.
Ninguém disse que o escritor tem qualquer obrigação de facilitar trabalho de crítico - ou de qualquer leitor. Mas o autor de ficção autobiográfica narcisista (AFAN) deve estar preparado para severos golpes no ego ao colocar sua vida no papel. Quer dizer, ele não tem o direito de reclamar. Se chamarem de inverossímil, não vale dizer “mas aconteceu! Eu juro! Quer ver o vídeo?”, e nem dizer "ah, mas essa parte aí é ficção". Se o chamarem de chato narcisista, não vale apelar para Fellini, Zuckerman, sua mãe ou a divindade da sua preferência.
Mas acho que a maior parte dos AFANs só se preocupa em encontrar uma boa desculpa estética - um truque - para dar vazão ao seu imenso complexo de bukkake (só pode ser, porque punheta, antigamente, se batia a sós, e não direcionada para o rosto de outrem): o complexo de Deus de todo autor, a morte da literatura, Woody Allen, a geração fotolog...
O pior é que, se os AFANs pegassem esses temas e tentassem desenvolver em outra direção que não o próprio umbigo, talvez alcançassem alguma coisa. Mas não: todos querem ser príncipes...

8.5.09

Estava pensando: se eu fosse professora, como impediria meus alunos de usar CTRL-C + CTRL-V num trabalho?
Ainda peguei a época dos livros. Eu ia compilando dois, três livros diferentes, cada um com informações diferentes do outro, e ficava um trabalho enooorme. Mas na universidade, o problema dessa "esperteza" (vergonhosa especialmente depois da 6a série) já começou a afetar relações professor-aluno. Os trabalhos eram enormes e nem um pouco originais.
Tem professor burro que proíbe uso da internet na pesquisa, ou pede, "na boa", para usar "pouco" a internet.
Outros passam extensas provas em folhas de papel almaço para nos obrigar a ficar com a munheca doendo.
Eu já faria diferente: pediria um resumo.
O mal da internet é justamente o excesso de informação. Tanta informação que não se lê boa parte dela. É cortar, colar, ignorar. Trabalhos de vinte páginas sem um conteúdo original.
Mas com um resumo ou fichamento de uma ou duas páginas, as criaturas teriam que ler e trabalhar. Capaz até de terem de abrir um livro. Claro, provavelmente alguém inventaria um jeito de dar a volta nisso, mas seria mais trabalhoso do que fazer o trabalho, e a Lei de Gérson não perdoa ninguém, nem os trapaceiros.

30.4.09

tudo bem

Às vezes, na minha adolescência, eu dançava com tal abandono que os outros viam me perguntar se estava tudo bem – “tudo bem” como em “não está prestes a ter overdose?”. Não, não eram drogas. Tudo o que eu fazia era não ter noção e freqüentar uma certa igreja evangélica conhecida por pedir a seus frequentadores para louvar ou expulsar demônios um tanto ruidosamente – Deus ficaria satisfeito. Eu aprendi o abandono, aprendi a me entregar e a sentir o que estava sentindo. E aplicava na boate.
Eu me sentia desesperada, dentre outros motivos, porque ninguém jamais compartilharia desta experiência; ser clubber evangélica era pessoal e intransferível. E esse desespero me fazia dançar mais energeticamente ainda. E aí vinham me perguntar se estava tudo bem, para eu dançar daquele jeito. O que me fazia sentir mais sozinha ainda. Pelo menos na igreja ninguém vinha perguntar se estava tudo bem – se você estava lá, era dado que não estava nada bem, ou, pelo menos, que estava num momento fervoroso.
O pouco que tenho a dizer, do alto da minha experiência, é que tudo passa. E, se você cuidar para reter as coisas boas, elas têm maior chance de ficar por perto.

27.4.09

Cuidado com Mary Sue

Adaptado da Wikipedia em inglês e em espanhol, o artigo abaixo fala sobre falhas graves no uso do recurso alter ego, algo que vivo apontando. Depois coloco na Wikipédia em português, pode ter alguma serventia...

"Uma Mary Sue (às vezes simplesmente Sue), em crítica literária e particularmente em fan-fiction, é um personagem de ficção com maneirismos idealizados e batidos demais, com quase nenhuma falha aparente e servindo, em primeiro lugar, como realização da fantasia de seus autores ou leitores.

* O autor costuma ser do mesmo sexo que Mary Sue.
* O personagem favorito da autora, de sexo oposto a Mary Sue, vai se apaixonar e provavelmente terminará ao lado dela.
* Mary Sue costuma ter um poder extraordinário em sagas com personagens "mortais" em que abundam poderes psíquicos.
* Na maioria das vezes, as Mary Sue têm um passado trágico, que pode ser similar ao de algum protagonista.
* Com freqüencia, Mary Sue termina aparentada com algum personagem da história original.
* Se se trata de uma estudante, vem de alguma escola estrangeira e chega por um programa de intercâmbio.
* Se o personagem favorito da autora da Mary Sue já se encontra romanticamente envolvido com uma personagem existente na série original, ele preferirá Mary Sue sobre todas as coisas
* A Mary Sue provavelmente unirá romanticamente dois personagens, que no entender do(a) autor(a) deveriam estar juntos.
* Geralmente, a trama da história (fan-fiction) costuma estar centrada na Mary Sue.
* É querida pela maioria dos personagens e raramente tem defeitos (e se os tem, são mínimos).

Algumas variações:

Sue angustiada - Sue com passado trevoso, pelo qual sente medo e culpa. Mas nada que aconteceu com ela foi sua culpa.
Anti-Sue - o autor se esforça tanto para não fazer uma Mary Sue que constrói um personagem cheio de defeitos, extremamente desagradável.
Sue canônica- um personagem da obra original se comporta da forma como o autor bem entende, desrespeitando suas características estabelecidas na obra original.
Sue paródica - Sue feita pelo autor como paródia.
Sue vilanesca - ela se envolve com um vilão e começa a fazer maldades a seu lado, vencendo todos os heróis."

17.4.09

comparações espúrias

- Claudine está para Luce assim como Haruhi está para Asahina.

- Eclesiastes e Jó estão para a Bíblia assim como o trip-hop está para a eletrônica.
dislexia galopante

Eu tentando digitar CRITIQUE: criqituqe
Abri um twitter só pros trocadilhos da barra de título desse blog. Estou seguindo uns amigos e, mais avidamente, certos personagens fictícios. Orwell me livre de alguém seguir a minha pessoa, nem que seja virtualmente, de alguém saber onde vou, com quem falo e o que penso a cada instante.

16.4.09

Estou cheia dessa história de “abaixo o choque de ordem fascista”, “agora que proibiram o cigarro, eu vou começar a fumar só de birra” (boa morte pra você) e “maldita lei seca que proíbe o consumo de bombons de licor”. Olhe em volta, cazzo. Onde você vive? Na Inglaterra? Aqui, o normal é a desordem. Aqui, as pessoas que estão tentando impor alguma ordem é que são subversivas. Você que diz que vai fumar em local fechado pra ser subversivo: quer ser persona non grata pra valer ou só figurante de anúncio da Ruffles? Se ligue. Seja o chato que só bebe água, Jeremias o bom, Arandir... aí você será perseguido com paus, pedras e tochas acesas, evitado nas ruas, silenciará salões -- um Onézimo encarnado.
Eu já disse: aqui, punk é ser mod...
Acho o nosso país um enigma. Como pode ainda estar de pé? Só pode ser pela inércia. É como se todos aprendessem tudo mal de propósito: dirigir, falar, conviver. Porque com um idioma mal-aprendido e meio-esquecido você não pode realmente cobrar nada a sério de ninguém, né? Aliás, poucos se lembram do idioma original para cobrar em primeiro lugar.
Tudo é marromeno porque ninguém tem medo de tomar um raio de Deus ou uma dura do governo; não existe pecado ao sul do Equador. Então ninguém se esforça para ser impecável, ou para ter excelência (não sei como essa farta distribuição de ISO 9001s). Todos fazem apenas o possível, e o fazem nas coxas, porque o bom é inimigo do ótimo.
Deixa eu dizer um último segredinho pra vocês. Falei no Arandir, não foi? Agora é super décadence fin-de-siècle gostar da obra de Nelson Rodrigues porque tem sacanagem, botando o dedo no queixinho e dizendo que “ele fez uma análise perspicaz da sociedade brasileira”. Ora, por favor. O que ele queria era expor a hipocrisia que velava os comportamentos. O canalha fingindo que não era canalha, a adúltera fingindo que não dava por aí, a lolita fatal fingindo que tinha sido seduzida. E em que isso culmina? Em gente fingindo que gosta dele pela sua “análise perspicaz” quando gosta mesmo é da sacanagem de época.

15.4.09

sobe, tio

Maldita reativação do Santos Dumont. Agora não consigo ficar cinco minutos sem uma turbina roncar na minha cabeça. Me parece que eles fazem a curva exatamente sobre o meu prédio. De vez em quando o barulho chega a ficar ameaçador, daí eu e JP pomos as mãos na cabeça e entoamos o mantra SOBE, TIO! SOBE, TIO! pro piloto lembrar de puxar o manche um pouco para cima enquanto o torce pro lado. Até agora temos sobrevivido.
Des'ree, Desire

Percebi outro dia que as rádios voltaram a tocar Des'ree. Outro dia vi o clipe dela passando na TV. E me toquei que estamos em 2009. E que o revival anos 90 começou.
Dito isso, passo a palavra para o Discodust, blog que apresenta eletrônica de ponta.
Eles indicaram o Desire que, pelo que ouvi, está fazendo uma espécie de eletrônica easy listening. Mirror mirror, por exemplo, poderia tocar numa Antena 1 sem qualquer modificação. Parece com Eurythmics, Carly Simon. Só queria saber por que não toca.

12.4.09

Sonhei que estava lendo o livro do século (deste). Parte dele se passava numa high school. Envolvia mutantes e geopolítica. Lembro especialmente da solução de um dilema: o cão não queria comer nada porque era na verdade um peixe (mutante). Havia um sujeito sorridente e ultrapopular chamado Swoomi (Swann + swami + swoon) que usava camisa listrada vermelho-e-branca e previa o futuro nas suas mínimas ações, mas não sabia disso.
Eram pelo menos três volumes, e eu lia o dois e o três. Ler, nos meu sonhos, significa encarnar num personagem com o qual me identifiquei.
Então, depois que li o início do terceiro volume, com os poucos sobreviventes do segundo volume se reunindo numa nova high school para o primeiro dia de aula, acordei e fiquei olhando para o teto, boladíssima.
- O que foi? - perguntou JP.
- Acabei de morrer numa explosão atômica.
- Que bom. Então pelo menos não doeu.
- Doeu, sim. Porque eu fui mané. Me escondi atrás de um troço de chumbo.
- Então... você foi mané. Deve ter doído muito.
- Horrivelmente. Eles tinham desenvolvido umas bombas atômicas de pequeno porte. Você via as nuvenzinhas de cogumelo. Eu abracei desconhecidos, deu tempo.
- Me falaram de não sei que filme o sujeito escapa de uma explosão atômica dentro de uma geladeira de chumbo.
- Foi... o último Indiana Jones. Eu vi.
- Bem idiota.
- Agora eu sei que não funciona. Eu sei, eu estive lá.
Fechei meus olhos para não ver minha própria carne queimada. A última coisa que senti foram os dedinhos do pé engelhados, um tocando no outro. E só.

3.4.09

Vovô Elmar: Sr Burns com três manchas na cabeça. Juiz com aposentadoria integral. Maranhense. Elitista pra caralho. Foto do Sarney emoldurada na parede da sala, mas sócio e torcedor ardoroso do Flamengo. Branco como folha de Chamex. Fumante compulsivo até os noventa e tantos (causa mortis falência múltipla).

Vovó Eunice ("Ninice"): Alta sociedade mineira. Foto vestida de marinheira durante a Segunda Guerra. Signo de Aquário. Semi-ruiva translucente, ava-gardneriana. Estudos de corte e costura no armário. Andava de calcinha e sutiã pelo apartamento escuro de Copa. Disco do Glenn Miller. Perfume com borrifador. Berloques. Hipocondria e tonturas.

Vovó Albertina ("Tininha"): Morro da Conceição. Filha de portugueses. Morena brejeira. Candidata a miss, retirada do concurso pela mãe (nada de se exibir em roupas de banho). Queria casar com cara mais alto que ela. Casou. Cozinheira de mão-cheia. Centralizadora. Sogra clássica. Pragmática. Sem papas na língua para assuntos carnais.

Vovô Antonio: Cara de ator de filme de Jean Vigo. Português de Braga. Ligado à colônia. 2 exemplares de "Como fazer amigos e influenciar pessoas": falso extrovertido. Dono de loja. Leitor. Traumatizado pela infância. Letra miúda. Bom pai. Fumante. Fã da Anita Ekberg. Colecionava clipes de papel. 1m98cm. Morreu antes que eu nascesse.
de onde tiro minha inspiração

Indigo disse que lavar louça acumulada dá excelentes ideias, daquelas que resolvem um livro. Eu digo que correr na esteira dá uma média de 3 ideias boas a cada 20 minutos. Paro tudo e começo a rabiscar no caderninho com a lapiseira no press bench sob o olhar genuinamente intrigado dos marombados.
Não devem ser as endorfinas, porque as ideias que vêm não são nada alto astral. Suponho que seja o aumento do fluxo sanguíneo para o cérebro -- porque quanto mais rápido eu corro, mais me inspiro. E os novos poderes vão além:
- sou capaz de correr muito mais rápido e por mais tempo que qualquer pivete (acredite, foi útil. Rio de Janeiro.)
- não desmaio mais por aí em dias de mormaço
- estou entrando em calças 40
Ana Paula Maia frequenta essa mesma academia. Ou seja, no futuro a Academia Brasileira de Letras terá esteiras numeradas em vez de cadeiras. Na pior das hipóteses mata os imortais tudo.
(A verdade é que ainda prefiro a versão boogie nights da Academia. Fazer ginástica é útil, mas um porre. Fazer o quê...)

