18.6.08

Ficção x autobiografia - a missão

Tem uns reality shows que você assiste e com um pouco de traquejo já pensa, hum, obviamente é tudo armado. Se o cara medíocre pudesse perceber isso (mas não percebe, por ser medíocre), isso tiraria para ele o gosto de assistir ao reality show. Para mim, o programa fica até melhor. "Armar tudo" dá a maior trabalheira - e eu valorizo esse trabalho. Vivemos num tempo de relatividades, não tem mais verdades absolutas. Portanto, aprovo a mentira, porque se a contam a você, estão dizendo "eu me importo". Ficcionalizar um acontecimento quer dizer: "não vou entregar a realidade toda desarrumada para vocês, vou dar um trato antes, para ficar legal". É uma gentileza - em oposição ao exibicionismo de contar a verdade nua. Sendo que até quem conta a "verdade" não conta tudo. Seleciona os fatos - geralmente os que o colocam como pessoa exemplar, corajoso, ou romanticamente-atormentado-mas-não-patético (o que é igual a emo). Então também mente. E mente mal, e em benefício exclusivamente próprio. Nem o valor de uma "verdade" isso tem...
O alter ego é um instrumento excelente. O problema é quando vira idem ego. Quer dizer, o bacana, pelo menos para o leitor que não te conhece pessoalmente, é você explorar uma versão alternativa de você, que pegou uma ou mais veredas que você não pegou -- e não contar aquilo que você fez no verão passado. Pouca gente entendeu que foi isso que fiz em A feia noite: sim, Maria Luiza era bochechuda, branquela e de cabelos pretos encaracolados como eu, mas era fera em matemática, não em português; e não teve pai; e nunca se preocupou com religião... o que resultou numa forma de pensar e de agir bastante diversa da minha.
Quando falo que ler um genuíno alter ego é bacana também pros leitores que não te conhecem pessoalmente, refiro-me ao velho modelo do escritor distante, isolado na torre de marfim, sensível demais para se submeter aos inputs caóticos de um dia na rua -- que não conhece o seu leitor. Aprovo essa falta de badalação veementemente, pelo menos durante o expediente. Não que eu seja tradicionalista: acatei feliz a torre de marfim portátil, com a qual posso descer à rua para coletar material e cortar as entradas inoportunas ao meu bel-prazer, para depois voltar para a torre portátil, sentada num banco de praça, e escrever ali mesmo -- com conexão wireless, se bobear.
O que as novas tecnologias fizeram com a relação autor-leitor, no entanto, foi outra coisa. Hoje os leitores têm plenas chances de conhecer os autores pessoalmente, especialmente o autobiográfico, que nunca vai admitir isso, mas pôs sua vida no papel para ser procurado e aumentar sua influência/ proeminência sobre os que já conhece. Isso também funciona para fotologgers, grafiteiros, grupos musicais etc. É uma nova dinâmica, um New Deal -- você me paga pau e eu cresço, cagando pra você. Tem um nicho que curte. Mas hoje, pelo menos na literatura, há muito autor dominador pra pouco leitor submisso. Porque é sempre limitado o número de pessoas que o autor pode conhecer...