9.4.07

"Os editores querem que o indivíduo traduza para o padrão médio da língua, mas como se pode fazer isso quando o original rompe justo com esse padrão?
Isso me aconteceu exatamente com as traduções de Dostoiévski que fiz para a José Olympio, na década de 60. Uma vez, o revisor me chamou, e a revisão lá era muito cuidada, mas muito respeitosa, em relação ao que eles consideravam a tradição da língua; o revisor me chamou por causa de um conto em que aparecia a expressão "cor hemorroidal". Ele disse: "Isso não existe em português". Eu respondi: "Como não existe? Cor existe, hemorroidal existe, então porque não posso juntar as duas palavras?" Aí eu expliquei que a expressão tampouco existia em russo, que tinha sido criada especialmente para aquela obra. Por que eu não podia cometer em português a ousadia que Nicolai Gogol cometera em "O Capote" e que fora resgatado por Dostoievski em russo, por que eu tinha que ser sempre médio, medíocre? Isso acontece com muita freqüência."
- Boris Schnaiderman, tradutor, em entrevista a Lia Wyler no jornal Pé da Letra em julho/93, grifos meus