2.4.09

nota tardia

Eu saí do show do Radiohead rindo tolinha: é isso aí, plebe, a eletrônica venceu, huhuhu.
É fato notório que Thom está tentando imitar o som dos artistas da Warp e similares. Quer dizer, tentando imitar -- está introduzindo umas melhorias inegáveis. Mas é Aphex Twin e Boards of Canada e Autechre e Nathan Fake e James Holden que ouço nas notas de In Rainbows. Que bom, que bom.
Quão deslocadas parecem as músicas antigas ao lado das novas. Ainda gosto de muitas delas, mas soam inegavelmente retrô e temporalmente localizadas na adolescência; é basicamente como ouvir Ace of Base.
Então vocês dizem: mas ele está misturando rock com eletrônica, ainda tem rock na mistura! Em suma, me dizem que o Radiohead é o Prodigy. Claro, muito melhor...
O futuro é aprender a tocar laptop. Talvez isso esteja ligado à ascensão do nerd como novo cool, porque é impossível parecer cool à moda de Ferris Bueller com as duas mãos plantadas numa futura síndrome do túnel carpal.

P.S.: O post de ontem era obviamente primeiro de abril. Foi tosco, mas sempre esqueço e deixo passar a oportunidade, então fiz assim mesmo.
P.P.S.: Ninguém se tocou da ironia que foi o Radiohead tocar em frente a uma bunda gigante?

1.4.09

Nunca pensei que fosse fazer uma coisa dessas, mas um ano de dança do ventre pode mudar muita coisa...
Nesta sexta, às 20h, vou fazer uma pequena performance chamada "Singularidade", baseada em Lain, Philip K. Dick e em SuperVicky. Não, não vou tirar a roupa, no nagging.
É fato que não sinto o menor stage fright, então já é mais que hora de começar a utilizar esse dom, certo?
O pessoal do Cabaré das Rosas está me devendo a filipeta (e suspeito que não ficará pronta a tempo), mas vocês já fiquem avisados.

28.3.09

fui com a cara desta mórula

É meio chato dizer isto tendo sido selecionada desta forma, mas fiquei pensando nos "fetos" de contos que mandei para a Petrobras e nas coisinhas sem jeito que eles eram. Depois tomaram jeito, claro.
É claro que o projeto tem que estar em algum ponto entre idealizado e pronto para justificar um auxílio à criação. Mas é completamente esquisito olhar para aquela mórula e decretar o seu potencial para cientista, ou modelo fotográfico. É como escolher filhos num banco de esperma...
Talvez o segredo tenha sido passar, no projeto, a segurança de proporcionar um bom ambiente pra "criança", por exemplo -- dizer, olha só pros meus quadris largos, sou boa parideira; olha como seguro bem este 'crash test dummy', etc. É como propagar minha capacidade de ser mãe de aluguel...
Ou seja: para as coisas acontecerem, incluindo aí filhos, amizades, livros e uma porção de coisas, é preciso uma boa dose de confiança semi-cega e de aposta. Quem não arrisca, não petisca.
Claro, isso parece bem mais injusto se você perde a aposta. Dessa citada vez eu não perdi, mas estou tentando exercitar a empatia.

25.3.09

Está a fim de ganhar um Amostragem complexa?
O Portal Literal está dando 5 em uma promoção. Clique aqui e seja feliz. Ou não.

19.3.09

Precisa-se de desenhista

(por Laerte)

para roteiro cômico e escrachado com super heroínas. Contato: o velho e bom simonecampos arroba gmail.com

(O cabelo do boneco de palito é igual ao meu, puro babyliss)

16.3.09

de modo geral



Eu, Alice e outros no De modo geral, talk show de variedades com gente de cultura no Cinematheque, esta quarta.

14.3.09

O que eu, particularmente, considero ser um livro bom:

Ele é gostoso de ler, e não necessariamente viciante. Livros como O Código da Vinci são page-turners -- fazem você lê-los compulsivamente -- porque fisgam pela trama. Mas você não os leria uma segunda vez. Não aprendeu a se importar realmente com os personagens, não se apegou a eles, não vai lembrar dos dilemas morais que eles enfrentaram ou da angústia que sentiram em determinada situação. Estes livros você simplesmente engole como fast-food que são...

É a diferença entre ler para saber o que vai acontecer e ler para conviver com os personagens. Os bons heróis têm alguns defeitos também. Você se pega pensando neles horas, dias depois de ter terminado a leitura, pensando em como o acha original, lutador, desprezível, conflitado, obstinado -- humano, em suma.

Com o livro fast-food, não. Você pensa: droga! Acabou! Espero que o autor escreva a continuação logo...

Li certos livros na minha adolescência que parecem uma aula de como ser psicopata. O herói pode tudo, enganar quem seja, deixar para trás quem for, e de tudo escapa sem nenhum preço a pagar, única e simplesmente por ser o herói -- o foco da história! E, não, não há qualquer intenção estilística por trás disso, como no livro The fountainhead, de Ayn Rand, por exemplo (falta ler...). Nesses outros livros, basicamente se trata de oferecer ao leitor a oportunidade de vestir uma "pele" de vencedor durante algumas páginas. E quer saber? Nessa era de auto-ajuda, funciona. Massageia o ego. Como se certos pequenos leitores de hoje já não estivessem metidos o suficiente...

Já recomendei livros que li no passado. Dos atuais, gosto muito das séries Poderosa e Querido diário otário. Se eu tivesse uma filha, então, em vez de dar livros que provavelmente iriam ensiná-la a gostar de telenovela e se comportar como uma perua (para não dizer pior), como as séries Gossip Girl, Diário da Princesa, Celebutantes e coisas assim, acharia melhor dar um livro de fantasia que desenvolva a empatia -- o "se importar com os outros".

Claro que todos gostamos de bobagem, mas é bom intercalar. Afinal, entupir seu pequeno leitor de fast-food pode acabar tornando-o sedentário em matéria de exploração intelectual.

(Comprando pelos meus links ao Submarino, você ajuda nas contas aqui de casa. Obrigada.)

6.3.09

eletrônica for dummies

É só clicar aqui e apertar play. De nada.
Não contém todas as vertentes, mas basicamente começa bem mulherzinha e vai evoluindo para a porrada. Ou seja, é uma playlist yangiru.

5.3.09

Sai ano, entra ano, e ela não desiste: insiste. Para que eu namore um cara trabalhador, casa própria, MBA, carro novo, "simpático com todo mundo no trabalho", ou seja, um completo babaca.
Do meu, ela reclama: "Ele não ri das minhas piadas!" - "Ora, conte piadas melhores..." devolvo.
Eu finalmente sentei com ela e expliquei que não acredito na ética do trabalho, em segurar um emprego, em nada disso. Carros, casas e filhos são legais, mas não estou à venda por causa deles. Expliquei também o meu FETICHE por caras rabugentos, misantropos e frequentemente escrotos (auxílios visuais: Luke de Gilmore Girls, House), que jamais sentariam numa sala de estar com a família-da-namorada sem protestar e negociar o quanto pudessem. Expliquei também que ela devia se conformar, porque eu simplesmente não suportava gente "do bem", não-reclamona, que acha que tudo tanto faz como tanto fez e nunca aponta para ninguém explicando em detalhe porque aquele cara é um babaca. Devia ter feito isso antes. Não funcionou, mas fez bem.

27.2.09

That's it, I'm moving to Canada!

Que cidade idiota. Não se pode andar nela com um peep toe, que entra areia de obra da Cedae no sapato.

O Carnaval valeu pelo set de Gui Boratto no RMC, pelo site da SuperVicky que descobri e pela foto com o sombrero.

foto com o sombrero

Fora isso, pff. Tive que bater em três pivetes. Na verdade, bati apenas em um, o do meio, quando ele começou recitando a liturgia do assalto (e eu, a reagir feito um anticristoredentor). Os dois outros saíram correndo. Evidentemente não tinham a menor suspeita de que aquela moça sozinha fosse reagir daquele jeito.
Se eu morasse em outra cidade, passaria por perfeita lady. Mas aqui eu preciso incorporar o caboclo Chuck Norris de vez em quando, porque é faroeste (farsudeste). Quem me vir, não sei, em um evento literário jamais imaginaria que quando preciso descer os barracos, infelizmente sei muito bem como fazer. Fui nascida e criada aqui, é impossível sair incólume. Isso mesmo, não aparento mas sou streetsmart. Pior, uma streetsmart que leu Maquiavel...
Mas também me fodo.
Tive a temerária idéia de ir a um bloco na Lapa. Por causa da Lei Seca, estava cheio de muita gente muito bêbada e eu, inda sóbria, fiquei quietinha num canto que me pareceu mais tranquilo. Mas uma bêbada que não estava se segurando em nada caiu em cima de mim e, quando reclamei, começou a me xingar de branquinha, branquela, gringuinha. Segundo ela, se eu não queria que ela me pisasse, eu devia sair do metrô e ir de táxi, que ali era lugar só de gente de cor.
Xinguei ela de racista e mudei de lugar para não bater nela, que era o que ela queria. Mas por duas estações, ela continuou gritando os mesmos insultos, com algumas variações, enquanto algumas pessoas zombavam da cara dela e outras começavam uma batucada (??). Minhas pernas ficaram bambas de tanta adrenalina inútil, saí me escorando pela Lapa.
Maldita Lei Seca. Antigamente, os bêbados se imprensavam em um carro e, frequentemente, morriam por justa causa; hoje, andam de metrô e preservam suas preciosas vidas para expressar suas lindas opiniões.

Ah, não sem antes recomendar o Stuff white people like (que pelo menos cuida de ser engraçado e não apenas idiota).

22.2.09

RYKAH: Ibiza só para mim

800m2 de house music para mim, os garçons e os seguranças. Duas horas depois apontou a primeira patricinha. Dali a pouco, o lugar estava tomado de clones da primeira e de pitboys que enjoaram de axé. Vi uma menina que estudou comigo na 2a série. Ela parecia ter pelo menos 30 anos, talvez seja a maquiagem - sorry, acabei de fazer 26 e noto essas coisas. Vi outra patricinha virar o pé numa dobra do carpete e espalhar gelo pelo saguão inteiro. O primeiro socorro da noite, surpreendentemente, não foi por coma alcoólico.
O figurino patricesco e a música eletrônica não combinam. A roupa tem que ser: cabelo preso sem tocar no pescoço, short, blusa cavada atrás para respirar, Off nas pernas, tênis confortável. O exato oposto de tudo que as patricinhas usam.
Gostei dos DJs brasileiros que entraram antes da atração principal, mas Gui Boratto, motivo para eu estar lá, superou minhas melhores expectativas. Senti como se estivesse presenciando o primeiro show da bossa nova, ou a estreia de uma ópera de Wagner. Porque o som de Gui Boratto sabe ser intimista e também grandioso. Some kind of magic.
Talvez nem o Radiohead supere essa sensação -- bem, talvez se puxarem o som para a eletrônica --, e que bom, porque paguei o mesmo assalto pelos dois.
"Você é a única menina aqui que realmente sabe o que é eletrônica! A única!" me disse a bilheteira. Eu já sabia disso, mas agradeci a observação. Ela explicou que também era raver, mas estava trabalhando ali para saldar uma dívida. É a crise, a crise. Desejei-lhe boa sorte.

11.2.09

Isso ia entrar no final do livro, mas não entrou. Enjoy.

Observações paraliterárias

Mousmé - Conto japonês - O diálogo entre a menina e o vendedor ocorreu realmente, num sebo já extinto. O curioso é que eu nunca tinha lido Mishima, embora soubesse quem ele era. Inseri o diálogo num conto já começado e ele desabrochou magicamente. Quando terminei a versão preliminar para enviá-lo para a seleção da Petrobras, pensei que pegaria bem ter lido Yukio Mishima. Comprei dois livros seus em sebos e, embora “Confissões de uma máscara” fosse mais falado, comecei por “O templo do pavilhão dourado” – que forneceu a epígrafe para este meu “Conto japonês”. Mas a principal inspiração para esse conto foram todos os mangás (quadrinhos japoneses) que li.
Herói foi uma encomenda da Editora Azougue para uma coletânea de contos eróticos. O voyeurismo de Darel foi inspirado pelo “aquário” que é a sede da editora (edifício Odeon, Cinelândia).
Composição é uma volta ao shopping pelo ângulo de quem trabalha lá (contraposto ao de quem consome). A idéia surgiu numa visita a um shopping paulista (na verdade, a vários).
Segundo andar - A gradativa aglomeração de clínicas e empresas foi tornando a rua Dona Mariana menos e menos segura, pela falta de porteiros e pedestres no fim-de-semana. Imaginei a história “em reverso”, juntando pedaços de coisas observadas em todas as adoráveis transversais do bairro de Botafogo com pedaços de várias fábulas.
Tabu surgiu com a costura de várias experiências como pesquisadora, inclusive na Biblioteca Nacional. Aproveito para agradecer ao Jorge, da seção de Periódicos, pela força.
Elidu – Vi a cena da menina empurrando a cadeira de rodas da avó desmontada e imaginei o resto. Li alguns livros sobre tráfico de mulheres enquanto escrevia o final, como O ano em que trafiquei mulheres, de Antonio Salas.
O último dia – O fechamento de um colégio onde estudei, em 2002.
Wifi – A idéia mesmo surgiu depois de tentar um concurso público e de assistir algumas reportagens na TV sobre como o brasileiro era criativo em matéria de burlar a lei para obter vantagens pessoais. Já com o conto encaminhado, por acaso assisti a uma montagem do balé Coppélia (por sua vez inspirado no conto Der Sandmann de Hoffmann, que eu nunca li). O final foi inspirado por um sonho em que um robô saía do prédio da MTV e dizia: "Quero entregar minha alma a satã. Preciso fazer sexo com um cartão de crédito".

