27.3.06

Não é legal quando você viaja e todos têm vários posts novos e tem 3 dias de jornal por baixo da porta? Seria ainda melhor se livros pudessem acasalar e gerar novos livros enquanto a casa está vazia. (Deixava um Dickens com um Chuck Palahniuk, que será que ia dar?)
Quando eu era criança tinha essa impressão: que surgiam livros na minha casa que não estavam lá antes. Eu sabia de cor o conteúdo das prateleiras - nas quais trepava usando cadeiras, as gavetas e a bancada - e mesmo assim surgiam novos que ninguém sabia explicar de onde tinham vindo. Eu me sentia num filme-de-etê: perguntava a todas as pessoas da casa se tinham trazido esse livro que eu estava segurando, eles pegavam, olhavam a capa e diziam nunca ter visto. "Mas não estava lá antes", eu batia o pé, desacreditada como criança maluca.
I mean, tínhamos muitos livros (muita coisa chata e ruim, pra dizer a verdade) e eu lia um pouco de tudo: de engenharia (li "Ao pé do muro"), cálculo, psicologia (li "Filhos queridos"), romances de banca - tínhamos "A vida do bebê" e o outro para "crianças até 16 anos" que recomendava livros para cada faixa etária. Algumas recomendações me interessaram, mas eu não sabia "pedir pra mamãe" como os comerciais da Xuxa conclamavam. Eu era a Rei Ayanami nessa época, eu nem sabia constatar um desejo, quanto mais batalhar pela sua concretização.
Os livros recomendados começaram a aparecer em minha casa, sem que eu pedisse nem falasse neles.
Apareciam no meio de outros totalmente díspares - eu era capaz de reconhecer a lombada como de ficção lá de baixo, e trepava atrás dele. Quando eu os mostrava às pessoas da casa, já disse: ninguém sabia dizer de onde tinha vindo aquilo. Eu chegava a propor teorias: será que não vieram da minha madrinha professora? -Não, ela só mandou livro didático. Tendo chegado a revistar todos os armários da casa atrás de "mais livros" e surpresas velhas como fantasias de carnaval, não creio que tenham vindo daí - da coleção velha de alguém, encaixotada por falta de espaço nas estantes. E não, meus pais não eram nem um pouco o tipo de pessoa criativa que esconde ovo de páscoa, se veste de Papai Noel - ou seja, trabalha ativamente para corroborar mitos úteis à infância. Eles falavam sério.
Dei de ombros e fui ler. Li "Raul da ferrugem azul" e "Manu, a menina que sabia ouvir" nesse esquema místico. E quem conhece o conteúdo dos livros sabe que eles estão cheios de coisas inexplicáveis. Assim sendo, acho que me acostumei. O importante, afinal, era que os livros estivessem lá.