5.2.09

Um dia cheio de calamidades (não foi hoje) - prejuízos, gatos doentes, até roupa nova preferida rasgando - culminou no seguinte:
Atrasada para a dança do ventre, eu andava pela rua já anoitecida, mas ainda quente, com o ipod nos ouvidos. Estava tocando There there do Radiohead, naquela hora em que começa o crescendo. Quando cheguei na porta da academia, o lugar - puf - ficou às escuras. Esperei os responsáveis mexerem nos disjuntores, observei as pessoas da aula de tango vagando morosamente pela sala mal-iluminada pela luz do poste. Nada aconteceu, e continuei meu caminho - ainda tinha outro compromisso ali perto.

Alguém me disse que se o dia começar a dar muito errado, é melhor voltar para a casa -- senão para a cama -- e desistir da partida. Amanhã, começar de novo, claro.
Costurei o short, mediquei o gato e comecei de novo no dia seguinte. Mas está sendo um mês muito esquisito de forma geral. Felizmente nem tantos azares, mas muita coisa fora do padrão.

3.2.09

amostra do amostragem (não resisti)

Meu livro novo, Amostragem complexa, já está à venda no site da editora, mas segundo eles, já está sendo despachando para livrarias. Custa 34 reais e tem 148 páginas.
Se você ainda não sabe se vai comprar, a amostra grátis do livro (3 contos na íntegra) pode te ajudar a se decidir.

31.1.09

I'm not a juvenile delinquent

Agora estão vendendo estampas falso-Burberry no Brasil, especialmente em shorts e bermudas femininas. Eu mesma comprei uma, para só depois me dar conta que estava me vestindo como a fucking chav.
O chav é o equivalente inglês do nosso playsson. Jovens de baixa renda cheios de gírias miguxentas, correntes de ouro e agasalhos esportivos. É uma estranha mistura da cultura hip-hop com o quadriculado inglês. A namorada do chav, a chavette, não costuma usar quadriculado; faz um gênero mais cachorra Cenoura & Bronze. O problema, claro, não está na maneira como se vestem -- embora seja esteticamente deplorável --, mas na bebida, fumo, gravidez e delinquência precoces.
É uma pena, porque notei a Burberry, loja inglesa que fabrica os mais conceituados (e caros) tecidos quadriculados, meio desprezada pelos bons cidadãos britânicos por causa disso. Parece que até parou de fabricar o seu boné quadriculado quando descobriu que a escória os estava comprando.
Aqui, felizmente, não tem essa conotação. Mas o chavism fica na minha cabeça, e toda vez que vejo alguém usando quadriculado fico achando que a pessoa vai vomitar em cima de mim, sei lá. Depois me dou conta que o pior é terem trazido para cá a moda dos delinquentes juvenis ingleses -- e nem a das meninas, mas a dos meninos. Tudo bem. É só ninguém espalhar a notícia.



Do cordão de ouro, quero distância.

30.1.09

Quando li O apanhador no campo de centeio no Ensino Médio, eu tinha uma amiga, Stella, que ficava me dizendo que aquilo era livro de psicopata – que vários serial killers americanos eram leitores fiéis do Salinger. Obviamente ela estava de sacanagem (nerds sacaneiam também), mas o pior é que procedia. Toda pessoa com dificuldade de conexão emocional, de empatia, como o psicopata e o esquizóide, vai tentar racionalizá-la para ver se sente alguma coisa, se se conecta de alguma forma com o mundo, antes de explodir. É por isso que o Salinger faz sucesso nesse nicho. O Salinger também é putinha do zen, dessas coisas japonesas todas. Mas, nele, o zen entra não tanto na parte estóica, mas na parte de manter altos padrões e sentir raiva, nojo e distanciamento de um mundo decadente.
Agora que eu assisti duas temporadas completas do seriado Dexter, sobre um psicopata que decide "limpar o mundo" dos que escapam à justiça convencional, eu lembrei muito do Salinger. E tem dois contos do Amostragem complexa, meu livro novo, que ficaram com a cara do Salinger (embora ele não fosse uma influência oficial). O primeiro conto é o Mousmé - Conto japonês, que toma emprestado motivos zen e tem uma protagonista desassociada do mundo. Além disso, se passa numa escola.

Mousmé: "Você, fineza, começa a se vacinar com o próprio veneno. Tudo é moldado como uma grande piada. Você contraria totalmente as pessoas sem antagonizá-las. Elas te adoram, e você as controla com mãos indolentes. Como um serial killer de filme americano, você espera ser pego. Mas a polícia sempre está um passo atrás. Você começa a fazer indiretas mais diretas. O povo tristemente começa a ensaiar uma revolta, e você tristemente sabe como contornar a situação. Você considera a sério o errar de propósito – mas não existe a menor graça sem o risco cego. Então surge o desespero de tudo aquilo desperdiçado."


E o segundo conto é o Tão bonito que dói que tem uma espécie de Holden psicopata como protagonista.

“Estou no terceiro cigarro da noite e ainda não vi ninguém que preste. Circulo, dou uma volta pelo primeiro andar, acabo pedindo alguma coisa do bar.
Há uma menina maquiada como uma boneca e metida em uma blusa cheia de babadinhos, toda branquela e acompanhada. A biba amiga dela saltita até o DJ que resmunga ao ouvir o pedido por Kraftwerk: vou ver.
Algum rock depois, o DJ aquiesce a tocar The model modificada, com uma base de guitarra emprestada do Garbage. É o tom. Me aproximo do braço da lolita gótica com o cigarro aceso. Fsst. As células se degeneram sob a brasa. Logo se formará uma bolha. Não, esperem: ela percebeu; esfregou. Assim fica marca.
Ela olha pro braço e olha pra mim. Olha pro braço. Pra mim.
– Porra, toma cuidado!
Só isso. Os olhos assassinos demoram um pouco para desgrudarem de mim; vejo que ela captou o propósito – eu parado na frente dela, não com cara de desculpas, não submisso e bêbado, mas sóbrio, sonso e segurando o cigarro no mesmo lugar do contato incendiário – só que não quer se perder nessa. Prefere sua vidinha de simulacro. Mas está marcada.”


Mousmé era para ser o conto influenciado pelo Mishima. E Tão bonito que dói (também conhecido como "conto do Clóvis", de que falo nesse vídeo) é, como bem me lembrou o Ismar, influenciado pelo conto Dentro da noite, de João do Rio – melhor dizendo, é quase uma releitura.
interpretação de letras de música

- O Mestre e Margarita, de Mikhail Bulgakov, se tornou um clássico instantâneo pra mim quando o li. Acabo de descobrir que Love and destroy, uma das minhas músicas preferidas do Franz Ferdinand, é uma homenagem à Margarita (mais exatamente, ao meu capítulo preferido, em que ela vira bruxa e sai destruindo os imbecis de Moscou que atacavam seu amante, o Mestre). E acho que passa bem o clima do capítulo.

I'm so free as I'm naked
Shining silver under the moon
I’m high above the Moscowites' sky
I'm gonna rip, rip, I'll never sleep
(...)
I'm so free as I meet you
Welcoming black, your the Queen of the ball
It's dark beneath the Moscowite' sky
But you give, you give me it all
I'm here with you at midnight

(...)

Tenho essa tendência a gostar muito de músicas que, mais tarde, percebo que fazem referência a livros. Foi assim com Style, do Orbital, cujo clipe faz referências a Metamorfose, do Kafka.


- E outro dia descobri que uma das minhas músicas preferidas do U.N.K.L.E., Nursery rhyme/Breather, é narrada em primeira pessoa por um feto que sente quando a mãe faz sexo. Não, não tô de sacanagem. Sabendo disso, não tem como não achar a música meio nojenta:

Does it mean I never let you know
Each time I turn inside
When I fully grown I’ll outsize you
But I won’t let you fall in love
You know it flows over me
And you won’t let me drown inside

Sing a nursery rhyme to keep me quiet
Sing a nursery rhyme to keep me quiet
Woman please stay close to me, close to me
Carried through your ecstasy

(...)
I have to breathe the air you breathe
I’m inside you
In a room inside a room, I’m inside you
The colour changes follow your emotion
I can see when you’re feeling desire
I feel him close to you

While I just walk around inside you
Don’t let him close to me
Not when you know it’s not the one
The one (x6) that you love
(...)


Como descobri isso? Sei lá, de repente dei pra prestar atenção em letras de música e ter insights.

28.1.09

muuu

Qual é a ideia por trás de chamar alguém de "vaca sagrada da literatura"? Muitas vezes acho que o autor do artigo quer apenas glorificar a pessoa, dizer que ela é um dos expoentes de determinado movimento literário.
Mas eu sempre leio "vaca" de forma ambígua. Quer dizer, na Índia a vaca é sagrada, mas os ocidentais costumam se referir a isso não só como excentricidade mas também como um grande estorvo -- "quando a vaca resolve empacar no meio da rua, ninguém pode tirá-la de lá". Eu acho que determinadas vacas sagradas da literatura (e de muitas outras artes) já pararam de dar leite há muito tempo e estão empacadas no meio da rua, fazendo pilhas de cocô fumegante, e ninguém pode sequer tocar nelas.
Tem outra também: fulano é um monstro (sagrado) da literatura. Sagrado ou não, cadê o Teseu, gente?

27.1.09


sóisso

25.1.09

trick or treat?


O primeiro livro que tirei da caixa veio em formato mangá. Que graça.



Como foi feito via Lei Rouanet, o Amostragem complexa tem que ter uma "contrapartida cultural". No caso, 10% da tiragem do livro é para ser distribuída de graça. Tenho que enviar dois para cada biblioteca central de cada um dos 27 estados brasileiros, um para a Casa de Ruy Barbosa e o resto para a Biblioteca Nacional.
Assim que os livros chegaram aqui, portanto, me muni de envelopes, etiquetas, fita adesiva e pilot para começar a labuta. Me senti embrulhando saquinhos de Cosme & Damião. Também me senti mãe encapando os cadernos dos filhos.

Embora as instruções não pedissem isso, colei um avisozinho dentro de cada um: é pra distribuição cultural, viu (não com essa redação, claro). O livro ficou tão bonito, que é capaz de quererem levar para casa - me chama de paranoica depois do escândalo das doações a Santa Catarina.



(P.S.: Deve demorar um pouco para você poder retirar o Amostragem complexa na biblioteca do seu estado devido a burocracias mil. A paciência é uma virtude.)

17.1.09


A capa do Amostragem complexa, com foto minha. (Esse efeito luminoso não é truque de Photoshop, não.)
O lançamento no Rio vai ser dia 16 de fevereiro. Já, já dou mais informações.

16.1.09

Tentando achar meu próprio perfil num desses sites de relacionamento para dar a uma amiga, dei de cara com essa entrevista dada nos idos de 2007 e publicada ontem (com uma foto de 2008) no Portal Literal.
Eu estava meio sem noção nessa época. Extremamente sincera.

Trechinhos:

"O Jornalismo contribuiu porque foi um curso tão, mas tão picareta, que jamais atrapalhou os meus estudos. Em Produção Editorial eu senti que realmente aprendi alguma coisa; agora penso no livro também como objeto vendável e estético, me interesso por diagramação, capas bem-cuidadas, políticas de fomento à leitura, questões de distribuição etc. Não sou mais alienada, que droga."

"Aos sete anos, li os romances de banca que minha mãe lia. Achei-os muito ruins e decidi escrever um melhor. Não queria que a minha mãe lesse aquela porcaria, queria que ela lesse coisas boas (e era convencida o suficiente para acreditar que conseguiria fazer melhor)."

"Mas há pessoas por aí que valem a pena, com as quais pretendo me comunicar. Não são as pessoas mais afáveis, nem são as que entram em contato, nem as que me elogiam e recomendam. O livro é como se fosse um bilhete secreto para elas – um que não precisa ser respondido, mas é muito bem-vindo. É uma confirmação de que não estamos sozinhos. É também um leve peteleco evolutivo, um instrumento para pensar e acelerar coisas que acontecem e estão prestes a acontecer."

"Há sim certo fio condutor perpassando tudo até agora: a maldade."

"E não saia mandando originais não-solicitados às pessoas: escritores, editores, o que seja. Não seja um operador de telemarketing."

7.1.09

perfidia

Houve época em que eu andava almoçando no único restaurante a quilo de Botafogo que ficava aberto após as três horas da tarde, o Atrium. O Atrium fica na Rua 19 de fevereiro, a rua onde passei a infância, e onde hoje existe uma ou duas creches/pré-escolas. Todo dia, depois de acordar, trabalhar e bater a fome, eu montava na bicicleta e pedalava até o Atrium, passando pelo Aleph (Botafogo tem um Aleph). Eu amarrava a minha bicicleta sempre no mesmo poste, o de uma placa que, se não me engano, proibia estacionar daquele lado da rua antes das 7 da noite, algo que ninguém respeitava. Eu almoçava macarrão velho e feijão ressecado e depois voltava para tirar a bicicleta do poste. Tinha sempre um sujeito dentro do carro estacionado ao lado da placa. Ele me assustava, olhasse para mim ou não. Era um quarentão magro, tostado de sol, com a barba mal-feita ou de um dia e camisa social: cara de alemão-caboclo. Quando ele virou para me olhar demonstrou olhos verdes – não doces e poéticos: os olhos verdes mais frios que eu já vi. Às vezes ele olhava para trás, reparando na minha presença, às vezes não; mas logo ele voltava a olhar para frente. Toda a sua atenção estava numa casa do lado oposto da rua, onde se viam e ouviam crianças brincando. Olhando o relógio, me ocorreu que o recreio delas, como o meu, provavelmente começaria às 15:15 da tarde, e por isso elas, eu e o alemão-caboclo nos víamos ali toda tarde àquela hora, 15:30.
O homem estava espreitando aquelas crianças por algum motivo, e digo que meus instintos disseram que era por maus motivos.
Percebi também que todas as outras creches, pré-escolares e casas de festas de Botafogo haviam tirado suas crianças da vista com muros altos e outros artifícios. Aquela era a última que permitia a visão de suas crianças se divertindo.
Apesar de perceber essas coisas, eu não dou pra detetive, porque sou muito notada – detetives têm que ser invisíveis. Mas depois de um tempo, parei de ver o homem naquele lugar, e gosto de pensar que fui eu que o espantei.

6.1.09

Dois drops

- O Coisas frágeis, do Neil Gaiman, foi lido em 24 horas aqui em casa. Por duas pessoas.
O Gaiman é um imitador -- você vai identificar nos textos elementos de outros autores (Lovecraft, Roald Dahl) misturados às obsessões dele próprio, que vão de cistos na cara a coisas abstratas antropomorfizadas, e que você descobre lendo as outras coisas dele. Mas a forma dahliana como ele perverte a literatura infantil inglesa em O problema de Susan me pareceu simplesmente genial. Outros contos que valem muito a pena são Lembranças e tesouros e Os fatos no caso da partida da senhorita Finch. Talvez não coincidentemente, contos em que o autor abandona um pouco a fofice e a espoletice adolescente que permeiam bastante da sua obra. Mais ou menos como se a Mallu Magalhães resolvesse fazer um cover do Slayer.
Ah, o casal que aparece no conto da srta. Finch existe de verdade. É aquele que se casa no Japanorama.

- Words of tranquility, do Koop, me lembra Beowulf. Pior que só vi o filme, mas fui ver com alguém que tinha lido o livro. Minha desculpa atual é que prefiro ler Beowulf no original e, para isso, preciso aprender inglês arcaico.

26.12.08

add puppets!

True Blood não é o melhor seriado já feito, e implico com a Anna Paquin (especialmente loura), mas me fez passar um bom feriado chuvoso.

Então me veio a luz: True Blood é um Ó paí ó que deu certo. Quer dizer: locação exótica com sotaque divertido, fauna e clima diferentes da "norma", sincretismo religioso, elenco multi-racial, o elenco jovem com um ar levemente (ou fortemente) periguete... pode ver, a própria abertura de True Blood explora esses aspectos.

A grande diferença para Ó paí ó é que True blood tem vampiros. Teorizo que se Ó paí ó tivesse vampiros teria bombado também. O Lázaro Ramos deles também é mais bonito e menos alto-astral:
(Menos alto-astral é eufemismo. Eu expliquei essa personagem para alguém como um Dr. House mulher e black.)

De qualquer forma, sinto falta da conjunção astral maravilhosa que permitiu o surgimento de Vamp na minha infância. Vamp e Que rei sou eu? (capa-e-espada é legal). Não sei o que impede a TV brasileira de investir mais nesse tipo de... ah é, já lembrei.
corte de custos

JP: do globo online: Crie você um final para Flora em 'A favorita'. Brinque de novelista e escreva um fim para a grande megera. Os melhores textos serão publicados na Revista da TV do GLOBO. Clique e participe.
eu: tão cada vez mais preguiçosos!
JP: sim!
eu: não querem nem escrever o final da novela
nem fazer a retrospectiva 2008
nem fazer a mensagem de fim de ano
nem apurar matéria...
jornalismo escravo
viva a era google!
JP: e olha a "notícia" de cultura: Lindsay Lohan diz que o pai traiu a mãe
eu: uauuu
super cultural
cara, cria uma editoria "famosos"
mas não chama isso de cultura, por favor
JP: pois é
mas tá lá, "Cultura"
dá impressão q nao tem nada cultural acontecendo no mundo e tiveram q apelar pra isso

Se bem que postar pedaço de conversa online no blog também é uma baita picaretagem. Mas já já vou fazer um post melhor. Pelo menos não mando vocês participarem... ops, não é que mandei faz só uns dias? É, geral pro fogo e enxofre, que coisa.

23.12.08

Fiquem com os trechos de cada um dos contos do Amostragem complexa. A propósito, tenho que liberar uns quatro desses para se ler de graça na internet (além do Elidu, que pode ser lido grátis na Coleção MOJO). Quem quiser, pode me ajudar a fazer a escolha. Basta enviar um e-mail dizendo quais os contos que, pelos trechos abaixo, mais despertaram a sua curiosidade.
E feliz Natal, Ano Novo e essas coisas.

Mousmé (conto japonês)

Você lê história e alguns livros e já sabe como fazer tudo certo. Não cair na lábia de canalhas com Anna Karenina, não emprestar nem tomar emprestado com Shakespeare, não ser totalitário com Orwell e assim por diante. Só que iluminismo não adianta se todos correm de volta pro escuro.
Você sabe as coisas sem ter, ao menos uma vez, pensado que sabia. Você não consegue nem começar a pensar em se entregar à doce burrice. Lucidez férrea é puro horror.

Herói

Então. Vou fazer 30 anos. A idade das festas passou. Cansado do apogeu dos egos após a oitava tulipa, de pegar casal recém-formado transando no banheiro, do mal-estar na hora de fechar a conta porque ninguém lembrou de deixar os 10%, esse ano só quero me enfurnar em algum canto bem distante da civilização com todo o conforto que a civilização pode oferecer. E Raquel.

Senhora, Senhorita

Nem tinha lhe passado pela cabeça a possibilidade de não usar porta-seios, mas agora via que podia. Todas estavam à l'aise e seus próprios seios estavam se portando sozinhos. De novo.
Desceu a escadaria do metrô sorrindo. Passinhos que só lépidos; água descendo a cachoeira. As mãozinhas, em suspenso. As pessoas se viravam para olhá-la, uma mulher sorriu como quem acata a piada. E a nova moça sorria por dentro ao pensar que as pessoas pensavam que ela se vestia retrô.

Composição

Perlac era uma loja direcionada para clientes impossíveis. Zee, consciente da missão, afofava perucas escuras sobre a cabeça gessal das manecas – uma mel, uma café, outra preto-graúna, um quase-ruivo acolá – mas imaginando e sabendo que as verdadeiras clientes da Perlac estariam mais para quarentonas de 1,62m com cortes médios desidratados do que para andróides chanéis magras e frias.

Ao cubo

Sozinhos um com o outro, impressionava sua intimidade impessoal. Um para cada lado do sofá, olhos na TV, no meio as mãos, uma sobre a outra. Um no computador outro na lavanderia, um na biblioteca outro jantando.
O nome da doença era esquizoidia. Odiavam socializar. Iam em festas por causa da música. Melhor se fossem festas propensas ao fracasso, com menor probabilidade de cotovelos cutucantes.

Segundo andar

Quando saía com Olívia, tinha que explicar sua mágica. Como vivia sem emprego e sem bolsa? Como comprava seus discos e livros com salário mínimo? Como pedia comida em casa?
– Quem disse que não dá para viver com salário mínimo? – redarguia Susana.
(Estava certo. Susana ganhava dois salários mínimos.)
Vinte e dois reais de condomínio (desconto do síndico). Dezoito reais de gás. Celular pré-pago. 70 reais de luz. A água do prédio, 100 reais. Plano de saúde jovem, 80 reais. Transporte, 80 reais. Sobrava um estipêndio para comida, roupas e despesas acessórias. Comia até chocolate.
Eu sou uma dona-de-prédio.

Sexo em Anegue

Eu queria mesmo era poder entrar em outra pessoa e espiar o que elas estão sentindo sobre elas mesmas. Porque aqui dentro eu já sei como é; e também já consigo sair e me ver como elas me vêem. Mas queria saber como elas se vêem, de verdade, por dentro. Saber se elas também se sentem tão mal assim quando pensam em si mesmas e, se sim, como conseguem disfarçar e levantar a cada dia e ir trabalhar, ou estudar, ou pelo menos andar pela rua sem que ninguém pense: lá vai a coisa toda errada. Assim pelo menos eu não me sentiria sozinha.

Tabu

A Biblioteca Nacional nunca tinha ouvido falar daquele veículo – nem os milhares de contatos do professor Sobral. Mas conforme alvitrado por George Sable, o artigo existia. E estava nas mãos dela. Apenas Maiara não conseguia decifrar o texto – excesso de tinta, tipo pequeno, vista um pouco cansada, vai ver, ficando míope; a luz das quatro horas era pouca e caía morta sobre o carpete climatizado, bem longe das pernas congeladas de Maiara. Congeladas mesmo: nenhuma das duas parecia capaz de se mexer. Excesso de concentração. Não – câimbra. Não. A ordem para mexer a perna fora dada e ela não sentia movimento.
– O que está acontecendo, pensou sem inflexão
Olhou para baixo. É claro que sentia frio com aquela sucuri enovelada até o joelho. Sentiu-a deslizar, garantindo o nó. Quase um conforto.

Elidu

Naquela noite, com aquela disposição de despedida, até o lugar de sempre era palatável.
O corpo de Sil não descia até o chão como mandava a música. A dona dele tinha decidido poupar as costas para o dia seguinte, poltrona de avião. Ondeava o corpo de um jeito que sabia desde a puberdade e sempre impressionava as amigas.
– Cê tomou a droga errada... tá dançando igual lacraia.
Silvânia virou-se para ver quem falava.
– É verdade que você vai embora? – pergunta ele em seguida.
Frida, sua filha da puta.

O último dia

Em uma das salas, alguém pediu uma folha em branco para desenhar. A professora foi até o armário e mandou que pegassem uma e passassem adiante. E assim foi feito, até a vez da Ana Paula. Ana Paula pegou mais de uma, escondendo mas nem tanto, e esperou a professora notar; ela notou e deixou cair os braços. Olhou para o armário e olhou para Ana Paula. Olhou para o armário de novo e para Ana Paula de novo. Suspirou. As provas já tinham acabado, não?
Dos armários do fundo da classe emergiram papel crepom, massinha e cartolina. Pilhas de cartolina de todas as cores (menos da vermelha, da qual por algum motivo as professoras gostavam tanto) foram rapidamente desbaratadas. Isso as outras filiais não haveriam de herdar.

Tão bonito que dói

Estou no terceiro cigarro da noite e ainda não vi ninguém que preste. Circulo, dou uma volta pelo primeiro andar, acabo pedindo alguma coisa do bar.
Há uma menina maquiada como uma boneca e metida em uma blusa cheia de babadinhos, toda branquela e acompanhada. A biba amiga dela saltita até o DJ que resmunga ao ouvir o pedido por Kraftwerk: vou ver.
Algum rock depois, o DJ aquiesce a tocar The model modificada, com uma base de guitarra emprestada do Garbage. É o tom. Me aproximo do braço da lolita gótica com o cigarro aceso. Fsst. As células se degeneram sob a brasa. Logo se formará uma bolha. Não, esperem: ela percebeu; esfregou. Assim fica marca.
Ela olha pro braço e olha pra mim. Olha pro braço. Pra mim.
– Porra, toma cuidado!
Só isso. Os olhos assassinos demoram um pouco para desgrudarem de mim; vejo que ela captou o propósito – eu parado na frente dela, não com cara de desculpas, não submisso e bêbado, mas sóbrio, sonso e segurando o cigarro no mesmo lugar do contato incendiário – só que não quer se perder nessa. Prefere sua vidinha de simulacro. Mas está marcada.

Wifi

Lia não deveria ser anunciada em qualquer biboca. Precisava de um canal exclusivo, de um boca-a-boca sagaz. Sabia exatamente quem devia procurar, mas relutou muito em fazê-lo. Afinal, o cara era um crápula. Um crápula engenhoso e conhecido no mercado. Mexia com a fila de transplantes, repassando fígados e córneas para gente que podia pagar. Relativizou a si e a ele até se aproximarem o suficiente para uma conversa ser marcada. Foi difícil convencê-lo a vir. Teve de abdicar de algumas precauções a que se propusera antes, como a de não mencionar do que se tratava ao telefone. Mas também não entregou o ouro; disse apenas que
– É um método infalível para fazer qualquer ameba passar em concurso.
– Infalível. – replicou o interlocutor, cético.
– Como a justiça divina, Jacques.
Uma pausa de efeito. Ou talvez Jacques estivesse fazendo outra coisa ao mesmo tempo.
– Vai falando.
– Vamos grampear o concurso.
– É fácil falar.
– O grampo estará num candidato.
– Da mesma forma.
– Jacques, o grampo vai ser o candidato.
– ?
– Mas preciso de documentos para ela.
– Ela?
– Ela.

19.12.08

inveja afro-brasileirinha

Cacete, por que as invejas que as pessoas admitem sempre são brancas? Que preconceito com as invejas de cor -- amarelo bile, por exemplo.
A máxima de que o brasileiro só se sente invejado, nunca inveja, parecia ser verdade na minha vida até a quarta série, quando tirar 10 sem esforço era status. Eu não entendia as hostilidades de algumas das minhas coleguinhas. As pessoas que gostavam de mim, pequenas e grandes, me explicaram: era inveja. Mas de quê? Dessa besteira?, eu pensava.
Ao mesmo tempo, como já falei por aqui, eu queria dominar o mundo, um sonho que -- explicitamente -- só durou até os sete anos. Para isso, era necessário ser mais inteligente do que os outros, mas nem sempre eu era. Cada vez que alguém tirava uma nota maior que a minha, eu morria de ódio (inveja nem tanto) porque estava mais longe da world domination. Por fim, quando percebi que minha inteligência analítica era nula (não sei nem multiplicar por dois de cabeça, agora que estou destreinada), desisti de dominar o mundo -- pelo menos sozinha.
Mas voltando à vaca fria, inveja branca se aplica bem àqueles momentos em que você lê um trecho do sujeito e gosta tanto que deseja ter escrito aquilo. Mas quando você começa a desejar que pudesse voltar no tempo, trucidar o sujeito e roubar seu original (ou publicar antes dele, processando-o depois por plágio), essa inveja não é mais branca, certo?
De minha parte, quando leio um trecho muito bom, não sinto nada parecido com inveja. Me sinto irmã do autor. Me sinto encontrada.
Inveja sinto muita, e nada branca, de quem não precisa trabalhar. Queria demais não precisar fazer oito horas de tradução por dia para me dedicar só a escrever. Foi muito bom o ano da Petrobolsa, a coisa mais próxima que terei disso antes de virar medalhão.

8.12.08

Top 5 desafios europeus (d'après Indigo e suas listas)

5 - Peça sorvete de coco na França sem rir:
-- nuá de cocô, sivuplé.
4 - Diga que é do Brasil sem arrancar um "OH! BRAZIL???" de seu interlocutor.
3 - Tente ficar na rua em Edimburgo depois das 7 sem cachecol.
2 - Explique a favela carioca em menos de 100 palavras.
1 - Tente atravessar Dublin sem encontrar um brasileiro.

3.12.08

Escape artist

Não ando muito a fim de pontificar -- deve ser efeito da tradução que ando fazendo. Basta dizer que, na crise, as pessoas se voltam para a religião -- inclusive os tradutores.
Estou em crise também. Reavaliando uma porção de coisas. Mas é só coincidência, a crise dos mercados mundiais não me excita nem me deprime (não tenho mais 14 anos).
E aqui entra a parte onde eu diria que isso se reflete no meu livro novo, mas disso vocês já sabem. Fidelidade à mensagem e ao fato de eu querer que ela atravesse o abismo até o outro lado -- o do leitor. É o tipo de pessoa que eu sou.
Nem sei se é mensagem, porque não é ficção moral (e, se for, não é a minha moral). É só um tédio de ter sido condenada a ficar na minha pele para todo sempre -- ou melhor, até virar comidinha de minhoca. É uma forma de escapismo. Uns têm o sexo; outros, a bebida; eu tenho a imaginação.
A mágica toda reside em organizar essa imaginação como ficção, porque eu poderia perfeitamente usá-la para jogar RPG, por exemplo. Justapor não é o suficiente. No momento estou achando necessária a ilusão de um fio que amarra a história dando um sentido ou uma falta de sentido linda. Estou bem estética.
Esse fio é necessário para cercear os personagens, delineá-los, defini-los. Paradoxalmente, delimitá-los lhes dá vida. Se pudessem ser todo mundo, não seriam ninguém.
Mas paradoxalmente de novo, quando eles ganham vida, a primeira coisa que fazem é escapar desse fio!
Exatamente como eu.

29.11.08

Sinopses

São 12 os contos do Amostragem complexa, meu próximo livro (deve sair em fevereiro de 2009). Seguem na ordem pretendida (não sei se vão mudar) com sinopses feito as que se vêem nos filmes da semana:

01 – Mousmé (conto japonês)

Iniciada nas armadilhas da vida de forma teórica e inexorável, colegial busca motivos para cair nelas mesmo assim.

02 – Herói

Rapaz incorre em passatempo voyeurístico de baixa tecnologia por não poder acessar sites pornô a partir do local de trabalho.

03 – Senhora, senhorita

Uma senhora de 72 anos rejuvenesce e retoma a revolução sexual de onde tinha parado.

04 – Composição

Um dia de trabalho de um vitrinista num shopping.

05 – Ao cubo

Pequeno estudo de estranhos hábitos de acasalamento.

06 – Segundo andar

Moça desempregada teima em não vender o apartamento a uma clínica plástica que precisa de ampliação mesmo quando todos os seus vizinhos já venderam.

07 – Sexo em Anegue

Moça com pouca auto-estima busca maneiras de virar gente.

08 – Tabu

Estagiária faz o trabalho sujo da pesquisa para a biografia de um figurão das letras nacionais.

09 – Elidu

Moça desesperada para mudar de vida foge de casa com um plano radical na cabeça.

10 – O último dia

Quadro vivo mostrando o último dia de atividade de um colégio.

11 – Tão bonito que dói

Rapaz procura organizar o mundo em sua cabeça enquanto pratica metodicamente seu vício incomum.

12 – Wifi

Cientista brasileiro usa sua fantástica invenção não-registrada para fraudar concursos públicos.

25.11.08

Se isso não fizer a pirralhada ler Machado, não sei o que vai fazer.

Capitu teaser na íntegra high quality


Àqueles que notarem a estranheza da "reconstituição de época": é pra ser atemporal.
E o ator que faz o Bentinho jovem é meu primo Cesar! (Ok, nepotismo, mas poxa, parece que vai ser bem legal). Pior que nem é o primeiro personagem icônico da literatura nacional que ele encara (ele estreou na TV como o Pedrinho do Sítio do Picapau Amarelo). Admiro muito ele.

14.11.08

É isso, gente. Acabei, entreguei, espero que saia logo. Enquanto isso vou tocando outros projetos e ganhando os cobres pra dezembro. Meu computador deu pau no dia de entregar o livro, mas dei a volta em Murphy salvando tudo direto no pendrive. Continuei a trabalhar do laptop e agora tá tudo direitinho com o computador principal -- muitos reais depois.
Agora tenho que decidir quais contos vão entrar aqui de graça. É isso mesmo, faz parte do contrato de patrocínio disponibilizar boa parte do livro em pdf na internet. Um já está online pela coleção Mojobooks: clique aqui pra baixá-lo. O resto, só mais perto do lançamento (previsto pro ano que vem, não se afobem).

(Alguém conhece uma ONG que aceite peças de computador? Estou com um monte aqui.)
(O conto abaixo foi solucionado ouvindo iPod no escuro e, literariamente, mais com a ajuda de Anaís Nin. Aliás, Uma espiã na casa do amor tem semelhanças com o meu A feia noite que não pude deixar de notar.)

7.11.08

Estou tentando alinhavar uma cena de comunicação não-verbal do meu "Conto africano". Quando escrevo, geralmente ponho as cartas na mesa através de diálogos, mas como fazer isso numa situação em que as pessoas são tão íntimas que não precisam de palavras? (e, céus, usando palavras para descrevê-lo!)
Resolvi dar uma olhada em Dostoiévski (Nietótchka). Tem cenas não-verbais muito boas, mas a maioria com beijos demais e -- principalmente -- se passam no decorrer de dias inteiros. A minha se passa em uma hora, se tanto.
Não sei mais de quem colar. Vou ter que dar um jeito sozinha -- se é que tendo lido tudo o que li nos últimos dias ainda posso ser considerada sozinha.

Ah, estou blipando também (é um troço de música, vai lá).

3.11.08

Pedi uns livros aqui. Sempre peço, mas notável é que o Coisas frágeis do Gaiman veio com um canto amassado, que irónico.

Fiquei assombrada ao ler esse trecho do Reparação:
Começou a correr num ritmo tranqüilo pela grama e pensou que seria capaz de continuar assim a noite inteira, cortando o ar sedoso como uma faca, impelida pelo impulso férreo do chão duro sob seus pés e pela escuridão que parecia duplicar a sensação de velocidade. Briony tinha sonhos em que corria assim, depois se inclinava para a frente, abria os braços e, confiando na fé -- a única parte difícil, mas dormindo era até fácil --, desprendia-se do chão com um simples passo, sobrevoava a baixa altura sebes, portões e telhados, depois ganhava altura, aproximando-se, exultante, da camada de nuvens, vendo os campos lá embaixo, e depois descia outra vez. Sentia agora de que modo isso seria possível, apenas com a força do desejo; o mundo que ela atravessava correndo a amava e lhe daria tudo que ela quisesse, e permitiria que isso acontecesse. E então, quando acontecesse, ela o descreveria. Pois escrever não era uma espécie de vôo, uma forma realizável de vôo da fantasia, da imaginação?
..porque, duh, essa era eu com doze anos. Mas havia o reverso da moeda. A sensação de que o universo viria me pegar depois para fazer a cobrança (repo man) do que tinha me cedido. Eu tinha essa sensação especialmente em noites muito estreladas no campo -- não tinha muito problema em sairmos ou mesmo em cairmos na piscina de noite, então eu saía só para me sentir perseguida e agorafóbica, que delícia -- ou na varanda do apartamento. Mas acho que Reparação vai chegar lá, até porque vi o filme.

Bônus: vídeo do What else is there - Royksopp. haunting.
Não sei se gosto mais de quando ela passa pela floresta ou de quando ela desvia o pezinho do cachorro. (Ver também: Dublin)

27.10.08

A mosca

Minha beleza exterior não tem nada a ver com minha beleza interior. Meu interior seria melhor expresso por um carinha de 35-40 anos num terno bem cortado, mas não almofadinha, com barba e bigode -- um vasto bigode. E não por uma menininha de 25 anos, etc.
O problema é que historicamente minhas duas faces nunca foram pareadas, não no mesmo corpo, e dá para se ter idéia dos motivos. (Não, não vou ser feminista.)
Esse interior quer observar, e não ser observado. Eu queria ser o olho que tudo vê, um ponto cego, algo quase invisível, sobre o qual quase nunca se volta o olhar, para ver sem ser vista. Uma she-creep. Uma testemunha. Mas oh, sina, eu sou um escritor e sua adorável esposa-troféu no mesmo corpo. Imaginem como os dois não devem se sentir.
Ser bonita devia ser uma coisa legal, e não chata, oras. Tenho que arrumar um marido-troféu, talvez. O risco seria perder a capacidade de observar as mulheres -- para levar uns beliscõezinhos invejosos, puxa, hein! vou escrever um livro também, hihihi.

26.10.08

desassociação

Ando freqüentando dois bairros a que não vou normalmente, Penha e Ipanema, este último por motivos médicos. Quando saí do consultório me lembrei que havia um ponto de ônibus naquele quarteirão e comecei a procurá-lo, para só depois me dar conta de que ele estaria, caso existisse, não na calçada em que eu o procurava mas na outra , a direita.
merda, não estou em Londres.
Percebi depois que pensei isso porque pouco antes, na sala de espera, eu tinha lido uma parte do Reparação que descrevia uma noite de verão especialmente quente, "daquelas que se espera durante o ano todo"; ocorreu-me que, céus, eu estava aqui, onde esse calor era normal. Corriqueiro. Na primavera.
Acho que preciso ir viver num lugar de clima temperado. Petrópolis ou Penedo?

PS: sobre o post abaixo, fiquei com revistar mesmo. No trecho em questão ficou legal.
PPS: Leiam Reparação - em português mesmo. A tradução (Paulo Henriques Britto) é muito muito boa.

23.10.08

Preciso urgentemente de um verbo que diga que alguém está "folheando" um livro. Quer dizer, não o folhear de ler descuidadamente, mas o de apertar de forma a passar as páginas rápido pra ver se cai alguma coisa. Pensei em "revistar" ou "flipar", mas ainda estou presa. Não venham me dizer que nossa língua é rica. No máximo, em desenvolvimento.

20.10.08

Estou tentando terminar meu livro e levar um mínimo de vida social, então perdoem a ausência. Eu volto.

11.10.08

back to basics

Andei em trens, usei cachecóis e trotei por calçadas não-rachadas por algum tempo, mas agora estou de volta. Sempre soube que até no melhor dos mundos existem detalhes desagradáveis, mas agora sei que terei que fazer o possível a partir daqui mesmo. Porque essa é a minha casa. Talvez eu mude de cidade ou estado para parir, mas ainda vai ser Brasil.

Ontem pus no papel (no GoogleDocs, na verdade) o final de um conto que, no presente estado, é páreo para o Conto Japonês, até então meu preferido. Não sei se chamo esse conto de Concurso ou Marionete.
Preciso trabalhar muito, pois quero ver o Amostragem complexa terminado até novembro.

Estou lendo um romance nacional recente medonho. É bom ler um romance ruim de vez em quando. Assim você sente alguma empatia para com o seu futuro leitor - você não vai querer que ninguém se sinta assim ao ler o seu livro. Se conseguir destrinchar o motivo da ruindade do livro, você pode tentar evitar os mesmos pecados do autor.
Minha escrita está num momento tão peculiar que nem sei como descrever. A viagem me ajudou a enxergar melhor o que estou fazendo, a ver o que funciona ou não e porquê.
Ao contrário do que se pensa, para sair da estrutura básica do texto é preciso mais rigor do que aquele necessário para continuar nela.
Algumas leituras recentes, umas ruins e outras boas, me ensinaram isso: não se pode costurar algumas cenas soltas de "coisas legais" e esperar que os críticos ou leitores enxerguem um sentido que nem você conseguiu ver. Se você nem isso espera, não pense que está sendo pós-moderno; tão somente preguiçoso ou sacaneando o seu leitor (a não ser que ele goste, o pervertido).

8.10.08

don't you just hate hippies

Nao conheci ninguem extraordinariamente legal durante minhas estadias em hostels. A razao disso e muito simples. Que europeus vao para os hostels? Aqueles que querem levar uma vida comunal com muitas drogas e poucos banhos, ou seja, hippies. Ou japoneses/chineses em grandes grupos, refratarios a aproximaçoes. Ou gente penniless (sem-um-tostao), como eu e os estudantes estrangeiros em inicio de semestre. De quem logo fiquei amiga, por serem os mais limpos do lugar. No hostel da Escocia, fiz duas amigas alemas, uma bangladeshi e um polones. No hostel irlandes fiquei amiga de uma suiça que viajava sozinha e a esmo, custeando a viagem com empregos temporarios.
Mas quantas vezes nao me exasperei? O americano que disse, olhando nos olhos da garota mais proxima, que se mudava para la (Irlanda) se o Obama nao ganhasse - enquanto lia um Terry Gilliam calculado para inpressionar. Oh, really? E meu queixo quase caiu com uma terceira alema, Alma; eu tentava demonstrar o quanto eram toscos meus tios-avos dizendo que eles nao acreditavam que o homem tivesse pisado na Lua - que era tudo montagem. Alma me fitou muito seria e declarou que tambem tinha la as suas duvidas. Uma conversa surreal se seguiu, com Alma tentando me provar por a + b que os americanos sujos haviam forjado tudo em estudio e eu tentando faze-la admitir pelo menos que, eventually, o homem tinha sim pisado na Lua (ela acabou admitindo, a contragosto).
Quer dizer, eu tambem implico com os americanos. Aquela pessoa mediazinha que tem orgulho de sua ignorancia e resiste a qualquer aprendizado, mesmo que ludico? Tinha uma na excursao aos castelos do Loire. O guia, respondendo a uma pergunta dela, mencionou que a altura da caixa d'agua influencia a pressao com que ela sai na torneira, e a toupeira interrompeu, rindo: "I don't care how the water gets in my faucet, as longs as it comes out". Oh, sua anta, this is not about you, tive que me conter para nao exclamar. Mas os freaks norte-americanos sao os melhores do mundo, os mais geniais; Crumb, Philip K. Dick, Aronofsky, Salinger, Kaufman. Se pisaram na Lua ou nao, estou me lixando. Nao vou perder meu tempo odiando algo com que eu nao convivo.
Mas voltando as excursoes. Nas excursoes, sim, se conhece gente interessante. Conheci um qatariano e uma japonesa que viajavam sozinhos, trocamos nossos cartoes, saimos juntos, e desses nao tenho qualquer reclamaçao. Eram gente finissima. Espero que virem meus pen-pals, senao para treinarmos o ingles/frances.

6.10.08

catering to every vice

Uma garota entra numa enfumaçada coffeehouse de Amsterda, dirige-se ao balcao e pede:
- 20 minutes, please.
- 3 euros.
Ela paga, senta-se a uma mesa e recebe um cartao.
- You can use it now.
Digitando o codigo no terminal, ela finalmente pode acessar a internet. Sao varios dias de abstinencia mas, felizmente, naquela cidade, todo vicio e acessivel - por um preço...
Nao consegui passar mais de 20 minutos na coffeehouse. Digitar doidona num teclado estrangeiro e meio dificil. Doidona com a fumaça alheia, bem entendido.
Voces vao notar que meu texto adquiriu cedilhas. Estou em Tours, na França, depois de passar por Amsterda e Bruges, na Belgica (cidade ubernerd: medieval, cheia de lojas de quadrinhos - inclusive a loja do Tintin (que, dolorosamente me ocorre, Spielberg quer estragar fazendo um maldito live action)).
Cometi o grande pecado do parentesis dentro do parentesis, mas voces hao de me desculpar, porque o teclado frances nao e QWERTY; e um pesadelo (cauchemar). Ainda por cima estou num bar de sinuca e esta tocando musica francesa. E como digitar doidona e numa bad trip.

29.9.08

sou nerd mas to na moda

Em Londres so faz sol ha uns cinco dias. Estou aproveitando para exibir o preppy look em todas as suas nuances. (Fiz lentes de contato so para andar na chuva perpetua, entao sem chuva, aqui so da oculos.)
Nunca impliquei com oculos. Acho que eles sao apenas mais uma opcao de visual. Agora que a industria da moda se apercebeu de que essa e uma deliciosa maneira de vender todas aquelas armacoes... perdeu, playboy. Alias, espero que as patricinhas da minha ex-escola estejam todas vivas e bem para testemunhar o proprio inferno... serem obrigadas a se vestir como eu! Muahahhahaha.
Ja fiz nerd cyberpunk, nerd manga, nerd escolar, nerd clubber (existe!). Estou francamente me divertindo. Estou frivola. Londres e casa.
Nao so por causa da moda nerd. Por muito mais. Por exemplo, as pessoas aqui compartilham da minha neura.
Nossa neura e: respeitar o outro como um ser humano. Este e o verdadeiro sentido de politeness.
Uma das regras: toda vez que encontrar um desconhecido na rua, olha-lo tempo suficiente (e da forma adequada) para reconhece-lo, mas nao tanto tempo (ou de forma inadequada) que ele va se sentir invadido.
Meu timing, e o deles, e perfeito.
Mas a regra continua: a nao ser que voce sinta uma fraca e sutil luz no olhar do proximo que indica amizade, luxuria ou comunhao de almas, pare de encara-lo e siga o seu caminho sem demais manifestacoes.
Nao e facil? Me parece facil. Facil e natural.
Outra: toda vez que estiver num lugar publico com alta circulacao de pessoas, tente tornar seu corpo parte do fluxo, e nao um obstaculo ao mesmo.
Eu tambem me movo como eles (embora requebre um pouco mais ao andar, tudo bem, viva a diferenca e outra regra de ouro aqui.)
Nao sei se moraria aqui, mas certamente gostaria de poder recosturar a Pangeia para Londres ser ali na esquina.
Ah: e ouvindo muito Radiohead. Combina demais (como Boards of Canada com as Highlands).

22.9.08

Dublin, a cidade dos meus pesadelos

Dublin e uma cidade desconfortavel. Em geral, as pessoas te olham de um modo estranho - com lascivia ou sneering (contracao torta do labio superior e reviramento de olhos), mas sempre estranho. Parece que nao te consideram um ser humano. Quando voce entra numa loja, te olham com desprezo e deixam voce sem ser atendido. Quando voce exige atendimento, te atendem com desinteresse, medo de que voce roube alguma coisa ou um sorriso de plastico no rosto.
Dublin junta o pior da Europa com o pior do Brasil. E impressionante. E uma cidade muito socialista (tem um cartaz em cada poste). As mulheres sao fofoqueiras e os homens mexem com as mule na rua. Os bares enchem em jogos de futebol. E tem engarrafamento. Ah, e tem brasileiros a beca (como em Amsterdam... querendo a bagunca organizada e com mais opcoes de consumo/ casas noturnas).
A arquitetura de tijolinhos e como a inglesa, so que mais feia. Os predios novos sao construidos no mesmo, hum, estilo dos antigos. O tecido urbano esta cheio das cicatrizes, chamines, marcas de antigas construcoes, ruas tortas e estreitas.
De noite e aquele assustador grandioso que tentei emular em A feia noite. Alguns pesadelos que eu tinha quando crianca eram assim: eu flutuando a dois ou tres metros do chao e controlando meu percurso por uma cidade parecida com o Rio, a noite; no final, empolgada, eu estava a uma velocidade tal que nao podia parar quando vinha um beco sem saida; se eu batesse nele, eu morria e ia pro inferno - sutil, nao? Pois bem, os becos com que eu sonhava estao todos em Dublin.

Nesse bad mood eu fui visitar o museu dos escritores de Dublin. Como se sabe, Dublin produziu duzias de bons escritores, e visitando o museu voce tem a chance de conhecer mais sobre eles sem usar a Wikipedia.
Yeats: foi para Londres. Passou a vida apaixonado por uma simpatizante da causa irlandesa, Maud Gonne, e fez mil propostas de casamento a ela (e uma a filha dela, Iseult), sendo recusado todas as vezes.
Wilde: foi para Londres. Acabou sendo acusado de homossexualismo, condenado e preso por dois anos. Morreu num hotel de papel de parede feio, em Paris.
Swift: esse ficou. Foi posto "na geladeira" por incomodar demais, sendo nomeado para um cargo eclesiastico escroto. Foi se desencantando com a raca humana, morrendo mudo e com fama de louco.
Joyce: nunca gostou muito de Dublin, entao passava pouco tempo aqui. A gota d'agua foi quando um editor nao gostou de como Dublinenses retratava a vida na cidade e destruiu a primeira edicao. Dai ele nunca mais voltou.
Beckett: seus poemas e pecas eram continuamente banidos e censurados aqui. O texto diz que ele "era infeliz em Dublin". Partiu para Paris, e raramente voltou a Irlanda.
De Cork, onde eu estava antes, veio um famoso escritor de contos:
Frank O'Connor: ficou amigo do Yeats, veio para Dublin, onde fez parte do comite diretor do Abbey Theatre, mas saiu devido a intrigas dos outros diretores.

Ei, sou so eu ou voces tambem perceberam um padrao?
Primeiro Dublin dificulta a vida do escritor ao maximo, depois faz turi$mo em cima dele.
Mas talvez seja exatamente por isso que ela produza tantos escritores. Depois de comer o pao que o diabo amassou, fazer grande literatura e bolinho...

Como toda regra tem sua excecao, o Shaw morreu na gloria em Dublin. Mas que coisa; deixei para olhar a placa dele por ultimo, porque nunca fui com a cara dele.

21.9.08

chega de saudade

Foi so sentir saudades e acabei de ouvir portugues 2 vezes - em Dublin.
Uma garota falava da vida sentimental ao celular a toda velocidade e volume, certa (ou despreocupada) de que ninguem a entenderia, mesmo depois de ter olhado nos meus olhos - foi esse o teste definitivo, ninguem adivinhou que sou brasileira. Nao detesto tanto assim o pais a ponto de renegar a nacionalidade, mas rejeito os tracos que entregam o brasileiro no exterior - justamente a conversa particular em voz alta, a furacao de fila, as calcas por demais arrochadas, enfim, a falta de nocao - e ai fico incognita.
Mas a garota falava assim (era paulista):
- Ai, ele nao, ele nao tem nada que saber disso, conta pra ele nao. E que isso e... ai... (longa pausa) esqueci a palavra em portugues!
Depois entrei num cybercafe (este) onde tocou Sepultura. Pelo menos presumo que seja Sepultura. A letra falava em "favela" e antes do solo soltavam um "porra" meio sem contexto.
Agora sentaram mais dois do meu lado. Mineiros. Ta bom. Parti.

20.9.08

De Cork, Irlanda

Fiquei umas duas horas vendo todos os posts acumulados no leitor de feeds. Na frente daquele retangulo colorido, duas horas passam voando. Estava com saudade de ler em portugues. O cybercafe so tocava Radiohead e Portishead, ou seja, eu estava em casa.
Deu duas horas, paguei, sai e - po, que frio.
- Ah e, estou na Europa. - lembrei.
Esqueci mesmo. Minha capacidade de dissociacao e assustadora. So nao e mais assustadora porque, justamente, eu disassocio.
Nesse estranho mundo as pessoas estavam falando ingles e alemao e usando roupas sumarias. E tambem sabado, dia de sair. O contexto me urge a fazer tal e tal coisa... mas ja sai ontem e anteontem, estou farta, e o suficiente.
Eu tinha entrado no cybercafe porque queria falar com a minha mae via Skype. Ela disse que estaria em casa no sabado, mas teve que viajar para o sitio porque alguem roubou os cabos de cobre de la.
Agora estou querendo ouvir a minha lingua. Da vontade de pegar algum incauto na rua e obriga-lo, por meio de violencia, a dizer qualquer coisa em portugues, rapido, rapido! Diga Pele, samba, caipirinha, oubrigadou!
Dizem que brasileiros estao em tudo quanto e lugar mas na Escocia e na Irlanda ainda nao vi nenhum. A maioria das pessoas aqui e alema, francesa, japonesa e chinesa. De vez em quando voce encontra um odd number - um suico, um canadense, um espanhol - mas nem um portugues ate agora.

Eu queria escrever algo sobre a sensacao que se tem ao sentar em certos bares daqui. Ate sozinha. Voce realmente tem a sensacao de que tudo pode acontecer (= vingar). No Brasil, sentar num bar, boteco ou whatever so me da sensacao de inercia e derrota, por melhor que seja a companhia. Sentando-se acompanhada no Brasil, OK, voce pode ter a sensacao de estar se divertindo com os seus amigos, mas por mais talentosos que eles sejam (you know who you are!) voce nao sente ENERGIA POTENCIAL DE GRUPO, sabe? Que voces sao as pessoas certas fazendo as coisas certas na hora certa. Queria saber qual e a magica.

18.9.08

O momento em que voce assina o feed de um blog e magico. Voce fala: ah! eu quero ler os textos desse ai em primeira mao!
Mas o momento em que voce deixa de assinar o feed de um blog e ainda mais intrigante. Voce tem deixado aquele blog para ler por ultimo, acumulado posts que no fundo voce nao quer ler mais. Quando voce finalmente abre os posts acumulados, ve que o sujeito anda elogiando coisas que voce detesta, ou nas qual nao ve o menor merito; e acabando com a raca das coisas que voce mais ama e preza. Nao so isso, mas tambem o faz de forma tediosa, pouco aproveitavel literariamente. De repente ele lhe parece nada mais que um velho ranheta, e voce percebe que nao extrai mais qualquer prazer de ler o que ele escreve. Voce para de assinar o feed do blog dele. Coloca-o na geladeira, quer dizer, os links de blogs "a mais" que voce vai visitar nos dias de maior tedio. Uma segundona, por assim dizer.
Teve um que ate da segundona caiu, acredita? Desencantei.

15.9.08

Consegui perder todos os espetaculos bons em Glasgow, exceto pelo festival Parklife (falo dele mais abaixo). Vai ter um bale com musicas de Radiohead e figurino anos 20 e eu nao vou estar aqui. Vai ter uma peca experimental chamada Little Vikings Are Never Lost, inspirada em "contemporary Scandinavian music" (suponho que isso queira dizer Bjork, Royksopp, Poni Hoax e The Knife) e eu nao vou poder ver. Tem tambem um show do Mogwai que, claro, vai acontecer so em outubro, quando nao estarei mais aqui. Damn it.
Pelo menos realizei meu sonho de adolescencia e consegui ir a uma rave onde tocou bastante Prodigy. Sei que teoricamente as raves acabaram no Reino Unido, mas na verdade so mudaram de nome para "festivals" e puseram cachorros fofinhos cheirando seu pe na entrada. Organizaram a suruba, por assim dizer. Exceto pelo Happy Bus.
O Happy Bus e um double-decker (onibus de dois andares) direto, sem a camera da CCTV instalada no topo, que leva e traz as criaturas da festa - qualquer festa. Ou seja, o segundo andar e anarquia em ambiente aquecido. Dois sujeitos na minha frente foram inalando e fumando as mais diversas substancias, enquanto na parte de tras britanicas tresloucadas e vestidas com roupas de vagaba-neon berravam em sotaque ininteligivel.
Implicancias a parte, o Happy Bus e uma otima medida pra tempos de lei seca. Roubem essa ideia, por favor.
mas que nada

- sem tampinha na banheira como o Eugenio de Jesus Kid (do Mutarelli). Recorri a banheira do outro andar.
- cartao de debito do BB nao funciona, ao contrario do que me disseram. Testei em 2 lojas.
Esboco para uma tipologia do tarado britanico

Ai no Brasil eu conheco a raca, mas aqui ainda estou estudando. Vejamos os meus esbocos:

CREEP. A musica do Radiohead nao e uma mera historia de amor. E uma auto-confissao: Thom Yorke faz parte dessa tipologia. Creep = sorrateiro. Voce nem nota ele la, mas ele esta la, e olhando pra voce! Como sou uma especie de she-creep, sou capaz de detecta-los, especialmente se nao estou morrendo de sono. Percentagem: 8% da populacao.

OLHAR 43. Existe em todas as idades e grupos sociais. E o homem medio que faz aquela expressao pseudo-sexy de porteiro quando ve uma mulher bonita (ou simplesmente montada) se aproximar - igualzinho ao Brasil. A diferenca e que aqui eles podem tentar gracinhas mais pesadas, como tentar te agarrar, especialmente quando bebados e "se ninguem estiver olhando". A CCTV existe por causa desses caras. A CCTV e o Big Brother aplicado no Reino Unido, cameras em todo lugar, inclusive no segundo andar dos onibus. A policia sai para investigar "CCTV incidents" o tempo todo - ate no meu hostel apareceram. Percentagem: 15% da populacao (pode aumentar para ate 50% no horario de saida dos pubs).

PSYCHO. Esse e o perigoso. Sabe mentir sem alteracoes faciais e extrair informacoes sobre voce casualmente - informacoes que usara para te stalkear, te levar para um lugar deserto ou te encurralar depois. Percentagem: de 1% a 2% da populacao.

12.9.08

Morvern / Morton

Samantha Morton fez um monte de papeis que, de uma forma ou de outra, tem a ver comigo. Conheci-a atraves do filme Morvern Callar, em que ela faz a personagem-titulo - e tao bem que fui forcada a procurar o livro, e agora estou aqui na cidade de Oban, onde se passa a historia de ambos. No mesmo ano ela fez Minority Report, filme baseado no romance de Philip K. Dick, em que fez a precog que passa metade do filme boiando num tanque e resmungando previsoes, e metade resmungando enquanto foge tangida por Tom Cruise.
Como se nao bastasse, topei com ela ao assistir Elizabeth, a Idade de Ouro - no papel de Mary Stuart! Gosto da Rainha Mary desde que ela me foi apresentada por Monteiro Lobato, e agora estou visitando uma porcao de lugares relacionados a ela.

an T-Oban

Vim para Oban para passar a semana entre dois fins-de-semana, ou seja, nao fazer nada.
Aqui tudo e bilingue: gaelico-ingles. Ouvi uma adolescente falando gaelico no celular, uma das coisas mais bizarras que ja vi na viagem.
An T-Oban e o nome de Oban em gaelico - falta o acento agudo no a. O gaelico tem acentos, agudo e grave, mas aparentemente os computadores ignoram isso.

you know, just morverning around

Estou fotografando uma porcao de lugares que Morvern Callar frequenta no livro. Ela trabalha no supermercado, passa algum tempo na estacao de trem, na torre, no pub Manhole (era atras do restaurante Mactavish's, hoje e uma casa de festas para turistas) e no "Kale Onion" (o Caledonian Hotel depois que caiu a letra D). Achei todos os lugares, ate mesmo uma tal de Morvern Hill, menos a Tree Church (uma igreja feita de arvores), mesmo com indicacoes do centro turistico. De qualquer forma, me disseram que a Tree Cathedral esta "overgrown" e ja perdeu a forma. Minha maior decepcao mesmo foi ver que colocaram de volta o D no Kale Onion. Mas em compensacao, o Waterfront Restaurant e agora W terfront...
E, eu sei, sou muito boba.

10.9.08

there can be only one

Um dos motivos porque Escocia e literatura estao tao associadas na minha cabeca vem dos meus quatro/cinco anos de idade. Minha bisavo acabava de morrer e, embora eu nao a conhecesse o suficiente para me sentir triste por ela, eu me sentia triste por ter descoberto que todos nos morreriamos, inclusive eu. Nessa mesma epoca meu pai se elegeu sindico, e comecamos a ouvir apelidos para os vizinhos na nossa casa (sim, esses dois ultimos fatos estao intimamente relacionados). Foi ai que muitas vezes ouvi mencoes a um certo Imortal que morava no nosso predio. O Imortal isso, o Imortal aquilo. Perguntei quem era o Imortal, querendo saber como e que ele conseguia nao morrer, e recebi uma resposta meio confusa da minha avo. Aparentemente o homem tinha dois apartamentos, um em cima do outro, um onde morava com sua esposa, outro cheio de livros. Ele tinha um apartamento so de livros e fazia parte de uma tal academia.
- Mas ele nao tem nome?
- Tem, e Lacombe.
- E como e que ele consegue nao morrer? - finalmente perguntei.
- Ha, ha, ha. Nao e que ele nao va morrer, e que... as pessoas sempre vao lembrar do nome dele... para a posteridade.
- Ahm.
Detestei essa resposta. Gente idiota, chamar de imortal um cara que vai morrer. Alias, como era de se esperar, depois o Imortal morreu e cada membro da minha familia deu uma risadinha ao repetir para as visitas que "o imortal morreu". Eu ja sabia revirar os olhinhos nessa epoca e fiz bastante isso. (ver post sobre a tia Imperatriz, procurem ai pra baixo que nao quero perder meu tempo com isso)
E a Escocia, voce me pergunta? Bem, basta dizer que por essa epoca saiu o filme Highlander, com o subtitulo em portugues de O Guerreiro Imortal, e logo fiquei imaginando Americo Lacombe com uma espada na mao entre relampagos. Nao ha duvida do porque de a literatura comecar a parecer muito atraente para mim.

PS: Nas minhas pesquisas para o Samba Falado descobri que, naquele predio de Botafogo, rua 19 de fevereiro 127, ja morou tambem Vinicius de Moraes.

8.9.08

Cafe fair trade

Todos aqui estao preocupados com o meio-ambiente e os pobres. Ate ai nenhuma novidade, mas eu nao sabia que a obsessao tinha chegado a ponto de ser impressa em cardapios. Coisas como "nao utilizamos alimentos geneticamente modificados" e e "infelizmente nao podemos garantir que nossa comida e nut-free" (sem nozes - para quem e alergico a nozes). Outros avisos comuns sao sobre "fair trade coffee" (cafe com certificado de nao-exploracao economica, ou seja, mais caro que o normal), "recycling", "veggie dishes", "donations" para favelas em paises com nomes impronunciaveis...
Nao sei de nada, so vim aqui ver as ovelhinhas, mas francamente me parece muito exaustivo prestar atencao a isso. Qualquer lavadeira diria que isso e falta do que fazer (talvez acrescentando que essa gente precisa e de uma bela sova).
Para nao dizerem que sou espirito de porco, gostei de uma placa que nao conhecia: "Elderly people", ou seja, algo como "Cuidado: travessia de idosos", geralmente perto de asilos. Se criancas, que sao avoadas mas ageis, merecem uma placa, imagine os idosos. Muito bem pensado.

Literatura fair trade

Mas voltando a vaca fria, essa obsessao e essa falta do que fazer se refletem na literatura dos paises desenvolvidos. Prefiro os livros sobre a falta do que fazer, como Morvern Callar (Alan Warner) e Trainspotting (Irvine Welsh) - alias estou postando de Leith, onde se passa este ultimo. Mas o que tem de personagens anorexicas / self-cutters (The trick is to keep breathing, Janice Galloway) ou metaforas elaboradas sobre vegetarianismo (Sob a pele, Michel Faber) ou feminismo (A historia da aia, Margaret Atwood) nao esta no gibi.
Por falar em Janice Galloway, ela esta lancando um novo livro, This is not about me, que, claro, e sobre a vida dela. Como sou anti-autobiografica na maioria dos casos, nao devo comprar. Mas... por ser Janice Galloway, eu titubeio.
Pois e, motivo "literario" pra essa viagem existe: ela e toda orientada para beleza, inspiracao e literatura, alem de olhar o Brasil de outro angulo (de longe). Entao podem ir recolhendo as tochas e os ferros em brasa e ir trabalhar, afinal nos, ai embaixo, ainda nao estamos sem nada pra fazer.

Cafe fair trade de novo

Alias, me pergunto por que tenho de pagar os olhos da cara por cafe fair trade? "Comercio justo" seria eu pagar o preco de um cafezinho carioca aqui, nao? (Especialmente com o gosto ruim que esse cafe tem. Penso seriamente em abrir um cafe brasileiro em Edimburgo.)

Literatura fair trade de novo

O Brasil sera a proxima bola da vez na literatura (em dois anos). Ja cansaram de arabes e chineses, e logo vao precisar de um novo suplemento exotico. Digo isso como formanda de Producao Editorial, nao como escritora - mas como escritora esfrego as maozinhas de contentamento.
O Brasil interessa bastante aos estrangeiros (quando digo que sou dai, os olhos das pessoas brilham e algumas ate repetem, OH! BRAZIL??); e o proximo grande mercado literario. Estamos colocando as criancinhas na escola e implantando bibliotecas/ politicas de leitura; de olho nisso, grandes grupos estrangeiros - portugueses, espanhois e americanos - estao procurando formas de adquirir grandes editoras nacionais, isso se ja nao entram de sola mesmo. Logo eles vao apresentar aos escritores nacionais contratos com opcao de publicacao no exterior e, uma vez detonada a onda brasileira, vao usar essa opcao. That`s the way you do it, money for nothing...
Producao editorial serve pra alguma coisa sim... para eu ser minha propria agente literaria.
Alem de todos esses indicios, tem a vibe que estou sentindo.
Nao sei se os gringos so vao querer coisas bossa nova e dos pampas, mas sei que vao nos querer. Trust me.

6.9.08

castelo do Monty Python + coelho assassino


5.9.08

It`s the Highlands, wench!

E muito dificil ser groupie de uma banda que nao faz shows, mas eu estou conseguindo. Gostaria de partilhar minha experiencia.
Como assistir um show do Boards of Canada: leve um iPod para sua excursao as Highlands escocesas.
Eu ja voltei da minha.
Nem precisava ter levado o iPod, na verdade. O velhinho da van so colocava musica escocesa pra tocar, inclusive Belle e Sebastian. Na minha lista "Escocia", entraram Boards of Canada, Garbage e Ladytron - pela nacionalidade dos componentes - e outros por afinidade, como Underworld (com Oich Oich) e o Air (com Sex born poison). Nisso, passamos pelo Loch Oich, momento em que realmente entendi a razao do nome Oich Oich para aquela cancao.
Chega a ser meio ridicula a quantidade de historia espremida (ou espalhada) naquele canto do mundo. Paramos no castelo onde foi filmado O Calice Sagrado do Monty Python (com direito a fotos de coelhinhos assassinos) e passamos pelo castelo de Macbeth. O cara contou a historia de um certo castelo que tinha direito a exercito proprio e fiquei morrendo de despeito do sul-africano que herdou aquilo tudo (por ser um primo distante do ultimo proprietario) e simplesmente nao quis ficar com o castelo. As Highlands sao mesmo material de fabulas, cheias de coelhinhos e ovelhinhas e cogumelos e berries.

PS: examinando o folheto que ganhei na Candlemakers Row, li que aquela foi a verdadeira inspiracao para o Beco Diagonal. Faz sentido. Fica na diagonal do cafe preferido da mrs. Rowling. (Nao, nao escrevi la; fui achar meu proprio cafe.)

3.9.08

Oi. To fora do Brasil, ou seja, sem acentos.
Estou num lugar com muitos ruivos. A cada foto que eu bato sai uma cabeca vermelha num canto, e quase nunca e intencional.
Tive dor de garganta, curada com uma faixa de pescoco e Strepsils (aprendi o que era numa musica da Lily Allen).
Descobri todos os points freak`n`geek da cidade sem querer, como que atraida. Tem uma rua, a Candlemakers Row, que tem uma loja de quadrinhos, outra de livros de scifi, uma loja gotica e um brecho retro; e um pouco atras, na George Bridge, tem a Biblioteca Central e um dos cafes onde dizem que a J K Rowling escreveu Harry Potter. E uma cidade literaria; tanto que ganhou uma campanha para vende-la como inspirational, mas eu nem sabia disso. O pior e que e verdade. Estou tentando acertar meu livro aqui, e aparentemente conseguindo.
Adorei todos os museus. Nao sei como conseguiram, mas sao todos divertidos.
O Rio (de Janeiro) pales (or "tans") in comparison, mas aqui o cafe e horrivel! Ou pelo menos ainda nao achei o certo.
OK, estou em Edimburgo, mas nao me sigam.

25.8.08

A história do meu primeiro livro

Dizem tanta bobagem sobre a publicação do meu primeiro livro - que surgi dos blogs, por exemplo -, mas nunca pensei em contar como realmente aconteceu. Aproveitando uma mensagem que respondi a um aspirante a escritor, finalmente resolvi postar A VERDADEIRA HISTÓRIA.
O que houve foi que tive muita sorte, mas também estratégia.
Eu era completamente desconectada do meio literário; eu tinha internet, mas nem de fórum participava. O máximo que eu tinha era uma página pessoal, que naquela época falava de personagens que pareciam comigo e músicas que me lembravam determinados livros - nem um texto literário que fosse. Nem blog existia direito, ainda (em 99/2000). Eu era só uma estudante do ensino médio boa em redação que lia o Prosa & Verso (caderno de literatura do Globo) religiosamente, todo sábado, mesmo achando predominantemente chato, como quem espera uma luz no fim do túnel. Aí saiu uma reportagem sobre uma certa editora que acolhia novos autores, a 7Letras. Eu pensei: vou mandar para essa primeiro.
Quando o livro ficou pronto, algum tempo depois, eu estava fazendo análise - fui meio que coagida a isso, mas acabei achando a mulher legal. O apartamento da terapeuta estava em reforma e o consultório provisório ficava em cima da livraria Sette Letras. Daí, achando aquilo um bom sinal, pedi na livraria o contato da editora (não era mais a mesma empresa, tinham se separado) e mandei a mãe ligar para lá para descobrir os detalhes de como mandar o livro (eu me embananava ao falar no telefone e detestava detalhes burocráticos). Naquela época, pediam uma cópia em disquete e duas impressas, se não me engano. Fiz conforme eles pediram e eu mesma deixei o pacote na editora 7Letras.
Uma semana depois eles me ligaram e disseram que queriam conversar. Como eu era menor de idade, minha mãe foi junto, já me prevenindo que provavelmente ele iria cobrar para publicar o livro, e ela não tinha dinheiro pra isso. Eu retruquei que não, eles não iam cobrar nada, e minha mãe suspirou e revirou os olhos... ("como eu era inocente").
Quando chegamos lá, descobrimos que o editor não só queria publicar o livro como ia bancar a edição.
Depois eu soube que o editor e um grande amigo dele por acaso estavam na editora na noite em que entreguei os originais e leram/ decidiram publicar na mesma hora!
Quer dizer, foi uma combinação de sorte com o fato de procurar uma editora que aposta no novo autor (e o fato de ter escrito um livro diferente da maioria).

Eu contei toda essa história cheia de detalhes instigantes a um repórter que resumiu mais ou menos assim: "a mãe dela viu um anúncio no jornal, mandaram o livro e publicaram". Eu até poderia já dar tudo resumido, mas sempre conto histórias muito longas, porque os jornalistas gostam de selecionar eles mesmos os melhores pontos da sua fala para encaixar na matéria. Até aí tudo bem, mas só se o cara sabe fazer o seu trabalho. Para quê entrevistar todo mundo se não se pode selecionar as melhores histórias para contar ou, pelo menos, resumi-las decentemente? Felizmente nem todo jornalista é bronco assim, e tenho lido melhores resumos das minhas ladainhas.

20.8.08

The Melancholy of Shimone Kamposu

OK, foi só reclamar que aconteceu uma quantidade absurda de coincidências e agora fiz tipo 4 novos amigos numa semana. Em três dias. Estou me sentindo num anime, certo, certo?
Acho que a palavra correta para descrever o meu estado seria bolada - também no sentido afortunado.
Coisas do tipo entrar num ônibus em que você nunca entraria normalmente e encontrar quem você não sabia que pegava aquele ônibus, logo depois de ter pedido pro táxi parar numa determinada rua com o nome dessa pessoa. E essa foi a menor das coincidências.
Deve ser o mês de agosto.

16.8.08

Vovó Olga é o novo Rrrronaldinho

Medalha de ouro brasileira em esporte individual só podia dar nisso: na narração mais irritante que o Galvão Bueno já fez na história. César Cielo tinha uma avó, o que Galvão nos lembrava 3 vezes por segundo. Fiz até um Vovó Olga count, deu 25. E isso porque alternei com a narração da Band (que também me irritou e me fez voltar à Vovó Olga TV). Difícil não ter TV a cabo nessas horas. Todo mundo deve ter feito esse post, mas tudo bem, eu precisava desabafar.

12.8.08

Quero contar uma história para vocês verem como o negócio é sério, e de berço:



Eu tinha seis anos quando isso aconteceu. Estudava no Colégio Santo Amaro há quase dois anos, uma instituição prisional completamente miserável e sem-graça, especialmente se comparado com o colégio laico onde eu estudara até os quatro, o Anglo-Americano. Mas meus pais não tinham dinheiro. Certa tarde, quando voltei do colégio, minha avó me disse:

“Simone, sua mãe ganhou uma bolsa! Você ganhou uma bolsa do Anglo-Americano!”

Até eu entender que não se tratava de bolsa-mochila e sim de bolsa-mensalidade, da qual até então eu nunca havia ouvido falar, demorou um pouco. Afinal minha avó usou as palavras “estudar sem pagar” e “poder voltar pro Anglo”, ao que eu disse: ah, é?

Enquanto isso fui andando para o quarto dos meus pais e soltando a mochila das costas, sentando na cama. E nada. Não saía nada. A expressão não se expressava em mim. Eu era um manequim. Uma Rei Ayanami, uma esquizóide que travava na hora de reconhecer os sentimentos para si mesma. Em linguagem computacional, uma falha de índice. Mas minha avó viu que eu estava paralisada. Ela percebia que às vezes sua neta precisava de uma mãozinha.

“Poxa, eu pensei que você fosse gostar. Você anda tão tristinha depois que foi pro Santo Amaro.”

Lembro de ter levantado a cabeça devagar; minhas mãos estavam sobre os joelhos.
“Você não tá feliz?” – insistiu ela.

E de repente... ("o que é isso? O que é isso que vem me subindo agora?")

“Sim!”

Eu pulei. Dentro de mim fervilhou o entendimento. Eu entendia naquele instante que felicidade era a coisa boa, e tristeza a coisa ruim que eu sentia; e mais, que o bom era bom, e o ruim era ruim, através da comparação do meu tempo no Anglo com meu tempo no Santo Amaro.

“Sim, tô! Tô feliz!”

E pulava mais, abraçando a minha avó, e gastava as palavras, maravilhada:

“Eu tava triste! Eu tava triste no Santo Amaro! E agora tô feliz porque vou voltar para o meu colégio!”

Eu pulava e gritava pela casa toda, histérica, rindo e chorando ao mesmo tempo, por ter entendido que devia perseguir o bom (pelo menos naquela hora).



É o que eu digo: espero que minha percepção distorcida sirva pelo menos para enxergar coisas que a outros passam despercebidas; é, é, para escrever.
três tigres tristes

Muita gente junta me dá pânico. Muita gente querida junta me dá muito pânico.

É em eventos sociais como o de hoje que as pessoas pensam: essa menina tem problemas. Pareço uma garota sem noção que fica muito tempo olhando para a parede, esbarra nos outros, não sabe conversar e vai embora cedo. O pior é que não é por medo de gente.

O problema não é lembrar o nome de todo mundo - assumo logo de cara que esqueci - mas principalmente ficar em meio a todas aquelas pessoas, aah, na forma de um corpo que tem que se mexer e falar de forma ordenada e não errática. Me dá um terminal, eu penso. Com um terminal eu posso interagir com uma coisa plana, uma ilusão de mecanicidade, e também fingir que não sou errática. Eu penso melhor escrevendo também. Sou muito mais agradável por escrito.

Só no terminal eu sou inequívoca. Na vida real você pode ter uma conversa inteira comigo sem perceber se eu te amo, te suporto ou te odeio, por mais que eu me esforce para demonstrar o que sinto.

(momento Herman Hesse agora:) Um dos problemas, fora de brincadeira, é que eu olho para cada pessoa e vejo não uma unidade, mas uma singularidade composta de várias personalidades diferentes superpostas, como um arquivo de Photoshop. (Esse é o primeiro traço de esquizoidia que me atrapalha.) Numa reunião social, entre pessoas queridas, eu fico que nem um telepata de filme trash quando entra no meio de uma multidão e ouve os pensamentos de todo mundo, cambaleando com as duas mãos sobre o próprio crânio. Bem, não literalmente, mas eu fico bastante aflita. Aflita para estar sozinha de novo.

Friso pessoas queridas, o fato de serem queridas é importante, porque nasci com uma capacidade bela e terrível: quando resolvo cagar para as pessoas, eu realmente cago para elas. Basta me convencer disso. É terrivelmente infalível. Eu não finjo, eu sinto. (Esse é o segundo traço de esquizoidia que me atrapalha.) Sabendo disso e conhecendo o mecanismo, seria muito fácil para mim ter uma existência sem dor, evitando todos os percalços do envolvimento emocional. Acontece que eu acho melhor sentir alguma coisa do que nada. Aquela história do Tennyson, vocês sabem.

Mr. O'Neill - "It is better to have loved and lost, then never to have loved at all." Just what is Lord Tennyson talking about? (...)

Daria - Well, he's acknowledging that if something makes you feel good, like being in love, there must be a corresponding painful side, like losing a love, and that it's just a fact of life.

Mr. O'Neill - Sad, but true.

Daria - And what's intriguing about it is that no one calls Tennyson a big unhappiness freak just because he understands that.

Mr. O'Neill - Is he a big unhappiness freak?

Daria - No, he's a realist. He says, "Emotional involvement brings pleasure and extraordinary pain." Then he declares that it's better than feeling nothing at all.

- da animação Daria.

Por isso eu saio, pego ônibus e passo o pânico que passo. Às vezes queria que me puxassem pela mão e dissessem: "Ei, vamos falar com Fulano" sabendo que eu quero falar com Fulano. Porque também não faço isso com facilidade. Minha falta de empatia não se direciona apenas a outros, mas também a mim mesma. Eu me esqueço do que é bom. Eu me esqueço porque o bom é bom. Eu esqueço porque tenho que me dar as coisas que eu quero. Esqueço que quero o que quero. (E esse é o terceiro traço de esquizoidia que me atrapalha, no que mais me pareço com a Rei.) Tenho que me forçar a lembrar de como interagir pode ser bom para me empurrar a interagir.

É melhor ver um de cada vez, lido melhor assim. Aliás, é emocionante ver todas aquelas personalidades formando um ser só quando você está sozinha com apenas um alguém querido; é como brincar com um caleidoscópio. Eu tenho um caleidoscópio, é meu brinquedo preferido.

11.8.08

O fracasso do pornofaxineiro de Kafka

"Um segredo literalmente do fundo do baú, conhecido há quase um século por alguns poucos acadêmicos, veio à tona na quinta-feira passada, com a publicação, no Reino Unido, de um livro que revela a coleção de revistas eróticas de Franz Kafka (...)" - da Folha

Max Brod é um vacilão. Não acredito que Kafka não soubesse disso, ele só pode ter querido deixar as coisas dele para algum vacilão mesmo, para conquistar a notoriedade depois de morto, sem ninguém para aporrinhar. Foi premeditado, e deu certo.
O mais engraçado é como as pessoas pressupõem uma ligação entre vida e obra e, se ela não for óbvia, tentam retocar o retrato do escritor para caber na fôrma da obra. (Se a conexão é óbvia, o escritor é que vai espernear dizendo que não é não, mas isso é outra história.) Então nos foi dada a imagem do carinha macilento e ensimesmado, um funça impotente de tanto enfrentar burocracia, e não era isso absolutamente que transpirava dos livros. Poxa, dava para perceber que ele gostava de mulher. Ele certamente não tinha muita vontade de casar, e as mulheres só deviam ter um pouco de medo dele, achá-lo estranho, mas isso é até sexy. Ponto final: Franz tem direito ao seu hentai.
Aqui um trechinho do meu Francisco - que Maria Luiza só chama de Franz, em parte por causa do Kafka:

FRANCISCO
Como é que você consegue?
MARIA LUIZA
O quê?
FRANCISCO
Dançar sozinha numa boate vazia. Ou ir para a casa de um desconhecido e transar com ele. É a mesma coisa. É pornô sem história.
MARIA LUIZA
Achei que você nunca ia admitir que assiste.

Para quem está chegando agora, Francisco e Maria Luiza são personagens de A feia noite, que é livro e é roteiro de longa-metragem (procurando diretor). Esse trecho é do roteiro, claro.

8.8.08

wanted

Conheci um garoto que, na época com dezoito anos, chegava para as suas amigas e pedia para testar as cantadas que tinha bolado. Todas começavam com "Minha querida".
Conheço também um homem que tem mania de chamar seus contatos profissionais de meu querido ao telefone.
O mais curioso é que esse querer todo nunca é poder. Os passivo-agressivos sempre "querem", nunca "amam". Em vez de pôr as cartas na mesa ou de tentar conquistar pela competência, eu simplesmente declaro uma carência e espero você ter pena de me frustrar -- em teoria, em teoria. Na prática, o "carente" é muito ignorado e ouve muito não sem saber porquê - eu digo que é bem-feito, pela adoção de tal estratégia amarelona.
Amarelona por quê, você pergunta? O "querido" procura evitar a frustração de se ouvir um "você quer, mas não vou te dar" - e nesse caso há sempre espaço para o sujeito dizer que nem estava muito a fim, mesmo, e depois falar mal de você pelas costas - que sempre te tratou "com respeito" e ainda assim você não "deu valor". O "querido" dele era completamente desinteressado...
Não estou falando só de sexo não. De profissões a mamatas, o "querido" serve para forjar todo tipo de intimidade instantânea (ah, meu Rio, meu Brasil). E nem a estratégia se restringe apenas à palavra "querido", claro. O pior é que quase todas as vezes essa estratégia é inconsciente. Só alguém que já está de saco cheio de desconhecidos "querendo porque viram" para pegá-los no pulo. E uma vez que você detecta e detesta o padrão, não há mais volta. É como naquele acertado comercial de refrigerante que dedurava: "seu amigo está a fim de você". Quanta amizade "platônica" ele não deve ter estragado...